A expressão aeterna veritas (“verdade eterna”), no singular, encontra-se registada na obra de Cícero De Natura Deorum, um estudo sob a forma de diálogo científico que compara e critica as diversas opiniões a respeito dos deuses formuladas por diversas escolas de filosofia. S.to Agostinho empregou este termo para designar a verdade de Deus. Segundo ele, a consciência humana que conhece confirma a existência de Deus. A racionalidade é o meio pelo qual o nosso sentido interior (a alma) acessa as verdades eternas, imutáveis e universais. Os seres humanos mutáveis e contingentes não podem conhecê-las por um contacto direto, mas pela mediação de “leis” ou “normas”, consequente da iluminação divina. Tal compreensão foi paradigmática na Idade Média.
Na Modernidade, Descartes concebeu as verdades eternas como coisa, equiparando-as às verdades matemáticas, físicas, morais e metafísicas. Assim, as verdades eternas não constituem uma classe exclusiva, como acontecia na escolástica. Para Descartes, sustentar esse conceito representava um dever para a possibilidade do conhecimento de Deus, que é simples, livre, indiferente, perfeito e incompreensível. O ser humano pode conhecê-lo através das verdades criadas por Ele. Eis todas as ocorrências do termo “verdades eternas” no corpus cartesiano: DESCARTES, 1964-1976, AT, I, 145-146; AT, I, 149-150; AT, I, 151-153; AT, II, 138; AT, IV, 118-119; AT, V, 223-224; AT, V, 272; AT, VII, 380; AT, VII, 431-43; AT, VII, 435-436. Posteriormente, Spinoza serviu-se dessa doutrina cartesiana e reelaborou-a em função dos próprios objetivos filosóficos.
Schelling propõe um debate que faz emergir o tema da relação entre o intelecto e a vontade divina e as verdades eternas, daí as diversas referências ao pensamento escolástico e a Descartes, Bayle e Leibniz. No seu Tratado sobre a Fonte das Verdades Eternas, este autor procura repensar a antiga divisão entre essência e realidade (Wirklichkeit). No âmbito da essência estaria a eternidade e a necessidade, e no âmbito da realidade, a mutabilidade e a contingência. Para Schelling, o reino das essências, i.e., das verdades eternas, é um só com o reino das possibilidades.
Enfim, ao longo da história do pensamento ocidental, a compreensão das verdades eternas distingue-se pelo seu objeto e oscila entre a possibilidade e a impossibilidade de as conhecermos. Para muitos místicos, essas verdades são almejadas nas suas contemplações.
Bibliog.: BOEHNER, Philotheus e GILSON, Étienne, História da Filosofia Cristã. Desde as Origens até Nicolau de Cusa, 2.ª ed., Petrópolis, Vozes, 1982; CÍCERO, De Natura Deorum, liv. i, Darmstadt, Wissenschaftliche Buchgesellschaft, 1968; DESCARTES, René, Oeuvres de Descartes, 11 vols., Paris, Vrin, 1964-1976; SANTO AGOSTINHO, A Trindade, São Paulo, Paulus, 1994; SCHELLING, Friedrich, Ausgewählte Werke, Kelowna, Musaicum Books, 2018; SPINOZA, Ética, São Paulo, Autêntica, 2017.
Marcus Mareano