A essência fenomenológica da linguagem
Numa perspetiva fenomenológica, a poética não designa uma teoria da literalidade, i.e., um saber sobre o discurso literário nos seus géneros e propriedades, tal como ele foi entendido pela tradição, como linguagem de ficção, desvio da literalidade ou da significação corrente (ARISTÓTELES, 1992). Antes refere o ato de produzir, no sentido de levar para diante e explicitar o que aí está a dar-se, i.e., o aparecer do fenómeno, mas que requer a mediação explicitativa e interpretativa da linguagem, de modo que alcance a plenitude da sua verdade. Ora, lembra o filósofo, “[…] o que antes de mais é é o Ser” (HEIDEGGER, 1976, 313). A um dizer assim manifestativo, foi o Homem chamado pelo próprio ser, a fim de consumar a iniciativa da sua revelação. Os Gregos deram-lhe o nome de poieisis, “poesia”, que era para eles a mãe de todas as artes e a essência da própria linguagem (Id., 2005, 126-127).
Aquela última, assim entendida, não constitui uma criação humana nem tem um carácter instrumental, não transmite conteúdos, significações previamente estabelecidas acerca das coisas, como é do entendimento da conceção semiótica vigente. Constitui, sim, um dom que foi confiado ao Homem pelo ser, a fim de que, pelo pensar, ele possa ser guardado, preservado na sua verdade e morar junto do Homem como abrigo e sentido (Id., 1976, 313). No seu teor apresentativo e dinâmico, que não representativo, a linguagem não se limita a dizer a existência ou o estar a ser da realidade, escande ainda o ritmo da sua temporalização, o movimento da sua vinda-à-presença, o como do seu aparecer. Desenvolve, para isso, formas puras de ver/compreender que combinem o mesmo, o outro e o tempo, integra dualidades, resolve antagonismos numa harmonia discordante, elaborando sínteses sempre mais abrangentes, que logrem constituir um horizonte de inteligibilidade e sentido. Símbolo, metáfora e mito, antes dos conceitos ou das ideias, são os veículos dessas construções moventes, sempre provisórias, em que se coagula a apreensão do todo numa tentativa inglória, mas sempre recomeçada, de exprimir o indecidível e propriamente indizível, a versatilidade plural e inesgotável do que excede todo o visível e que os signos vulgares não conseguem traduzir.
Contudo, a essência da linguagem não se esgota na sua vocação ontológica e apofântica. Comporta ainda uma significativa dimensão expressiva e comunicativa, sem a qual o dizer poético jamais alcançaria a plenitude da sua intencionalidade. Com efeito, como veremos, ela é sempre um dizer algo de algo a alguém, em que o próprio falante, falando, se diz, exprime a experiência saturada que faz da sua abertura à realidade. Invoca, para tal, um tu a quem dizer-se, adota um tom confessional, instaura um espaço de encontro e relação, é promotora de comunidade.
A poesia é, por isso, a mais humana e singela das ocupações, “traz à vida alguma coisa de que ela precisa” (MENDONÇA, 2019, 107). Restituindo ao mundo o seu esplendor inicial, ela religa-nos à fonte, é relação de pertença no seio da separação. Nesse sentido, o poeta é o mais humilde dos homens e o mais religioso, deixa-se crucificar pela dor do mundo, intercede por ele para o salvar da incúria dos homens.
Natureza da experiência poética
Em poesia, trata-se sempre, de alguma maneira, de algo da ordem da experiência. Não, decerto, na aceção do experimento científico que busca certezas para melhor dominar, mas nessa outra de uma recetividade que se deixa afetar e mover pelo que vem ao encontro. O que ali está em causa, com efeito, é uma certa disponibilidade para o acontecimento, um poder vivenciar uma distinta temporalização do tempo e por ela se deixar transformar.
Tudo começa pelo escutar, que supõe um prévio saber silenciar: um sentir que não é da ordem dos sentidos, mas do sentimento, uma antecipação de sentido permeada de inteligibilidade, uma primeira articulação da compreensão. Há sentimentos particulares que concernem aos entes e sentimentos ontológicos, como a alegria e a dor, que se reportam ao todo, indicam como nos encontramos no mundo (HEIDEGGER, 2014, §§ 29 e 40). Na grande poesia, é sempre destes que se trata, mesmo se a propósito de algo particular. O poeta é mesmo aquele que primeiro faz a ponte entre os dois planos, a parte e o todo, o ente e o ser, através de um procedimento simbólico e metafórico, que reporta um objeto da intuição empírica a um conceito ou a uma ideia da razão para os quais não há correspondente intuitivo na experiência (KANT, 1996, § 59).
A escuta é apreensão do aparecer do mundo em situação, não da forma acabada das coisas, mas da sua formação, do desenho da sua automanifestação, o que pressupõe que nos deixemos tocar por elas, pelo seu mostrar-se em si mesmas, o seu estilo, que significa sem representar. Surpreende, assim, na mensagem sibilina do murmúrio das fontes e do sussurro das árvores, na criança que brinca e na flor que desabrocha, a aparição enigmática do ser que em tudo se revela e de tudo se retira. Antecipa ainda a chegada do inverno, a tempestade que se aproxima, o rigor das neves, e em tudo pressentindo o sentido, guarda-o e medita-o no interior do coração. Já o Homem moderno, porém, perdeu a sabedoria da escuta: disperso, errante de objeto em objeto, procura colmatar o vazio num mar de informações e emoções que não domina e o afogam. De costas voltadas para o mundo, isolado de tudo, só atende aos seus próprios interesses e congeminações, avançando, a passos largos, para a destruição do meio em torno.
A escuta faz memória, e da lembrança, da recordação do sucedido, nasce, involuntária e como que por milagre, a música dos primeiros versos. É uma certa cadência do tempo, uma direção de sentido do espaço, um misto de alegria e de dor, isso que, pondo a imaginação em ação, convoca o poeta a falar, a dizer o que tem para dizer, mas não é nada de preciso – tão-só o Aberto, o impercetível e imenso evento do que se dá em presença.
A poesia não constitui, por isso, um caso particular da linguagem natural, mas a sua origem. Ela é a palavra no seu estado nascente, inaugural, que responde ao apelo mudo dos seres a serem ditos, resgatados no clarão do ser, de que são a manifestação. Ela responde ao mistério do haver por um ato de expressão, a força criadora de um querer dizer que é a essência mais profunda do humano.
Interlocução
Num certo sentido tudo depende da Voz, do fenómeno da inspiração, da afinação do coração, da sua vibração em uníssono com o todo, do circuito assim estabelecido entre o aqui e o além, que tudo envolve numa grande unidade englobante. Ela dá o tom ao poema, dita a cadência dos seus versos: épica ou lírica, trágica ou elegíaca. O romantismo, que consagra o poder espiritual do poeta, é o período da voz interior da inspiração, da elocução e proclamação. Religando o discurso poético à subjetividade, ela assegura a transição do eu para o tu, torna-se a intérprete das múltiplas vozes do mundo. Concertante e sinfónica, a Voz faz a mediação entre as partes e o todo, o singular e o universal, num trânsito incessante entre o finito e o infinito. Com o modernismo, porém, desaparece o fenómeno da inspiração, rompe-se a transitividade entre o real e o irreal, que o verbo assegurava, fica o trabalho profano e prosaico da escrita. O realismo toma o lugar primordial, celebra-se o lirismo da matéria, a celeridade da vida moderna, a sua volatilidade e o seu cosmopolitismo. A Revolução Industrial faz recuar a natureza, evidencia a brutalidade do objeto técnico, que só o simbolismo com a sua musicalidade, a alusão ao etéreo e ao alegórico, logra atenuar.
Porém, a Voz é incontornável, pois a poesia só acontece quando a deixamos falar em nós, dizer a mensagem que ela quer transmitir e que interpela o poeta a falar. Inaugura assim um circuito, uma corrente espiritual, que não envolve apenas a linguagem anónima das coisas, eleva-se acima do âmbito da nossa imanência, numa ascensão espiritual que vai para lá do próprio mundo. Inicia-nos, deste modo, no mistério da Transcendência, revela o rosto pessoal de Deus – um Tu que, do cimo da sua verticalidade, se compadece da nossa miséria e chama, colocando assim o poeta ao serviço de uma vocação orante.
Foi em contexto bíblico, na experiência histórica do povo de Israel, que o discurso poético alcançou aquela singular feição dialógica, que o fez eco e intérprete da presença e ausência de Deus. Descobriu, assim, que tudo tem o mesmo dom por raiz – uma iniciativa de relação e participação. Ganhando um tom profético e escatológico, torna-se cântico de louvor e ação de graças, mas também súplica e lamentação, apelo lançado em e para lá do mundo que termina no silêncio com que começou.
Bibliog.: ARISTÓTELES, Poética, 3.ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1992; BRUN, J., L’Homme et le Langage, Paris, PUF, 1985; DUFRENNE, M., Le Poétique, Paris, PUF, 1973; HEIDEGGER, M., “Brief über den humanismus”, in HEIDEGGER, M., Gesamtausgabe, vol. ix, Frankfurt am Main, V. Klostermann, 1976, pp. 313-364; Id., Achèvement de la Métaphysique et Poésie, Paris, Gallimard, 2005; Id., Ser e Tempo, ed. bilingue, Petrópolis, Vozes, 2014; KANT, E., Kritik der Urteilskraft, 2.ª ed., Frankfurt am Main, Suhrkamp, 1996; MACLEISH, A., Poetry and Experience, Cambridge (Massachusetts), Riverside Press, 1961; MARITAIN, J. e MARITAIN, R., “De la connaissance poétique”, in MARITAIN, J. e MARITAIN, R., Oeuvres Complètes, vol. vi, Fribourg/Paris, Éditions Universitaires Fribourg/Éditions Saint-Paul, 1984, pp. 839-891; MAULPOIX, J. M., Du Lyrisme, Paris, J. Corti, 2000; MENDONÇA, J. Tolentino, Uma Beleza Que Nos Pertence, Lisboa, Quetzal, 2019; SUHAMY, H., La Poétique, Paris, PUF, 1986.
Mafalda Blanc