“Sublimação”, assim como “sublimar”, significa elevar e dignificar, tornar sublime. Na química, corresponde à passagem imediata do estado sólido a gasoso sem passar pelo líquido.
Em psicologia/psicanálise, segundo Freud, o processo de sublimação consiste em redirecionar a energia pulsional, libidinal, sexual, para atos de efeitos substitutivos, gratificantes e mais bem aceites na sociedade. Apesar de Freud praticamente se ter limitado a aplicar a sublimação à produção artística e ter deixado uma lacuna na sua teoria, a sublimação tem-se estendido a todas as atividades humanas mais nobres, incluindo as espirituais e religiosas. É considerada um mecanismo de defesa da personalidade que muda um comportamento pulsional negativo, inconsciente, para outro gratificante e mais suportável, de modo a torná-lo consciente e aceitável como valor social. Reduz os sentimentos de vergonha, culpa, angústia, mal-estar, tensão e dissonância entre os valores da pessoa. Quando o comportamento é positivo e se traduz em boas obras, pode ser uma fonte de compensação psicológica e um sentimento de realização espiritual e moral. Em vez de obstruída a energia libidinal, esta é canalizada para o desenvolvimento, para a auto e heteroestima e para o reequilíbrio da vida pessoal. Uma obsessão compulsiva sexual pode, assim, tornar-se, por substituição, comportamento perseverante normal e virtuoso.
Em conceitos psicanalíticos, a sublimação reduz a tensão e harmoniza o ego moral, as pulsões do id inconsciente e as exigências do superego repressivo. A torrente impetuosa e destruidora é como que desviada para canais de irrigação, produzindo frutos e benefícios desejados, agradáveis e úteis à sociedade. Há uma alteração de resultados egoístas em outros altruístas e espirituais, uma substituição de fins e objetivos.
No campo da espiritualidade e da mística, no cristianismo e noutras religiões, a sublimação assume importância de relevo. Avaliar o seu sucesso exige profundo discernimento interdisciplinar, pelo facto de nem sempre ser bem conseguida, autêntica e transparente. Pode revestir modalidades mascaradas de fachada inconsciente e de autoengano. A avaliação é fundamental nos fenómenos místicos e práticas cristãs, em que emergem, com alguma frequência, contrafações de processos de sublimação.
Bibliog.: impressa: LAURENTIN, René e SBALCHIERO, Patrick, Dizionário delle “Apparizioni” della Vergine Maria, Roma, Edizion ART, 2010; MADDI, Salvatore R., Personality Theories: a Comparative Analysis, 4.ª ed., Homewood, The Dorsey Press, 1980; digital: LAPLANCHE, Jean e PONTALIS, Jean-Bertrand, Vocabulário de Psicanálise, trad. Pedro Tamen, 4.ª ed., São Paulo, Martins Fontes, 20001: https://edsonsoaresmartins1973.files.wordpress.com/2018/07/laplanche-vocabulc3a1rio-de-psicanc3a1lise.pdf (acedido a 02.12.2020); “Sublimação: significado em psicanálise”, Psicanálise Clínica, 3 fev. 2019: https://www.psicanaliseclinica.com/sublimacao/ (acedido a 24.10.2020).
Aires Gameiro