A espiritualidade de S. Domingos (c. 1170-1221) é de tal forma de difícil apreensão, que os seus escritos não foram conservados, à exceção de três cartas, que expõem decisões tomadas em diversas circunstâncias: a reconciliação de um herege em Albigeois; a proteção concedida a um habitante da mesma região, que arriscava ser molestado pelo facto de albergar em sua casa um antigo herege; a norma de vida que, segundo ele, convinha a uma comunidade de monges estabelecida em Madrid. Francisco de Assis exerce um fascínio que deve muito à sua espiritualidade alimentada pelos valores evangélicos, que soube tornar imediatamente acessíveis, já em Domingos, que foi seu contemporâneo, e partilhava com aquele os mesmos valores, escapa-nos o quotidiano da sua existência e a intimidade da sua vida interior, que nunca confidenciou voluntariamente. Na juventude, durante pelo menos dez anos, estudou na Universidade de Palência. Aí aprendeu a comentar a Bíblia e logo em seguida começou a ler e a estudar os seus livros sem parar, particularmente os Evangelhos, mas nenhum dos seus comentários subsistiu. Os seus discursos sempre edificantes foram objeto de elogio, mas foi já tarde que alguns irmãos se deram ao trabalho de preservar alguns deles por escrito. Um pouco melhor documentada, a sua experiência da oração foi alvo de um tratado anónimo tardio, enriquecido com ilustrações. Este tratado sobre “os modos de orar com o corpo, de S. Domingos”, escrito em latim por volta do final do séc. xiii, adaptado depois para italiano no séc. xv, dá provas concretas da relação de Domingos com Deus. Os modos da sua diligente oração são descritos sob o ângulo de um percurso pessoal, porém visível àqueles que com ele contactaram na altura, observaram as suas posturas e gestos, viram as lágrimas correr dos seus olhos, e ouviam as palavras que pronunciava, quase sempre baseadas nas da Sagrada Escritura.
Os 30 primeiros anos da sua vida, entre Caleruega (Castela), onde nasceu, Palência, onde estudou, e Osma, onde se tornou cónego regular, escapam-nos em grande parte, portanto, exceto a notícia da emoção do estudante confrontado com os efeitos dramáticos de uma fome excecional, que lhe inspirou o gesto, conforme o ensinamento de Jesus, de vender os seus livros “para vir em ajuda dos pobres”. Depois disso, a ação de Domingos surge, subitamente, e de forma duradoura, melhor esclarecida. Ele compreende o desígnio imperativo de uma pregação eficaz em Albigeois, onde a dissidência religiosa cresce. Ele toma consciência de que a audiência de que beneficiam os “homens bons” (assim são designados pelos clérigos os hereges “cátaros”) advém do facto de eles conformarem o seu modo de vida com o ensino religioso que ministram. De maneira a contrariar as críticas que faziam a uma Igreja que, para eles, era incapaz de cumprir a sua missão, somando-se-lhes as críticas dos valdenses, oriundos de Lyon, Domingos compreende que é necessário combater com as mesmas armas usadas por aqueles, demonstrar que os valores evangélicos que difundem não são monopólio dos seus pregadores, e estreitar assim os laços sociais entre clérigos e leigos, à beira da desagregação. Depois das primeiras tentativas conduzidas pelo seu bispo, Diego de Osma, e após uma experiência de pregação diocesana ao lado de Foulque, bispo de Toulouse, Domingos dá à luz, pouco a pouco, uma nova ordem religiosa, que será uma outra maneira de fazer face aos riscos de uma crise na Igreja universal. Esta Ordem, esboçada desde 1215 e talhada depois a partir de 1217, no momento em que dispersa os seus irmãos e troca definitivamente Albigeois por Itália, até à sua morte em Bolonha, em 1221, tem como vocação primeira pregar o Evangelho, como os apóstolos, ao mundo inteiro. É através desta ordo predicatorum que a memória de Domingos será alimentada através dos séculos, uma vez que os frades e freiras que a compõem adotam os nomes respetivos de dominicanos e dominicanas.
Em muitos aspetos, a espiritualidade de Domingos, tal como a revelam os seus comportamentos, parece moldada pela sua experiência inicial enquanto cónego regular no capítulo da Catedral de Osma. Desde o séc. xi, a ascensão desta forma de vida dentro da Igreja deu lugar a numerosas inovações, inspiradas pelo desejo de viver como os apóstolos (vita apostolica), não só segundo o modelo desenhado em Atos 4, 32 (viver juntos em unanimidade, com um só coração e uma só alma, em Deus), mas ainda equilibrando no quotidiano as práticas da vida contemplativa e da vida ativa. Não é possível discernir com certeza as influências exercidas sobre Domingos, mas a pesquisa que fez das Constituições dos Cónegos de Prémontré, com a finalidade de organizar a vida quotidiana da Ordem, como complemento da regra de Santo Agostinho, não pode ser negligenciada. Partilha com estes a opção pela vida ascética pessoal, e o seu envolvimento na pregação assemelha-se ao do fundador dos Premonstratenses, Norbert de Xanten. A isto soma-se em Domingos uma ligação de fundo ao modelo evangélico de Cristo e dos apóstolos. Como Cristo, consagra os seus dias à ação e reserva as noites para a oração. Como Ele, deseja viver na pobreza, que acaba por impor aos seus primeiros companheiros, sendo que alguns deles se mostram reticentes quanto a isso. Procurou a humildade, traduzindo-a na decisão de renunciar ao título de prior, chamando-se a si mesmo de “irmão”. E, acima de tudo, cultivou a caridade, que integra o amor de Deus, experienciado quotidianamente na oração e no amor ao próximo, declinado quer no seio da vida comunitária (não apenas ao lado dos irmãos, mas também das irmãs), quer nas suas incessantes viagens, que pontua de visitas aos mosteiros cistercienses, ou de refeições na casa de mulheres ávidas de o ouvir. Domingos dá provas de uma atenção incessante às necessidades e expectativas de todos aqueles com quem convive, seja para arranjar o manto rasgado de um frade menor com quem caminha, seja para consolar, em Roma, a mãe de um menino que acaba de morrer, ressuscitando-o; para trazer a chuva às terras de Segóvia ressequidas pela canícula e, sobretudo, para reconduzir ao caminho reto da verdadeira vida cristã aqueles que vê perderem-se. A impregnação dos modelos que o inspiram revela-se no seu vocabulário. Se o papel dos padres de paróquia começa a definir-se claramente, no seu tempo, como o “cuidado das almas” (cura animarum, de onde deriva o mesmo nome de “cura”), por sua vez, Domingos procura “ganhar almas”, em perfeita conformidade com o texto de Paulo (ut plures lucrifacerem, “a fim de ganhar o maior número possível”, 1Cor 9, 19). Se é certo que as suas palavras e os seus atos refletem o temperamento ardente que lhe é atribuído (tal é o sentido do termo fervor, frequentemente utilizado para o caracterizar), também é facto que não dá livre curso à violência, a não ser nas circunstâncias em que o modelo de Cristo o autorizar fazê-lo: por exemplo, para vilipendiar aqueles que persistem obstinadamente no erro, como faz no sermão de 15 de agosto de 1217, segundo o relato de Bernard Gui.
A “herança” de Domingos que a tradição reteve consiste em legar aos seus irmãos as virtudes da humildade, da pobreza e da caridade. O retrato construído por uma sucessão de textos hagiográficos que surgem ao longo do séc. xiii rapidamente se estereotipa. Mas os depoimentos das testemunhas interrogadas no âmbito do processo de canonização de 1233, no convento de Bolonha e em Languedoc, e as memórias encantadoras deixadas pela irmã Cecília, uma das jovens reclusas que entrou no mosteiro romano de S. Sisto em vida de S. Domingos, ao qual ele dedicou todos os cuidados, na parte final da mesma (como já tinha feito em Prouilhe, quando vivia em Languedoc), restituem o sabor da sua vida. Com estes documentos, torna-se possível esboçar em traços largos o retrato de um homem determinado e discreto, dotado de um discernimento capaz de equilibrar a sua impetuosidade. A sua alegria constante, marcante para aqueles que com ele privaram, aliava-se na perfeição a um regime de vida extremamente rigoroso. A herança secular por si assumida incluía um desejo de martírio que foi, sem dúvida, alimentado, no seu caso, pela devoção a S. Vicente, cujas relíquias visitava regularmente em Castres. Ela abarca também o envolvimento num combate feroz contra o demónio, o Inimigo por excelência, ora temível, ora insignificante. A isto juntava-se uma arguta sensibilidade relativamente aos acontecimentos e às expectativas dos seus contemporâneos, entre uma viva inquietação perante a pressentida aproximação do fim dos tempos, as interrogações essenciais sobre a boa maneira de viver como cristãos e a atração poderosa do evangelismo, pelo qual foi profundamente apaixonado durante toda a sua vida.
Bibliog.: VAUCHEZ, André, La Sainteté en Occident aux Derniers Siècles du Moyen Âge d’après les Procès de Canonisation et les Documents Hagiographiques, Rome, École française de Rome, 1981; Id., La Spiritualité du Moyen-Âge Occidental (viiie-xiiie siècle), Paris, Seuil, 1994; BÉRIOU, Nicole e HODEL, Bernard, Saint Dominique, de l’Ordre des Frères Prêcheurs. Témoignages Écrits, colab. Gisèle Besson, Paris, Cerf, 2019; Id., “Tout croire, ne rien croire. Les ambiguïtés du discours hagiographique sur saint Dominique au XIIIe siècle”, in DÓCI, Viliam Štefan e FESTA, Gianni (coord.), Fra Trionfi e Sconfitte: ‘Politica della Santità’ dell’Ordine dei Predicatori, Rome, Angelicum University Press, 2021, pp. 41-58.
Nicole Bériou
Bernard Hodel