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Tradição judaico-cristã

O cristianismo, na sua origem, traz a herança da cultura, doutrina e tradição judaica. Nos primeiros séculos, após o acontecimento de Cristo, o cristianismo distingue-se do judaísmo, não negando a Antiga Aliança (Aliança mediada por Moisés e que está no centro do judaísmo), mas integrando-a num sentido mais amplo, cuja culminação é a Nova Aliança (mediada por Jesus Cristo). O cristianismo inicia-se, portanto, com a nova visão de Jesus Cristo sobre o judaísmo e com a nova compreensão do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob (cf. Ex 3, 6; Lc 3, 8; Lc 3, 34; Lc 13, 28). À luz desta raiz comum, que une cristianismo e judaísmo, surge o conceito genérico de tradição judaico-cristã. Neste conceito inserem-se todas as características de fé, de doutrina e de cultura (tradições) que são comuns a judeus e cristãos. A fonte doutrinal desta tradição encontra-se no conjunto de livros que compõem o Antigo e o Novo Testamento. Nos primeiros séculos, esta junção de culturas e de interpretações levou a algumas ambiguidades e a reflexões (cf. At 15) que, pouco a pouco, resultaram na purificação dos conceitos de judaísmo e de cristianismo. Desde o início deste último que a separação relativamente aos ritos e à cultura judaica foi sendo feita. Progressivamente, ora se assistia a uma separação clara entre aquilo que era judaísmo e aquilo que era cristianismo, ora surgiam situações de hibridismo religioso em que os que abraçavam a fé em Jesus Cristo procuravam manter-se fiéis aos ritos e ao culto judaico (também durante os primeiros séculos, dentro do judaísmo, muitos procuravam também seguir os novos ritos introduzidos pelos cristãos). Com a expansão do cristianismo, sobretudo a partir do séc. iv, as autoridades eclesiásticas rabínicas e episcopais, cada uma no seu âmbito de ação, intensificam as suas orientações, de maneira a travar este fenómeno que poderia levar, não a uma vivência cristã a partir de uma tradição judaica, mas a uma espécie de sincretismo religioso que anularia ambas as religiões. A vivência segundo uma tradição judaico-cristã não significaria, portanto, que os cristãos deveriam participar nas celebrações e demais expressões de culto na Sinagoga; antes, seria trabalhar, cada vez mais, para um enquadramento doutrinal e litúrgico em que Jesus Cristo fosse afirmado como verdadeiro centro da vida dos crentes. De facto, os ensinamentos, os profetas e os patriarcas que foram assumidos pelo cristianismo estão na raiz, por um lado, da continuidade com a tradição judaica, mas, por outro lado, a releitura feita desta tradição, a partir da Pessoa e dos ensinamentos de Jesus Cristo, fornece uma nova configuração ao judaísmo, permitindo uma compreensão histórica e uma visão doutrinal verdadeiramente judaico-cristã, uma vez que a segunda não existe dissociada da primeira (cf. BOYARIN 1999, 17).

Primeiramente introduzido pelo Oxford English Dictionary (edições de 1899 e 1910), a expressão “tradição judaico-cristã” referia-se ao conjunto de crenças que os cristãos assumiram e a que deram continuidade a partir das crenças judaicas. A partir daqui, a expressão assumiu maior amplitude, sobretudo nas esferas políticas, quando os cristãos, particularmente no início e meados do séc. xx, lutam contra o antissemitismo e em favor de nações com uma legislação e cultura marcadamente cristãs (veja-se, por exemplo, quando o presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower, em 1952, toma posse e, no seu discurso, coloca a expressão “judaico-cristão” como alicerce da fé sobre a qual qual o país é fundado). Além deste sentido mais politizado do termo, também as práticas cristãs, a espiritualidade e a mística foram beber, ao longo dos séculos, aos princípios fundamentais da tradição judaico-cristã. Primeiro, antes da queda de Jerusalém, a espiritualidade cristã confronta-se ora com a intransigência de judeus convertidos (que se recusavam a abandonar os costumes judaicos), ora com a moderação de judeus e pagãos face à mensagem universal de Jesus Cristo. O conflito de Antioquia, entre Pedro e Paulo, revela precisamente estas duas formas de viver o cristianismo primitivo e a maneira como, pouco a pouco, a tradição judaico-cristã se foi configurando e aceitando.

  1. Justino procura alertar para estas duas situações, sublinhando não apenas os extremos incoerentes dos tradicionalistas que, até certo ponto, procuravam viver simultaneamente judaísmo e cristianismo, como também, e sobretudo, aquilo que constituía o núcleo da fé cristã: um núcleo que, integrando o judaísmo, ia bem para além do cumprimento dos seus ritos e costumes (Dialog., 47, P.G., VI, col. 576-580). O extremismo de posições foi, pouco a pouco, conduzindo a uma afirmação de fé mais clara por parte dos crentes (ora afirmando-se judeus, ora afirmando-se cristãos), mas também, devido a tantos pontos de divergência e de convergência, muitos procuraram enviesar a compreensão da tradição judaico-cristã, criando, a partir dela, inúmeras heresias, nomeadamente as afirmações ebionistas. Estas iam falseando tanto os princípios proféticos judaicos como os fundamentos do cristianismo, sobretudo no que diz respeito ao nascimento e batismo de Jesus Cristo (cf. Jerónimo, IN Is., XI, 2, P.L., XXIV, col. 144-145).

Estas heresias foram criticadas tanto por judeus como por cristãos. Pouco a pouco, a tradição judaico-cristã também assumiu esta preocupação e, partindo dela, cimentou as características comuns às duas religiões, deixando claro que o zelo cristão pela Lei, sendo colocado à prova diariamente, não implicava nem sincretismo nem hibridismo religioso: a vivência da Nova Aliança não significava o abandono da Antiga Aliança Moisaica, mas tinha de ser vista como uma releitura desta, à luz da Pessoa de Jesus Cristo. O zelo e espiritualidade cristãos passariam precisamente por este assumir do novo sem negar o antigo. O novo seria consumação do anunciado e não uma rutura com tudo o que era tradição judaica. Um posicionamento que se procurou que pudesse ser vivido de modo pacífico: por um lado, com cristãos que abraçavam a fé em Jesus Cristo, mas que procuravam seguir as determinações judaicas; por outro lado, com aqueles que viviam a fé, sem serem seguidores do judaísmo tradicional.

 

Bibliog.: BERARDINO, A. (org.), Dicionário Patrístico e de Antiguidades Cristãs, Petrópolis, Vozes, 2002; BOYARIN, D., Dying for God; Martyrdom and the Making of Christianity and Judaism, Stanford, Stanford California Press, 1999; Id., “Semantic Differences; or, ‘Judaism’/‘Christianity’”, in BECKER, A. H. e REED, A. Y. (ed.), The Ways that Never Parted: Jews and Christians in Late Antiquity and the Early Middle Ages, Minneapolis, Fortress Press, 2007, pp. 65-85; BURKE, P., Hibridismo Cultural, São Leopoldo, Unisinos, 2006; EISENHOWER, Dwight D., Speech to the Freedoms Foundation, New York, Quoted by Silk, 1984; NEUSNER, Jacob, Jews and Christians: The Myth of a Common Tradition, New York/London, Trinity Press International and SCM Press, 1990; SARNA, Jonathan, American Judaism, A History, Yale, Yale University Press, 2004; SILVA, Gilvan Ventura da, “As relações entre o judaísmo e o cristianismo no Império Romano: Uma nova interpretação a partir do paradigma culturalista”, História da Historiografia, n.º 5, 2010, pp. 58-70.

 

Susana Vilas Boas

 

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