A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Rahner, Karl

Karl Rahner, SJ, um dos mais influentes teólogos católicos do séc. xx, cuja obra marcou profundamente a renovação da teologia contemporânea e exerceu notável influência nos documentos do Concílio Vaticano II, nasceu a 5 de março de 1904, em Freiburg im Breisgau, na Alemanha. Ingressou na Companhia de Jesus em 1922 e foi ordenado sacerdote em 1932. Estudou filosofia e teologia em Pullach, Innsbruck e Freiburg, sendo profundamente influenciado por S. Tomás de Aquino, cuja leitura reinterpretou à luz do pensamento moderno, especialmente a partir da síntese tomista-transcendental proposta pelo jesuíta belga Joseph Maréchal. Este último procurou integrar a metafísica tomista na filosofia crítica de Immanuel Kant, contribuindo decisivamente para a renovação do tomismo no séc. xx, influência que Rahner herdou e desenvolveu de forma original. Além da escolástica, foi também marcado pela filosofia de Martin Heidegger, cujo curso frequentou em Freiburg. A sua carreira académica foi inicialmente dificultada pelas restrições do regime nazi, mas após a Segunda Guerra Mundial tornou-se professor nas universidades de Innsbruck, Munique e Münster. Foi nomeado peritus (perito teológico) do Concílio Vaticano II (1962-1965), onde desempenhou papel relevante na elaboração de documentos conciliares, como Lumen Gentium e Gaudium et Spes.

Rahner é pioneiro de uma “teologia transcendental”, na qual parte da estrutura da consciência humana para demonstrar a abertura constitutiva do Homem ao Mistério absoluto, que é Deus. Esta abordagem deve muito ao legado de Joseph Maréchal, que, ao combinar Tomás de Aquino com Kant, preparou o terreno para uma teologia centrada na experiência humana como lugar de manifestação da graça. Em Rahner, o Homem é concebido como um “ouvinte da Palavra”, radicalmente orientado para a autocomunicação divina. Esta estrutura existencial de abertura à transcendência torna possível uma compreensão mais antropológica e experiencial da revelação.

Rahner introduziu um dos axiomas mais influentes da teologia contemporânea: “O Deus económico é o Deus imanente, e o Deus imanente é o Deus económico”. Com este princípio, Rahner afirma que o modo como Deus se revela na história da salvação (Trindade económica) corresponde verdadeiramente à realidade íntima de Deus em si mesmo (Trindade imanente). Este axioma teve um profundo impacto metodológico, ao superar o divórcio entre a teologia especulativa e a história da salvação e ao recuperar a centralidade da Trindade na vida cristã. Para Rahner, não se pode falar de Deus em abstrato, mas sempre a partir da sua autocomunicação em Cristo e no Espírito.

Um dos conceitos mais debatidos da teologia de Rahner é o de “cristão anónimo”, i.e., a ideia de que pessoas que, sem conhecerem explicitamente Cristo ou a Igreja, vivem segundo a sua consciência, em verdade, liberdade e amor, estão já a responder, de modo implícito, à autocomunicação salvífica de Deus em Cristo. Esta tese visa manter a universalidade da graça e da salvação, sem abdicar da unicidade de Cristo como mediador absoluto. Para Rahner, a graça precede e ultrapassa os limites visíveis da Igreja, tornando possível a salvação de todos os seres humanos que acolham, mesmo sem saberem, a presença de Deus nas suas vidas. As consequências desta visão são de grande alcance para a teologia das religiões. Rahner recusa tanto o exclusivismo (que nega qualquer valor salvífico às outras religiões) como o indiferentismo (que anula a singularidade cristã), propondo uma perspetiva inclusivista: as outras religiões podem ser vistas como lugares de graça e de resposta humana ao Deus que se revela e se comunica a todos. No plano ecuménico, esta compreensão promove uma atitude de escuta, de reconhecimento da presença do Espírito além das fronteiras confessionais e de colaboração com todos os que buscam sinceramente a verdade e a justiça. Rahner sustenta que a Igreja deve dialogar com as outras religiões e tradições não a partir de uma posição de supremacia, mas de solidariedade humana e fidelidade ao Mistério de Deus, que ultrapassa todas as mediações humanas e se manifesta de múltiplas formas.

Rahner insiste na inseparabilidade entre natureza e graça, recusando a tradicional conceção extrinsecista segundo a qual a graça seria algo acrescentado exteriormente a uma natureza humana ontologicamente fechada sobre si mesma. Pelo contrário, propõe que a graça está inscrita na própria estrutura do Homem como oferta constitutiva e transcendental de Deus. A condição humana, na sua abertura radical ao Mistério, é já marcada por uma ordenação originária à autocomunicação divina.

Para compreender plenamente a visão de Rahner sobre a graça, é necessário atender à distinção clássica entre “graça criada” (gratia creata) e “graça incriada” (gratia increata). A graça incriada é o próprio Deus que se dá – a autocomunicação do Deus trinitário ao Homem. Já a graça criada é o efeito dessa doação no sujeito humano: a transformação interior que o torna capaz de acolher Deus e de viver em comunhão com Ele. Rahner insiste que o núcleo da salvação cristã não consiste numa simples elevação da natureza por dons adicionados, mas na doação do próprio Deus ao Homem. Assim, a graça incriada – o Espírito Santo que habita no crente – é o elemento fundamental da vida sobrenatural. A graça criada (como a caridade ou a justificação) é inseparável dessa presença divina e resulta dela, mas não a esgota. Deste modo, a experiência cristã da graça é, em última análise, uma participação real na vida trinitária: Deus comunica-se como dom absoluto, não apenas concedendo auxílios espirituais, mas oferecendo-se a si mesmo. Isto reforça a tese rahneriana de que a relação do Homem com Deus é própria e ontologicamente fundada, porque o Homem é criado já como destinatário dessa autocomunicação.

Com esta  abordagem, Rahner defende que a relação do Homem com Deus não é apenas “apropriada” (i.e., atribuída por convenção teológica a cada uma das Pessoas divinas, ou seja, a criação ao Pai, a redenção ao Filho e a santificação ao Espírito Santo, na base duma relação com a Santíssima Trindade de acordo com o axioma do Concílio de Florença, “in Deo omnia sunt unum ubi non obviat relationis oppositio [em Deus, todas as coisas são uma só realidade, não se encontrando aí a oposição de uma relação]”), mas “própria”, ou seja, uma relação pessoal com cada um das Pessoas divinas, o que o leva a criticar a noção de graça criada, que na teologia desempenha essa função de mediação entre a criatura e o Criador. Para Rahner, a relação do Homem com Deus é própria, essencial, porque o Homem é, desde sempre, chamado à graça e à divinização. Assim, a natureza humana é pensada em função do seu cumprimento sobrenatural, o que conduz à célebre tese rahneriana de que “a graça é a oferta de Deus que antecede e fundamenta ontologicamente o próprio conceito de Homem”. Deste modo, Rahner supera o dualismo natureza/graça e propõe uma antropologia teológica unificada, na qual o Homem é entendido como o lugar concreto onde se dá a autocomunicação de Deus. Essa conceção está na base da sua teologia da experiência transcendental, da mística quotidiana e da universalidade da salvação.

A revelação, para Rahner, é a autocomunicação gratuita de Deus na História, culminando em Jesus Cristo. A fé é a resposta livre e pessoal a essa iniciativa divina, vivida numa escuta obediente ao mistério. Rahner recusa uma visão meramente proposicional da revelação, defendendo que ela deve ser entendida como um evento existencial e interpessoal. Nesta linha, a Escritura, a Tradição e o Magistério são mediações históricas e simbólicas da Palavra de Deus, mas esta não se esgota nelas. Daí o seu contributo para uma hermenêutica teológica que reconhece a historicidade da revelação e a necessidade de um discernimento contínuo no seio da comunidade crente.

A influência de Rahner é vasta e profunda. Teve papel decisivo na renovação da teologia católica no séc. xx e no aggiornamento conciliar. Inspirou várias gerações de teólogos, como Johann Baptist Metz, Edward Schillebeeckx, Gustavo Gutiérrez e muitos outros. A sua teologia da graça e da transcendência influenciou decisivamente os debates sobre a salvação, o diálogo inter-religioso e a espiritualidade contemporânea. Além disso, o seu esforço de articulação entre a tradição e o pensamento moderno continua a ser um modelo para a teologia no contexto plural e secularizado do mundo atual.

Apesar do amplo reconhecimento da obra de Karl Rahner, o seu pensamento suscitou também críticas significativas, sobretudo no plano filosófico e metafísico. Entre os seus principais críticos, destaca-se o filósofo e tomista italiano Cornelio Fabro (1911-1995), que acusou Rahner de ter subvertido a metafísica de Tomás de Aquino substituindo a sua estrutura realista e analógica por uma antropologia transcendental marcada por traços idealistas e panteístas, sobretudo na sua obra La Svolta Antropologica di Karl Rahner, publicada originalmente em 1974 e reeditada em 2011, que constitui uma das críticas mais sistemáticas à teologia de Rahner. Fabro argumenta que Rahner, ao reinterpretar Tomás de Aquino à luz da filosofia moderna, especialmente de Kant e Heidegger, distorce a metafísica tomista, substituindo-a por uma antropologia transcendental que compromete a transcendência divina. Segundo este autor, essa abordagem conduz a um imanentismo que dissolve a distinção entre Deus e o Homem, afetando profundamente a teologia especulativa e a compreensão da revelação. Fabro considera que Rahner, influenciado por Kant e Heidegger, dissolveu a alteridade ontológica entre Deus e o Homem, transformando a experiência de Deus numa forma de autoconsciência transcendental. Essa aproximação conduziria, segundo o autor, a um “ontologismo implícito”, ou até a um panenteísmo encoberto, incompatível com a distinção tomista entre o ser contingente e o ser necessário. Para Fabro, o “retorno a Tomás” proposto por Rahner (via Maréchal) seria apenas aparente e, de facto, corresponderia a uma rotura com o núcleo da metafísica tomista. Rahner teria deslocado o centro da teologia do Deus que se revela objetivamente na História para o sujeito humano que experiencia Deus na sua interioridade, operando assim uma forma de antropologização da teologia. Estas críticas devem ser entendidas no contexto mais vasto da tensão entre correntes neoescolásticas tradicionais e teologias de inspiração fenomenológica e existencial, que marcaram o séc. xx. Apesar da divergência profunda, o confronto entre Rahner e Fabro revela a fecundidade do debate filosófico-teológico sobre o lugar da experiência, da metafísica e da revelação na teologia cristã contemporânea.

Karl Rahner faleceu a 30 de março de 1984, em Innsbruck, na Áustria.

 

Bibliog.: BOFF, Leonardo, Teologia e Prática. A Mudança de Paradigmas na Teologia, Petrópolis, Vozes, 1981; BURKE, Patrick, Reinterpreting Rahner. A Critical Study of His Major Themes, New York, Fordham University Press, 2002; FABRO, Cornelio, La Nozione dell’Atto in S. Tommaso e il Concetto di Partecipazione, Torino, SEI, 1939; Id., Introduzione all’Ateismo Moderno, Roma, Studium, 1964; Id., La Svolta Antropologica di Karl Rahner, Milano, Rusconi 1974; HAIGHT, Roger, The Future of Christology, New York, Continuum, 2005; LEHMANN, Karl, “Karl Rahner”, in VANDER-GUCHT, Robert e VORGRIMLER, Herbert (dirs.), Bilan de la Héologie du XXe Siècle, vol. 2, Tournai/Paris, Casterman, 1970, pp. 836-874; LEHMANN, Karl e RAFFELT, Albert (eds.), Karl Rahner: Texto e Contexto, Lisboa, Editorial Perpétuo Socorro, 1987; MARÉCHAL, Joseph, Le Point de Départ de la Métaphysique. Leçons sur le Développement Historique et Théorique du Criticisme, t. v, Louvain/Paris, Éditions du Museum Lessianum/Librairie Félix Alcan, 1949; NEUFELD, Karl H., Hugo e Karl Rahner, Milano, San Paolo, 1995; O’DONOVAN, Leo J. (ed.), A World of Grace. An Introduction to the Themes and Foundations of Karl Rahner’s Theology, New York, Crossroad, 1995; RAFFELT, Albert e VERWEYEN, Hansjürgen, Leggere Karl Rahner, Brescia, Queriniana, 2004; RAHNER, Karl, Geist in Welt. Zur Metaphysik der Endlichen Erkenntnis bei Thomas von Aquin, Innsbruck, Felicia Rauch Verlag, 1939; Id., Hörer des Wortes. Zur Grundlegung einer Religionsphilosophie, München, Kösel-Pustet, 1941; Id., Schriften zur Theologie, 16 vols., Einsiedeln, Benziger, 1954-1984; Id., Grundkurs des Glaubens. Einführung in den Begriff des Christentums, Freiburg, Herder, 1976; RAHNER, Karl e VORGRIMLER, Herbert, Kleines Theologisches Wörterbuch, Freiburg im Breisgau, Herder, 1961; VORGRIMLER, Herbert, Karl Rahner: Teólogo na Época do Concílio e da Mudança, Lisboa, Paulinas, 1981; Id., Karl Rahner Verstehen. Eine Einführung in Sein Leben und Denken, Freiburg/Basel/Wien, Herder 1988; Id., Karl Rahner: Introdução ao Seu Pensamento, São Paulo, Loyola, 1993; WEGER, Karl-Heinz, Karl Rahner. Eine Einführung in Sein Theologisches Denken, Freiburg/Basel/Wien, Herder, 1986.

 

José Jacinto de Farias

Autor

Scroll to Top