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Refrigerium

Termo conexo à ideia de resfriar, “refrigerium” é usado, em sentido metafórico, para expressar alívio, conforto, consolo, descanso, ajuda. Em inscrições, na liturgia e na literatura cristãs, assume o sentido de alívio das almas no além (referindo-se à felicidade e repouso eterno da alma bem-aventurada antes do Juízo Final) ou de libertação de sofrimentos (descanso eterno). Algumas vezes, o seu uso implica uma visão popular, um tanto materializada, do pós-morte.

O sentido escatológico de um alívio espiritual encontra-se a partir do séc. ii. O vocábulo evoca a água que sacia a sede, tornando-se, assim, fator de vida. A imagem da alma que tem sede (cf. Sl 42, 2; 63, 2), embora sobrepasse a ideia de refrigerium, pode ter sido ponto de partida para o desenvolvimento do conceito, sobretudo se considerados textos bíblicos que mostram a importância da água para a vida (cf. Nm 20, 11; Sl 66, 11-12; Jo 4, 13-15; 7, 37-38). Expressa-se então o repouso ou felicidade eternos (cf. Sb 4, 7; Eclo 2, 9; 30, 17; Jr 6, 16).

O termo liga-se à reflexão acerca do estado das almas dos defuntos antes da ressurreição corporal. Na investigação teológica e em crenças populares, especulou-se sobre a existência de um estado provisório do justo no reino dos mortos, o “seio de Abraão” (cf. Lc 16, 22-24), ou Paraíso, antes da consumação final. Os justos viveriam já um estado de descanso, mas ainda sem chegarem à visão perfeita de Deus, que se daria após o Juízo Final e a ressurreição. A ideia de um estado intermediário é suposta ainda em ritos fúnebres do culto aos mortos, em geral (ou especialmente aos mártires, nos primeiros séculos cristãos), que se desenvolveram especialmente no Norte de África. Visava-se rezar pelo seu descanso e manter viva a sua memória, recordando-se o seu nascimento para a vida do além. Muitas vezes acompanhado de refeições, esse culto passou a integrar elementos pagãos (a partir do final do séc. iv), pelo que foi proibido por bispos, que enfatizaram somente a oração pelos mortos e o culto aos mártires.

 

Bibliog.: DASSMANN, E., “Jenseits”, in DASSMAN, R. (dir.), Reallexikon für Antike und Christentum, vol. 17, Stuttgart, Anton Hiersemann, 1994, cols. 356-401; QUASTEN, J., “‘Vetus superstitio et nova religio’. The problem of refrigerium in the ancient Church of North Africa”, The Harvard Theological Review, n.º 33, 4, 1940, pp. 253-266; RUBIO NAVARRO, J. F., “Refrigerium”, in DI BERARDINO, A. (dir.), Nuovo Dizionario Patrístico e di Antichità Cristiane, vol. P-Z, Genova/Milano, Marietti, 1983, cols. 4477-4479; VAN DER LEEUW, G., “Refrigerium”, Mnemosyne, 3.ª série, n.º 3, 2, 1936, pp. 125-148.

 

Maria de Lourdes Corrêa Lima

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