Uma regressão (ou progressão) ao infinito é uma série, cadeia ou processo lógico sem fim (não finito) pelo qual, a partir do primeiro elemento ou elo conhecido da série, se busca, de elo em elo, o elemento seguinte, anterior (regressus) ou posterior (progressus), sem nunca se chegar ao último. Ambos os processos (regressão ou progressão) são modos de explicação que supõem uma série infinita, em que cada elemento gera o seguinte, através de um princípio recursivo que determina como é que cada elemento da série depende do seu predecessor ou é produzido por ele. Platão, no diálogo Lísis, Aristóteles, nos Segundos Analíticos e na Física, e Tomás de Aquino, no De Veritate e na Summa Theologica, ocuparam-se da regressão infinita.
Chama-se “argumento de regressão infinita” a todo o argumento geralmente usado com vista a invalidar ou objetar uma teoria, baseando-se no facto de que ela implica uma regressão infinita e que, simultaneamente, esta regressão é viciosa (i.e., não se basta a si mesma ou é contraditória, sendo a forma mais grave de contradição uma impossibilidade metafísica). Pode evitar-se a regressão infinita através do fundacionalismo (epistemológico, moral ou metafísico) ou da sua radical alternativa contemporânea, o coerentismo.
O fundacionalismo, que é a posição mais tradicional, postula que há um primeiro elemento da série, a um nível mais fundamental ou fundacional, a partir do qual surgem todos os outros elementos, mas o primeiro elemento não pode ser explicado deste modo, mediante um princípio recursivo, evitando-se, assim, uma regressão infinita. Um exemplo epistemológico são as teorias fundacionalistas da justificação epistémica, para as quais as crenças justificadas não inferencialmente (e.g., através do conhecimento direto dos objetos de crença) são o fundamento sobre o qual assentam todas as crenças justificadas de modo inferencial. A nível moral, o fundacionalismo apela a uma fonte última das nossas crenças e ações morais, e.g., o bem supremo ou felicidade, em Platão e Aristóteles, a que o Homem aspira através do conhecimento e da prática da virtude. Dois exemplos provenientes da metafísica são o argumento cosmológico e, uma sua variante, o argumento da causa primeira, ambos a favor da existência de Deus. O argumento, aristotélico-tomista, parte da observação de que as coisas físicas atualmente existentes sofrem e causam mudança. Ora, tudo o que muda muda por ação de uma causa externa, a qual, por sua vez, é causada por (ou dependente de) outra causa anterior, e assim sucessivamente, numa cadeia infinita de causas. Contudo, uma cadeia infinita de causas não é satisfatoriamente explicativa (ao negar a inteligibilidade do ponto de partida), pelo que deverá existir uma causa necessária e primeira (motor imóvel), fora da cadeia (que transcende cada elemento da série, bem como a sua totalidade), a qual causa, mas não é causada (incausada), sendo, pois, causa de si mesma (causa sui, ou melhor, principium sui), ou seja, Deus, fonte de todo o ser e agir. Aquino defende este argumento relativamente a uma série de causas per se subordinadas, i.e., causas que dependem umas das outras no exercício atual da sua causalidade, mas não para uma série de causas per accidens subordinadas, em que umas não dependem das outras para o exercício da sua causalidade.
Hume, Kant e Russell atacaram o argumento cosmológico. Hume, com base na sua noção de causalidade (entendida como simples hábito da mente), embora tal noção possa também ser desconstruída, já que o vínculo causal físico é trans-fenoménico. Kant, no contexto das antinomias da razão pura, chama a atenção para o carácter da ideia cosmológica de totalidade, da qual não há “experiência empírica” de nenhum limite absoluto. Também Russell negou que a ideia de causalidade pudesse ser aplicada à totalidade do cosmos. Contudo, o apelo kantiano a princípios puramente formais sem conteúdo substantivo para assentar as leis básicas da física newtoniana, como verdades eternas, em juízos sintéticos a priori (uma ficção, pois não aparecem a partir da realidade física para poderem transcender a mera tautologia), convertendo a mecânica racional numa espécie de lógica transcendental (à imagem e semelhança da lógica formal), que conduzia a uma ciência física vazia e fechada, puramente dedutiva, não é hoje aceitável. Além disso, a cosmologia física a partir de Einstein já admite que a totalidade do cosmos pode ser tratada como um objeto físico. Caem assim por terra as objeções de Kant, de Russell e de outros filósofos contemporâneos ao argumento da causa primeira, já que a sua argumentação lógica é insuficiente para equacionar o problema da causalidade física.
Outra forma de evitar regressões infinitas, na filosofia contemporânea, é o coerentismo, principalmente no campo da epistemologia, que se baseia numa explicação holística, relacionando os elementos em questão não como uma série linear, mas como uma rede interconectada. Assim, neste caso, a justificação de cada crença assenta na totalidade coerente dessa rede.
O problema da regressão infinita também se coloca na matemática, na informática, na ótica (formação de imagens em sistemas de espelhos planos paralelos) e nas ciências jurídicas (o problema da fundamentação da lei).
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Álvaro Balsas