Explicaremos o significado do termo “racionalização” não tanto por meio de uma definição abrangente, que serve para todos os tempos e lugares, mas antes através de três processos que interagem em tensão dinâmica.
O primeiro deles é a racionalização entendida como processo histórico-religioso: nas religiões universais de salvação, o valor religioso já não reside na identificação total com o “encantamento” grupal, começando a adquirir a forma de uma abertura pessoal à transcendência. Tendo em conta que as novas mensagens religiosas da Idade Axial foram dirigidas aos indivíduos como tais, mais do que às células de um organismo social, tais mensagens foram universais no seu alcance. Segundo o ponto de vista das religiões de salvação, o homem já não se define nos termos da tribo ou do clã do qual procede ou nos termos do Deus particular a quem serve, mas sim como um ser capaz de salvação. Ou seja, torna-se possível, pela primeira vez, conceber o ser humano enquanto ser humano. Isto significa que o período das religiões tribais e nacionais perde força e que tem início o período das religiões universalistas. Os avanços “axiais”, de alguma maneira, prepararam o terreno e as condições para a institucionalização das religiões “históricas” universais. Progressivamente, as comunidades de culto, fortemente enraizadas nas religiões pré-axiais, convertem-se em comunidades de salvação.
O segundo processo alude à racionalização como processo histórico-científico: ali onde o conhecimento racional empírico realiza, consequentemente, o desencanto do mundo, transformando-o num mecanismo causal, aparece por fim a tensão contra o postulado ético de que o mundo é um universo ordenado por Deus e que, assim, se rege por um sentido ético. Com efeito, a consideração empírica do mundo, e também a matematicamente orientada, gera, por princípio, a rejeição de toda a consideração do mundo que pergunte por um “sentido” (integrador) do acontecer intramundano. A intelectualização e a racionalização crescentes não significam, pois, um maior conhecimento geral das condições gerais da nossa vida. O seu significado é muito diferente; indicam que se sabe ou se acredita que, em qualquer momento em que se queira, se pode vir a saber que, por conseguinte, não existem em torno da nossa vida poderes ocultos e imprevisíveis, mas sim, pelo contrário, tudo pode ser dominado mediante o cálculo e a previsão.
O terceiro processo afeta a racionalização do modo sistemático de conduta. Max Weber situa este processo no ascetismo intramundano da Reforma, para a qual a necessidade de comprovação da fé na vida prática, com o objetivo de obter a certeza subjetiva de salvação, produz um arquétipo de conduta racional sistemática que se manifestará como um componente característico da cultura moderna. Para Norbert Elias, com a constituição gradual da sociedade absolutista e cortesã, dá-se uma transformação da organização dos impulsos e do comportamento da classe alta no sentido da “civilização”. É aí que se “dulcificam”, “pulem” e “civilizam” os costumes grosseiros e rudes e os hábitos irreprimidos da sociedade medieval e da sua elite aristocrática, que são consequência necessária de uma vida permanentemente ameaçada e insegura. A pressão da vida cortesã, a competição pelo favor do príncipe ou dos “grandes” e, em geral, a necessidade de se diferenciar dos demais e de lutar por melhores oportunidades com meios relativamente pacíficos, através de intrigas e da diplomacia, impuseram uma contenção das emoções, uma autodisciplina ou autocontrolo, uma racionalidade cortesã peculiar, que faziam com que o cortesão da época representasse a quinta-essência do homem racional aos olhos da opositora burguesia do séc. xviii.
Bibliog.: ELIAS, Norbert, El Proceso de la Civilización. Investigaciones Sociogenéticas y Psicogenéticas, México, FCE, 1969[1939]; Habermas, Jurgen, Auch eine Geschichte der Philosophie, 2 vols., Frankfurt, Suhrkamp, 2019; WEBER, Max, Ensayos sobre Sociología de la Religión, vol. 1, Madrid, Taurus, 1983.
Josetxo Beriain