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Sagrado

Para os cientistas sociais da religião, o sagrado pode ser designado de várias formas: seres transcendentes, sobrenaturais, supra-empíricos, superiores, sobre-humanos ou espirituais, deuses ou divino. De maneira geral, há dois tipos de abordagem sobre o sagrado: societal e individual. Na abordagem societal, de raiz francesa, prefere-se o coletivo, a ordem e a lei societal. Na abordagem individual, de raiz alemã, prefere-se o indivíduo, a vontade e a ideia subjetiva. Na base de ambas, encontra-se a experiência com o sagrado: enquanto a primeira assenta na experiência coletiva, a segunda baseia-se na experiência individual.

A primeira escola, herdeira do positivismo de Comte, tem Durkheim como fundador, para quem sociedade e sagrado se equivalem. Também Comte via na humanidade o “Grande Ser” a ser adorado. Ou seja, ao considerar-se a sociedade como sagrada, como objeto de adoração, a religião, através de crenças e rituais, torna-se essencial para a preservação da coesão social. No culto coletivo, decorre a efervescência coletiva impulsionadora de empenho religioso e, por isso, de fé e de coesão. A dependência em relação ao sagrado e à religião revela a dependência em relação à sociedade, pelo que, na sua ausência, a sociedade se desintegra.

A segunda escola, herdeira do idealismo de Kant, teve como seguidores Weber e Simmel, entre outros. Na sociologia compreensiva de Weber, pretende-se compreender o sentido dos contextos da ação para os indivíduos e as consequências que o sentido tem na ação. Como defendia Weber, o sentido compõe-se das experiências subjetivas, das conceções e das finalidades dos indivíduos. Enquanto a religiosidade oriental se caracteriza pela contemplação, a religiosidade ocidental define-se pela ação, pela justificação ética do carisma. Desta forma, no mundo ocidental, a experiência do sagrado limita-se sobretudo aos líderes religiosos carismáticos, aos profetas, eventuais fundadores ou renovadores religiosos, os quais, pela experiência individual do sagrado, trazem algo de novo.

Simmel tentou conjugar as duas escolas: a sociedade compõe-se de indivíduos ligados pela interação, decorrendo a coesão social da mesma. A interação não só expressa e satisfaz os desejos individuais, mas também modela a personalidade na forma e no conteúdo. Na religiosidade, como conteúdo da experiência individual, assenta a religião, a qual decorre de múltiplas experiências interativas. Como defendia Simmel, a religiosidade, um estado sem objeto ou um ritmo da interioridade, maneira psíquica de viver e de experienciar o mundo, modela a religião. Desta forma, a conceção de sagrado, os seus atributos, surge da interação entre os indivíduos, já que a relação entre o indivíduo e o seu deus reproduz a sua relação com os outros.

Bibliog.: DURKHEIM, Émile, Les Formes Élémentaires de la Vie Religieuse, Paris, Presses Universitaires de France, 1912; SIMMEL, Georg, Die Religion, Frankfurt am Main, Rütten & Loening, 1906; WEBER, Max, Sociologia das Religiões e Consideração Intermediária, Lisboa, Relógio d’Água, 2006.

 

José Pereira Coutinho

Autor

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