Em Protágoras, Platão (séc. v-iv a.C.) atribui ao ensino dos sofistas, designadamente a Hípias, um tecnicismo formado pelo sistema disciplinar: “o cálculo, a astronomia, a geometria e a música” (apud PEREIRA, 1971, 394-396). Este sistema veio a formar o quadrivium. Aristóteles (séc. iv a.C), em Retórica, correlacionando retórica e dialética, conclui que, em face de uma questão, todos procuram examiná-la, sustentá-la, defendê-la, acusá-la (cf. PEREIRA, 1971, 422). Deste modo, Aristóteles associou a gramática, a dialética e a retórica, matriz que veio a constituir o trivium. O sistema formado pelas sete artes liberais foi cultivado nas escolas helénicas e retomado nas escolas romanas. A gramática tinha o currículo mais longo, começando logo após os alunos terem aprendido a ler e a escrever e terem obtido algum rudimento de cálculo. O latim era a língua oficial do Império e o ensino secundário limitava-se à gramática. Por vezes, o gramático também ensinava retórica. As disciplinas do quadrivium eram frequentadas por uma minoria.
Influenciado por Alcuíno (735-804), monge e poeta nascido em York (Reino Unido), o Imperador Carlos Magno (séc. ix) implementou um sistema que incluía um ensino elementar e o ensino das sete artes liberais, organizadas no trivium e nas quatro vias da ciência matemática que formavam o quadrivium. O ensino tinha lugar em escolas públicas. Alcuíno pretendeu que as escolas religiosas também ensinassem as sete artes liberais. Nos primeiros séculos da Idade Moderna, foi em torno da gramática que foi sendo organizada a escola generalista. Os studia humanitatis privilegiaram o trivium. Na sequência da Ratio Studiorum, nas áreas de influência dos Jesuítas, o ensino incluía três cursos fundamentais: Gramática, Filosofia, Teologia. No plano reformista de Coménio (1592-1604), a Escola Latina, preparatória da Teologia, deveria incluir quatro línguas, as sete artes liberais e uma formação mais geral em ciências, geografia, história, moral. Presentes nos territórios da Reforma como nos da Contrarreforma, os legados de Platão e Aristóteles, sintetizados na vertente humanista, abriam-se ao enciclopedismo e a uma politecnia.
Bibliog.: COMÉNIO, João Amós, Didáctica Magna, Tratado da Arte Universal de Ensinar Tudo a Todos, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/Serviço de Educação e Bolsas, 2006; MARGOLIN, Jean-Claude, “A educação no tempo da Contra-Reforma”, in VIAL, Jean e MIALARET, Gaston (dir.), História Mundial da Educação, vol. ii: De 1515 a 1815, Porto, Rés-Editora Lda, s.d., pp. 195-212; MARROU, Henri-Irénée, História da Educação na Antiguidade, São Paulo, Editora Herder/Editora da Universidade de São Paulo, 1966; PEREIRA, Maria Helena da Rocha, Hélade. Antologia da Cultura Grega, 3.ª ed., Coimbra, Imprensa de Coimbra Lda., 1971; RICHÉ, Pierre, “A educação na Alta Idade Média, séculos vi e xi”, in VIAL, Jean e MIALARET, Gaston (dir.), História Mundial da Educação, vol. i: Das origens a 1515, Porto, Rés-Editora Lda, s.d., pp. 201-228.
Justino Magalhães