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Semântica

Embora a preocupação com o significado das palavras remonte a Aristóteles e ao cratilismo platónico, o primeiro registo do termo “semantics” ocorreu em 1894, na publicação da American Philological Association intitulada “Reflected meanings: A point in semantics”. No entanto, foi só em 1897, com a obra Ensaio de Semântica, de M. Bréal, que se instituiu a semântica como disciplina autónoma no âmbito dos estudos linguísticos. Na contemporaneidade, a semântica é entendida como a disciplina linguística cujo objeto de estudo é o significado das unidades linguísticas, dedicando-se, desta forma, à sua interpretação. Neste sentido, a semântica debruça-se sobre o estudo da face não material dos signos linguísticos, distinguindo-se, por isso, das disciplinas linguísticas da fonética, da morfologia e da sintaxe. Considerando a dicotomia saussureana significado/significante, o significado constitui a representação mental de um conceito que os falantes possuem e associam a um determinado significante. Deste ponto de vista, nas línguas naturais, o significado decorre das relações que são estabelecidas entre as unidades linguísticas e as coisas e situações do mundo. Neste âmbito, temos, por um lado, a semântica lexical, que se dedica à caracterização do significado dos itens lexicais, e, por outro, a semântica composicional, que tem como objeto o estudo das regras e princípios que possibilitam a interpretação de combinações de palavras. O significado dos itens lexicais é descrito através das suas propriedades semânticas (traços semânticos). Em função destas propriedades, podem ser identificados, entre as palavras, diferentes tipos de relações semânticas, nomeadamente de semelhança de traços semânticos (sinonímia), de oposição (antonímia), de identidade, entre as formas fónicas e gráficas das palavras (homonímia, homofonia e homografia), bem como relações hierárquicas (hiperonímia e hiponímia) e relações parte-todo (holonímia e meronímia). Além disso, podemos identificar o conjunto de sentidos que uma palavra pode assumir em contextos diferentes (campo semântico) e o conjunto de palavras associadas a um determinado domínio conceptual (campo lexical). No quadro da semântica lexical, é igualmente relevante considerar que podem ser atribuídos vários significados a uma palavra (polissemia) ou um único significado (monossemia). No que se refere ao uso, uma palavra pode ser utilizada no seu sentido primeiro (denotativo) ou com significações secundárias e subjetivas (conotativo). Se, por um lado, as relações e propriedades semânticas das palavras colocam desafios no que se refere à interpretação dos discursos místicos e religiosos, por outro, são também reveladoras dos percursos interpretativos possíveis, desambiguando significados ou mostrando outros. Por exemplo, no Sermão de Santo António aos Peixes, de Padre António Vieira, encontramos um grande número de palavras associadas ao campo lexical da religião cristã, bem como do mar e da pesca, sendo estabelecida uma relação de semelhança entre os dois domínios. Sob a forma de alegoria, os itens lexicais “peixes”, “naus”, “naufrágio” e “pesca” aludem aos homens, aos seus pecados ou às virtudes cristãs. Vieira, através da polissemia e de múltiplas relações de oposição, de semelhança, de hierarquia conceptual e de parte-todo, veicula as suas ideias no sermão, construindo uma realidade figurada que, na verdade, tem como objetivo aludir a determinadas ideias sociais e religiosas. Por exemplo, no capítulo iv do sermão, o pregador, ao utilizar o verbo “comer” com sentido denotativo (canibalismo) e conotativo (vigarizar, defraudar, explorar e roubar), critica a antropofagia social da época.

 

Bibliog.: DUARTE, Inês, Língua Portuguesa: Instrumentos de Análise, Lisboa, Universidade Aberta, 2000; OLIVEIRA, Fátima, “Semântica”, in DUARTE, Inês et al. (org.), Introdução à Linguística Geral e Portuguesa, Lisboa, Caminho, 1996, pp. 333-381; SILVA, Paulo Nunes da, Manual de Introdução aos Estudos Linguísticos, Lisboa, Universidade Aberta, 2010; VIEIRA, Padre António, Sermão de Santo António aos Peixes, Porto, Porto Editora, 2014.

 

Rute Rosa

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