Nascido em Liège, na Bélgica, no seio de uma família nobre, em data que os especialistas situam entre 1075 e 1085. Tudo indica que deixou o seu país para fazer os seus estudos em Laon, na França, um dos centros preferidos na época para os amantes dos textos sagrados. Ali brilhou, entre outros, Anselmo de Laon († 1117), que desenvolveu a glosa dos textos sagrados. Por esse motivo, estudantes de vários países europeus ali foram instruir-se. Entre outros, irlandeses e escoceses, e o próprio Pedro Abelardo.
Anos mais tarde, Guilherme ingressa na abadia beneditina de Saint-Nicaise de Reims. Esta tinha sido construída no séc. v para acolher os peregrinos que vinham a Reims para venerar as relíquias do bispo Nicaise. A partir de 1119, Guilherme torna-se abade da abadia beneditina de Saint-Thierry, perto de Reims, cargo que mantém até 1135. Ele manifesta uma exigência de pensamento, cuja doutrina filosófica parece encontrar um influxo de renovação no contacto com os Padres Gregos. Redige a sua primeira obra a partir de 1119, para a edificação espiritual dos seus religiosos, intitulada De Natura et Dignitate Divini Amoris. Entre 1119 e 1120, redige o tratado De Contemplando Deo. Guilherme medita, como fará S. Boaventura mais tarde, sobre o itinerário da alma até Deus, na primeira e na segunda partes sobre a Santíssima Trindade, fonte de amor. Toda a sua sensibilidade já aqui se encontra, onde pulsa o homem que vive, pensa e fala com a Sagrada Escritura. A principal originalidade desta obra é a de sublinhar a unidade que o amor estabelece entre o homem e Deus, orientando a questão da contemplação e inserindo-a na atividade amorosa da alma, no interior do circuito das operações divinas.
Anos mais tarde, Guilherme redige um tratado intitulado De Natura Corporis et Animae. Nesta obra, acumula descrições fisiológicas e considerações teológicas. O desejo de instruir os seus monges abre-lhe um campo imenso. No seu horizonte espiritual, a figura de S. Bernardo, que, sem o querer, o atrai para a vida cisterciense. Por volta de 1125, S. Bernardo endereça a Guilherme a sua famosa Apologia, na qual se defende de atacar os monges de Cluny. Em 1135, Guillherme ultrapassa a oposição do seu amigo S. Bernardo e entra na vida cisterciense, na Abadia de Signy. Esta estava situada nas Ardenas francesas, tendo sido fundada, nesse mesmo ano, por 12 monges vindos de Igny e enviados pelo próprio S. Bernardo.
A partir de 1140, Guilherme redige o Primeiro Livro da Vita Prima, consagrado a S. Bernardo. Esta famosa obra será continuada por Arnaud de Bonneval, que redigirá o Segundo Livro, e Geoffroi de Claivaux, que a ampliará com Três Livros que concluem esta biografia, recheada de prodígios e de milagres. Esse período coincide, na vida de Guilherme, com uma grande fecundidade literária. Nessa altura, redige um comentário do Cântico dos Cânticos, fruto dos seus diálogos com S. Bernardo. De facto, este texto regista a influência dos diálogos que terão ocorrido entre os dois homens na enfermaria da abadia de Claivaux, quando ambos, doentes, ali se encontraram. Esta obra terá uma importância capital na elaboração da sua teologia mística, que o distingue de S. Bernardo. Nela é expressa a dimensão ternária do ser humano, ou a distinção dos três estados: animal, racional e espiritual. Aqui se exprime o conhecimento amoroso, reservado ao homem chegado ao estado espiritual. Este conhecimento, sendo um grau supremo da fé, decorre da união íntima e de uma certa conaturalidade oferecida pela graça entre a criatura regenerada e Deus. A experiência que Guilherme descreve situa-se no prolongamento da união de Cristo com a sua Igreja. Os estudiosos desta obra ímpar sublinham a que ponto ela oferece uma síntese notável entre o Oriente e o Ocidente, sendo os autores orientais que emanam da sua síntese, em particular, Gregório de Nissa, Escoto Erígena e Plotino.
Nessa época, Guilherme reencontra o pensamento de Pedro Abelardo, personagem com o qual já se tinha cruzado em Reims. Descobre os desvios deste autor em relação à tradição. Alarmado, escreve uma carta, provavelmente em 1140, a S. Bernardo e a Geoffroy, bispo de Chartres, que ficará famosa. Nela diz, entre outras coisas, que Pedro Abelardo trata “a Sagrada Escritura como ele tratou a dialética, enchendo-a das suas invenções”. E denuncia esse autor, dizendo que “em vez de tomar a fé como guia, dela se tornou o seu censor”. Redige também uma rápida refutação e sublinha os numerosos erros de Pedro Abelardo na sua Disputatio adversus Petrum Abelardum. Sem dúvida que este texto tem o seu peso quando Pedro Abelardo é condenado no Concílio de Sens, no qual participa S. Bernardo.
Esta e outras questões estimulam o seu combate teológico e o seu zelo. Guilherme redige nesses anos Espelho da Fé, mais destinado aos iniciantes, enquanto Enigma da Fé é dirigido a um público mais maduro. É, porém, Carta de Ouro, também conhecida como Carta aos Irmãos do Monte de Deus [Mont-Dieu], que o torna mais conhecido. Durante algum tempo, contudo, este texto foi atribuído a S. Bernardo. Guilherme redige esta obra por ocasião de uma viagem feita a um mosteiro de Cartuxos, fundado, em 1144, na Diocese de Reims. Naquela altura, os seus monges sofriam fortes críticas. Nesse texto, a sua pluma de consolador e estimulador manifesta-se amplamente. Na Carta, são expostos os três estádios da vida espiritual.
Poucos anos depois, Guilherme falece, a 8 de setembro de 1148, na sua Abadia de Signy. Enterrado no claustro, o seu corpo será trasladado nessa abadia, numa cerimónia que se assemelha a uma beatificação. Guilherme de Liège é venerado na Diocese de Reims e igualmente na Ordem de Cister.
A obra de Guilherme de Saint-Thierry tem sido objeto de múltiplos estudos, após um período de um certo apagamento. Diversos encontros internacionais aprofundaram várias zonas obscuras da vida deste autor. Tentou-se, em particular, conhecer os seus primeiros anos e o longo período anterior à sua entrada no Mosteiro de Saint-Thierry. Num colóquio internacional decorrido em 2018, foi aprofundado o estudo sobre os seus anos de formação, de Liège até Saint-Nicaise, juntamente com a história dos mosteiros beneditinos da região de Reims no séc. xii. Também é esclarecedor entender o facto de que Guilherme nem sempre foi desfavorável à Ordem de Cluny. As diferenças de apreciação sobre a ordo monasticus explicam, em parte, as relações complexas entre Guilherme e S. Bernardo. Outrossim se esclareceu nesse colóquio que a cultura de Guilherme relativa à Sagrada Escritura estava estabelecida desde as primeiras obras, ao manifestar-se estável, o que revela que a sua cultura já estava bem formada antes de chegar a Saint-Thierry, tendo, portanto, feito um acurado trabalho no campo bíblico e patrístico. Permanece por esclarecer a questão das suas fontes. Na sua obra, existe uma preponderância do pensamento agostiniano. A influência dos padres gregos, já mencionada, carece ainda de maior aprofundamento.
Guilherme ilustra, de forma eloquente, a progressão espiritual no itinerário de um homem do séc. xii, em particular na sua relação com a estabilidade monástica: mudança de abade beneditino de Saint-Thierry para um simples monge cisterciense em Signy, em 1135. Tal revela, segundo vários estudiosos, uma etapa do percurso interior que o conduzirá do cenobitismo tradicional a um novo ideal monástico. A sua formação interior foi evoluindo também pela sua dedicação à formação dos outros religiosos ou quando ele escreve para os noviços da Cartuxa de Mont-Dieu. Guilherme de Saint-Thierry afirma-se, por tudo isto, como um autor que deu uma contribuição de grande importância para o desenvolvimento da teologia mística do fim da Idade Média.
Bibliog.: Cîteaux, Commentarii Cistercienses, t. 69, 2018; CVETKOVIC, Carmen A., Seeking the Face of God: The Reception of Augustine in the Mystical Though of Bernard de Claivaux and William of St Thierry, Turnhout, Brepols, 2012; DECHANET, Jean-Marie, “Guillaume de Saint-Thierry”, in VILLER, M. et al. (dirs.), Dictionnaire de Spiritualité Ascétique et Mystique, t. vi, Paris, Beauchesne, 1967, pp. 1242-1263; GUILLAUME DE SAINT-THIERRY, Lettre aux Frères du Mont-Dieu, Paris, Cerf, 1985; Id., La Contemplation de Dieu, Paris, Cerf, 2005.