O sikhismo (do punjabi skhi, “discípulo”) é uma religião monoteísta e panteísta fundada no séc. xv na região do Punjab, no subcontinente indiano.
O fundador do sikhismo foi Guru Nanak, que, no final dó séc. xv, terá recebido um chamamento divino revelando-lhe a mensagem do nome divino (McLEOD, 1984, 21), impulsionando-o à fundação de uma comunidade de seguidores (panth). A sua mensagem propagou-se até ao séc. xviii, através de uma linha de dez gurus sucessores. Ao longo das várias sucessões, ocorreram transformações na forma de viver e de praticar a fé, influenciadas pelos contextos políticos, económicos e sociais da sua história.
Antes de morrer, Guru Nanak anunciou o seu sucessor, Angad, que, por sua vez, foi seguido pelos gurus Amar Das e Ram Das. Guru Arjan, o quinto guru, transportou a mensagem para o séc. xvii, período em que se assistiu a uma transformação que induziu a militarização do panth, face à crescente ameaça mogol, influenciada pela predominância de grupos guerreiros entre os devotos sikh. Estes factos terão levado o sexto guru, Hargobind, no final do séc. xvii, a manter a política da ostentação de armas. Com o guru Hari Rai, o panth manteve-se discreto perante as autoridades mogóis, seguido da breve sucessão do jovem guru Hari Krishnan e, depois, de Tegh Bahadur, cuja morte foi um ponto central na historiografia sikh, uma vez que foi decapitado, em 1675, pelo imperador mogol Aurangzeb, tendo este acontecimento inspirado a fundação, pelo décimo e último guru, Gobind Singh, da ordem religiosa Khalsa, em 1699. A partir deste momento, homens e mulheres puderam integrar esta ordem, submetendo-se à iniciação e seguindo escrupulosamente o seu código de conduta (rahit).
Em 1708, com a morte de Gobind Singh, terminou a linha de sucessão, acreditando-se que desde esse momento o guru ficou misticamente presente, tanto na escritura sagrada (Guru Grath) como na comunidade (Guru Panth) (McLEOD, 1989, 44). Assim, a escritura sagrada, Adi Granth, ou Guru Granth Sahib, é composta pelas mensagens dos vários gurus, bani ou gurbani, que no seu conjunto formam o Gurmat, parte integrante da escritura sikh. Esta conjuga a teologia dos gurus com hinos da tradição sant, como é o caso de versos atribuídos ao poeta místico Kabir (McGREGOR, 1984, 47).
Várias tradições religiosas do norte da Índia influenciaram o pensamento de Guru Nanak, entre as quais o sufismo, a ordem mística do islão (McLEOD, 2000, 14), e, de forma mais profunda, a tradição sant, a corrente devocional que enfatiza a religião interior, por oposição a observâncias exteriores. Neste âmbito, a influência de Kabir sobre a doutrina de Nanak terá sido profundamente inspiradora (LORENZEN, 1981, 173), sendo evidente na disciplina como um método de libertação espiritual e, simultaneamente, como forma de protesto social (McLEOD, 1989, 24). A instituição, por Nakak, do langar, “cozinha comunitária”, que distribui refeições sem discriminação social, religiosa ou de género, simboliza a ordem igualitária do panth.
Entre as influências das tradições sant do norte da Índia, encontram-se a Bhakti, que proclama a devoção como forma de libertação, e a tradição yóguica Nath, manifestando-se ambas pela contestação ao estatuto de casta, às línguas e escrituras sagradas, ao culto do templo e à peregrinação, dominantes nas estruturas religiosas de hindus e de muçulmanos, duramente criticadas por Nanak, que coloca a ênfase na devoção interior como forma de libertação (McLEOD, 1989, 26). Desta forma, a libertação do ciclo de reencarnações (moksha) pode atingir-se através de métodos de disciplina interior, refreando todas as emoções e conflitos, numa busca de paz e de equilíbrio, condenando formas de autoritarismo social e desprezando o estatuto de casta.
Segundo a doutrina sikh, Deus é Akal Purakh, a “pessoa sem tempo”, ou o “eterno”, sendo visto como Nirankar, “aquele sem forma” e de qualidade inefável. Esta característica, contudo, não implica a intangibilidade de Akal Purakh. Pelo contrário, a sua manifestação é visível no mundo que ele próprio criou, aos olhos daqueles que tenham abertura espiritual para o reconhecer na criação. Apesar de não surgir nos ensinamentos do fundador, a designação mais comum para referir o ser supremo na atualidade é Vahiguru, “louvado seja o Guru”.
De acordo com a teologia de Nanak, a humanidade está naturalmente cega para esta realidade espiritual pelo pecado, que a conduz, através da lei do karma, ao eterno ciclo de renascimentos. Hanumai é um conceito de autocentramento, ligado ao orgulho e ao egoísmo. Este só poderá ser combatido através da disciplina interior de nam simran, i.e., de “lembrar o nome”, podendo o nome divino ser invocado através da repetição de uma palavra ou mantra (nam japan), em meditação ou entoado sob a forma de hinos (kirtan). Esta disciplina leva à união mística da bênção eterna e da serenidade total (McLEOD, 1989, 31), contribuindo para o cumprimento do dharam, a versão sikh do dharma, a ordem moral que conduz à harmonia e estabilidade social.
Bibliog.: LORENZEN, David, Religious Change and Cultural Domination, Mexico City, El Colegio de Mexico, 1981; McGEGOR, Ronald, “Hindi literature from its beginnings to the nineteenth century”, in GONDA, Jan (ed.) A History of Indian Literature, vol. viii, Wiesbaden, Otto Harrassowitz Verlag, 1984; McLEOD, W. H., Textual Sources for the Study of Sikhism, Manchester, Manchester University Press, 1984; Id., The Sikhs. History, Religion, and Society, New York, Columbia University Press, 1989; Id., Exploring Sikhism. Aspects of Sikh Identity, Culture and Thought, Delhi, Oxford University Press, 2000.
Inês Lourenço