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Idealismo

Parecem existir tantas definições de idealismo quantos os filósofos que se declararam idealistas, pelo que este é um dos conceitos filosóficos cuja definição se afigura mais controversa. Alguns autores que se declaram idealistas não são considerados tal por outros que, sendo ou não idealistas, têm do idealismo uma ideia totalmente diferente. Outros, pelo contrário, são acusados de idealistas sem que reconheçam sê-lo. Há ainda outros autores que se posicionam fora da disputa entre idealismo e realismo (que é o seu oposto do ponto de vista gnosiológico), procurando, ou um meio termo entre as duas posições extremas, ou uma terceira posição eventualmente prévia às outras duas. Dois importantes filósofos do séc. xx, Nicolai Hartmann e Martin Heidegger, exemplificam, se bem que de forma diferente, esta atitude. A acusação de idealismo teve ainda os seus reflexos fora do contexto estritamente filosófico. Assim, por exemplo, a chamada “crise modernista”, que abalou o mundo intelectual católico no final do séc. xix e no início do séc. xx, teve origem na suposta adesão dos defensores das teses “modernistas” ao pretenso idealismo da modernidade e à sua filosofia da subjetividade.

Uma muito frequente definição de idealismo tem o seguinte teor: para o idealismo, toda a realidade é pensamento. Tudo depende, como é óbvio, da função que se atribui àquele é. De certo modo, se esta definição fosse verdadeira, o idealismo seria a mais absurda de todas as filosofias e seria quase inverosímil que alguém com seriedade a defendesse. Pois parece igualmente óbvio que nem toda a realidade é pensamento (por exemplo, as páginas do livro que o leitor tem entre as mãos agora) e que o pensamento, seja qual for o tipo de realidade que lhe atribuamos, será uma entre muitas outras realidades. Todavia, aquela definição pode ter algum sentido, desde que desloquemos a nossa atenção do é para o pensamento. Com efeito, se este for visto apenas na perspetiva da psicologia – um conjunto de atos realizados pela consciência humana, a qual tem o seu suporte anátomo-fisiológico no cérebro – a definição que demos é absurda. O idealismo, porém, possui normalmente uma conceção mais sofisticada de “pensamento”. O pensamento não é apenas um conjunto de atos psicológicos, mas sim um conjunto de atos constituintes realizados pela consciência. Aqui, verdadeiramente, começa o debate sério com o idealismo.

A palavra “constituição” entra na história da filosofia com o pensamento de Kant. Com ela, transformamos a frase: “a realidade é pensamento”, na frase: “a realidade é constituída pelo pensamento”. Kant quer dizer que tudo aquilo a que chamamos real necessita de uma forma que lhe permita, não apenas ser, mas também ser conhecido; essa forma, ou conjunto de formas, é o pensamento que a fornece. Para Kant, esse conjunto é formado pelas formas da sensibilidade e pelas formas do entendimento. Mas Kant fez muito mais do que admitir um vínculo entre o objeto conhecido e o sujeito que o conhece. O que é contestável nesta forma de idealismo kantiano é a separação que ela estabelece entre o objeto tal como seria em si mesmo (ou seja, sem as formas do entendimento) e o que ele é para nós quando o conhecemos.

Ao idealismo costuma opôr-se, não um realismo ingénuo (que admitiria a existência “bruta” do objecto fora do pensamento e que este último não faria senão reproduzir), mas sim um realismo crítico. Este, sem negar a dependência do conhecimento relativamente ao sujeito que conhece, acentua, todavia, a necessária independência do objeto, que não se encontra simplesmente “fora” da consciência, num sentido espacial (o que nunca ninguém negou de um ponto de vista ontológico, mas que, do ponto de vista cognitivo, de nada serve defender), mas que é, por assim dizer, o terminus ad quem dos múltiplos atos de consciência que o visam.

 

Bibliog.: MORUJÃO, Alexandre F., “Idealismo”, in LOGOS, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia, vol. 2, Lisboa, Editorial Verbo, 1990, cc. 1266-1270; SCHWEMMER, Oswald, “Idealismus”, in MITTELSTRASS, Jürgen (Hrsg.), Enzyklopädie Philosophie und Wissenschaftstheorie, Band 2, Darmstadt, Wissenschaftliche Gesellschaft, 2004, pp. 167-170.

 

Carlos Morujão

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