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Veneração

A veneração religiosa é tão antiga quanto a existência humana, tanto num quadro simplificado como sistematizado (CAMURÇA, 2013, 287). De facto, “não encontramos na história religiões sem igreja” (DURKHEIM, 2008, 520), ou seja, toda a forma de religião implica uma organização social, na qual cabe a veneração.

Ignora-se a data do aparecimento das primeiras manifestações de veneração, todavia, através de representações plásticas tardias, estas tinham o efeito de catarse, escapando dos terrores da floresta (LÉVÊQUE, 2009, 11). A manifestação do sagrado traça a fronteira entre o sagrado e o profano e promove a veneração, num quadro tanto primitivo como elaborado. Essa manifestação do sagrado – hierofania – pode ocorrer mediante um objeto, uma pedra, uma árvore, uma estátua ou mesmo – a forma suprema – a encarnação de Cristo (ELIADE, 1992, 13). Esse comportamento ritual é formalizado e apropriado à veneração (BURKERT, 1996, 18), num complexo mitológico expresso numa linguagem teorética e simbólica de um sistema coerente sobre a realidade última das coisas (ELIADE, 2000, 17).

Há venerações que são vagas, fluidas e aparentemente contraditórias, como a dos egípcios no período pré-clássico, em todo o caso irredutíveis à lógica herdada dos gregos nesses aspetos (CARREIRA, 1985, 13). As traves-mestras reproduzidas num discurso de veneração religiosa, que está impregnado de “imagens obsessivas”, nas palavras de Mauron (1968, 168), ou de “imagens-guia”, nas de Baczko (1978, 415), são constituídas por “uma sequência de enunciados ou de frases com sentido e referência” (RICOEUR, 1988, 21) que se vê racionalizada em “imagens primordiais” (JUNG, 2014, 51). Praticamente todas as venerações religiosas, crenças, espiritualidades alternativas, e mesmo o esoterismo ocidental, têm como suporte textos e tempos de espiritualidade mística ritualizados, sejam elas o judaísmo, o cristianismo, o islamismo, o hinduísmo, o budismo, passando pela fé bahá’í ou a maçonaria (PINTO, 2006, 672-765).

O sagrado, que fazia parte da esfera da religião, com as suas nuances, de acordo com o credo, irradiou para o plano político e social a partir das Luzes. Ajustado a uma sacralidade laica, passou-se a venerar o tempo e o que nele se celebra, comportando mitos, símbolos e ritos decalcados muitas vezes das religiões históricas (SIRONNEAU, 1982, 196-197). Essa forma de venerar imagens, como lugares, cidades, santuários, santos, entre outros, é um meio de comunicar e interagir com aquilo a que atribuímos um valor santo ou divino. Serão, pois, pertinentes as múltiplas mediações de pendor linguístico, numa ótica narrativa, ou na que mais nos interessa, de ideologia religiosa, que nos podem levar a perguntar se, para lá das configurações específicas de cada tipo de veneração conotado por cada época e sociedade, será, eventualmente, a figura eterna do Homem que está em causa.

 

Bibliog.: BACZKO, Bronislaw, Lumières de l’Utopie, Paris, Payot, 1978; BURKET, Walter, A Criação do Sagrado, Lisboa, Edições 70, 1996; CAMURÇA, Marcelo Ayres, “Religião como organização”, in PASSOS, João Décio e USARSKI, Frank (eds.), Compêndio de Ciência da Religião, São Paulo, Paulinas/Paulus, 2013, pp. 287-300; CARREIRA, José Nunes, Estudos de Cultura Pré-Clássica, Lisboa, Editorial Presença, 1985; DURKHEIM, Émile, As Formas Elementares da Vida Religiosa: O Sistema Totémico na Austrália, Lisboa, Editora Paulus, 2008; ELIADE, Mircea, O Sagrado e o Profano, São Paulo, Martins Fontes, 1992; Id., O Mito do Eterno Retorno, Lisboa, Edições 70, 2000; JUNG, Carl, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Rio de Janeiro, Editora Vozes, 2014; LÉVÊQUE, Pierre, As Primeiras Civilizações: Da Idade da Pedra aos Povos Semitas, Lisboa, Edições 70, 2009; MAURON, Charles, Des Métaphores Obsédantes au Mythe Personnel: Introduction à la Psychocritique, Paris, José Corti, 1968; PINTO, Paulo Mendes (ed.), Religiões: História, Textos, Tradições, Lisboa, Paulinas Editora, 2006; RICOEUR, Paul, “Mito: a interpretação filosófica”, in RICOEUR, Paul et al., Grécia e Mito, Lisboa, Gradiva, 1988, pp. 21-46; SIRONNEAU, Jean-Pierre, Sécularisation et Religions Politiques, Paris/New York, La Haye/Mouton Editeur, 1982.

 

Rogério Freitas

Autor

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