Monge e poeta, o nicaraguense Ernesto Cardenal Martínez (Granada, 20 de janeiro de 1925-Manágua, 1 de março de 2020) alia a escrita a um projeto político revolucionário que visa a construção de uma sociedade livre de ditaduras, marcada pela justiça, igualdade e equilíbrio político, económico e cultural, no âmbito de uma forte espiritualidade cristã. Em parte, herdeiro do “Movimiento de Vanguardia”, pertenceu à chamada “Generación del 40” ou “Exteriorismo”, que explorava uma poesia objetiva e narrativa, feita com elementos concretos do quotidiano, num tom coloquial e direto. Integra ainda a harmonia com a natureza que o aproxima do universo indígena.
Estudou Literatura na Nicarágua e no México e completou a sua formação nos Estados Unidos. Entre 1957 e 1959, esteve no mosteiro trapense Our Lady of Gethsemani, nos Estados Unidos da América, tendo permanecido também em outros mosteiros no México e na Colômbia. Foi ordenado sacerdote em 1965. Mais tarde, fundou uma comunidade de pescadores e artistas primitivistas no arquipélago de Solentiname, na Nicarágua. Lutando ativamente contra as ditaduras dos Somozas, integrando a Frente Sandinista de Libertação Nacional, associado à Teologia da Libertação e tendo sido ministro da Cultura nos anos 1980, viu o Papa João Paulo II suspender as suas funções de sacerdote em 1983, devido ao seu envolvimento político, decisão levantada pelo Papa Francisco em 2019.
Considerado um dos maiores poetas latino-americanos, Cardenal recebeu, entre outros, o Prémio Reina Sofía de Poesia Ibero-Americana. Os seus poemas conjugam o material e o espiritual e utilizam frases em inglês, títulos de jornais, citações de discursos e anúncios, numa tentativa de agregar todas as formas literárias e a contextualização histórica do humano. Apelam à mobilização política, social e moral dos leitores, bem como à sua consciência crítica. Por exemplo, em Salmos (1964) é feita uma rescrita dos salmos do Antigo Testamento, estabelecendo uma relação com a sociedade mundial do séc. xx, com inúmeras alusões diretas à Europa e aos Estados Unidos da América, mas também indiretas à América Latina. Assim, surgem nestes poemas referências à máquina de propaganda comercial, política e bélica, campos de concentração, indústria de guerra e bombas atómicas. Trata-se de um sujeito poético ora individual, ora coletivo, representando conjuntos de pessoas que clamam por um mundo mais equilibrado e mais justo e que, nestes salmos, aborda questões sociais, violências e injustiças universais a partir de uma perspetiva cristã. Assim, os opressores, os poderosos e os proprietários ricos representam o oposto dos princípios da religião enquanto caminho de libertação. Dirige-se a Deus, aos líderes mundiais e à gente comum, utilizando súplicas e ações de graça. Esta obra teve grande repercussão junto do público latino-americano ao longo de várias décadas, pela contínua identificação com as questões abordadas e a libertadora mensagem bíblica.
Obras de Ernesto Cardenal: Gethsemani Ky (1960); Salmos (1964); Mayapán (1968); Homenaje a los Indios (1969); Cántico Cósmico (1989).
Bibliog.: GARCÍA GONZÁLEZ, Sylma, Yo tuve una Cosa con Él y no es un Concepto. Originalidad y Modernidad en la Literatura Mística de Ernesto Cardenal, Madrid/Frankfurt, Iberoamericana Editorial Vervuert, 2011; LOPEZ-BARALT, Luce, El Cántico Místico de Ernesto Cardenal, Madrid, Trotta, 2012; OVIEDO, José Miguel, Historia de la Literatura Hispanoamericana, vol. iii: Postmodernismo, Vanguardia, Regionalismo, Madrid, Alianza Editorial, 2007; RIVERA VACA, Alberto, “Discurso poético y discursos del poder en Salmos de Ernesto Cardenal”, Filología y Lingüística, n.º 44, 1, 2018, pp. 79-95.
Isabel Araújo Branco