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Qumram, textos de

Os textos de Qumran representam de forma expressiva e, por vezes, mesmo dramática, várias tonalidades de espiritualidade e podem servir de testemunho para um longo período em que o judaísmo foi passando por momentos de grande tensão e algumas catástrofes. Estas marcaram a sua história, nos cerca de 200 anos entre a profanação do templo de Jerusalém, no tempo do rei selêucida Antíoco IV Epifânio (164 a.C.), e a sua destruição em 70 d.C. Para este tempo decisivo, existem relatos em vários livros da Bíblia, como Daniel, Judite, Macabeus e Sabedoria, e também a imensa variedade de documentos que integram o acervo bibliográfico dos textos de Qumran. Podemos dizer que este acervo constitui um espaço cultural e espiritual onde se definem muitas das raízes que tiveram desenvolvimento tanto no cristianismo como no judaísmo rabínico. Em certos conteúdos destes textos podem antever-se as ideias de alguns movimentos que foram precursores do que, em fases posteriores, foi ganhando corpo em cada uma das religiões beneficiárias da herança bíblica.

Esta espiritualidade estava já representada no Documento de Damasco, um manifesto religioso e espiritual que tinha sido, entretanto, descoberto no acervo dos antigos textos da guenizá, repositório de antigos textos religiosos da sinagoga do Cairo. Depois apareceram também textos no sítio arqueológico de Qumran, cujo significado se projeta na investigação de toda a Bíblia. Algumas das coordenadas de espiritualidade presentes neste conjunto merecem ser particularmente sublinhadas.

A Lei, como suprema instância normativa da vida religiosa dos judeus, era vista pelos homens de Qumran com uma intensidade e um radicalismo que tornavam o seu modelo de espiritualidade e mística bastante exacerbado. As exigências de pureza e perfeição no cumprimento da mesma requeriam uma urgente transformação, tão radical que os levou a um corte com a versão oficial do judaísmo de Jerusalém, afetando os pormenores da observância legal e provocando a discordância com as práticas religiosas do templo, a rejeição mútua das autoridades religiosas que a ele presidiam e até mesmo a assunção de um calendário religioso completamente diferente. Ora, a mudança de calendário interfere com aspetos essenciais da prática religiosa e revoluciona a espiritualidade. Este radicalismo levava a uma consciência de que os males que afetavam a sobrevivência espiritual de Israel não vinham apenas da ameaça de inimigos externos, mas acirravam-se ainda mais com a má conduta dos inimigos internos ao judaísmo. Viviam, muito a seu modo, numa tensão dialética entre nomismo e apocalíptica: afirmavam a Lei de forma radical e investiam nas perspetivas revolucionárias da apocalíptica. E a própria modalidade de apocalíptica que assumiram parece, também ela, dividida entre uma atitude de militância na preparação da guerra contra aqueles que iam identificando com os filhos das trevas e uma espécie de quietismo apocalíptico, em que, face à escassez de recursos bélicos e à superioridade militar dos adversários, declaravam que aquela guerra era de Deus, e assim entregavam a defesa dessa causa nas suas mãos. De qualquer modo, eles parecem colocar o apocalipticismo cósmico à frente do simples apocalipticismo histórico. E aí a sua visão ultrapassa o imediatismo das questões locais e assumia o alcance universal dos textos de criação.

As dificuldades da tarefa que enfrentam acentuam a necessidade de obter respostas e soluções, com a intensificação da ideia de revelação, a valorização de mediadores de revelação e salvação, o retorno de figuras proféticas do passado e o enorme destaque dado a um profeta fundador, designado Mestre de Justiça. Esta procura da verdade fazia-se com um esforço especial, em matéria de hermenêutica aplicada aos textos de autoridade bíblica, e com muita produção e criatividade próprias, tanto em matéria doutrinal e disciplinar como em textos destinados às cerimónias religiosas do grupo, nomeadamente novos salmos.

Esta mediação não dispensava, mas sublinhava o recurso à categoria tradicional do messianismo, que a apocalíptica potenciava em alto grau e se desenvolvia em cumplicidade com as expectativas investidas no Mestre de Justiça.

Em termos gerais, esta espiritualidade inspirava adeptos e simpatizantes por toda a Palestina. Para os da elite de Qumran, ela traduzia-se numa instituição religiosa de tipo monacal, com uma vida comunitária intensa e rigorosa, num modelo de prática religiosa exclusivamente sinagogal. As sinagogas parecem ter-se transformado, para o judaísmo daquele tempo, numa alternativa ao templo de Jerusalém, privilegiando certamente as dimensões religiosas da espiritualidade acima dos seus aspetos cultuais.

Todos estes modelos de espiritualidade colocam o teor de vida espiritual dos homens de Qumran no âmbito de uma sensibilidade mística, que parece mais inclinada para os parâmetros normativos e práticos da Lei, que os místicos judeus posteriores viam simbolizados no carro de Deus, a mercabá, seguindo a imagética de Ezequiel (Ez 1; 10, 13). Os autores ou recoletores medievais dos textos do Zohar colocam, de forma simbólica ou pseudoepigráfica, as origens desta corrente mística em figuras do séc. i d.C., com Johannan bar Yokhay e os rabinos seus discípulos, mas Qumran tem raízes para isso.

Esta espiritualidade representa preocupações e sonhos acalentados entre o séc. ii a.C. e o ano 70 d.C. Estas inquietações parecem estar presentes na vida dos judeus daquele tempo como uma sensibilidade e mentalidade religiosa bastante difundida por entre a população. O nome de “essénios” continua, desde a Antiguidade, a ser de algum modo consensual, como referência para a linha de espiritualidade que marca esta fase terminal de formação da Bíblia, bem como para a elite espiritual que constitui a comunidade de Qumran.

 

Bibliog.: VERMES, Geza, Manuscritos do Mar Morto, Lisboa, Ésquilo, 2006; GARCIA MARTÍNEZ, Federico, Textos de Qumrán: Edición y Traducción, Madrid, Editorial Trotta, 1993; Id. e TREBOLLE BARRERA, Julio, Los Hombres de Qumrán: Literatura, Estrutura Social y Concepciones Religiosas, Madrid, Editorial Trotta, 1993; VAZQUEZ ALLEGUE, Jaime (coord.), Para Compreender os Manuscritos do Mar Morto, Coimbra, Gráfica de Coimbra, 2005.

 

José Augusto Ramos

 

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