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Cruzadas

No significado mais comum, são expedições militares, levadas a cabo por toda a cristandade, contra os muçulmanos, a fim de se conquistarem ou reterem as terras onde Cristo nasceu, viveu, morreu, ressuscitou e, em especial, o seu sepulcro. Dada a lógica que inicialmente as anima, também lhes chamam “guerras santas”. Podem ainda receber a caracterização de peregrinações – aos mais santos de todos os lugares. Com realismo também se definem como movimento popular migratório, de grandes dimensões, ou como primeira experiência colonial europeia, carregada de motivações económicas. O termo “cruzadas” terá sido usado pela primeira vez numa obra de Archange de Clermont, editada em Lião em 1638, sob o título Histoire des Croisades. A cruz que os empreendedores colocavam sobre o peito, na túnica ou no manto, em tecido vermelho, tornou-se, assim, o elemento aglutinador e identificativo de quantos rumaram a Oriente, na diversidade das motivações reais, afinados, em teoria, pela motivação espiritual. Antes do termo “Cruzada”, o poliédrico fenómeno recebeu muitos nomes: iter, expeditio, succursus, peregrinatio, passagium, negotium crucis, negotium Ihesu Christi… Quem nelas participa são os príncipes e povos de todo o Ocidente cristão. Os maiores impulsionadores são os papas. Duas motivações sobressaem, uma espiritual, outra material. Quanto à espiritual, logo desde o início o Papa Urbano II assegurou que “aqueles que morressem participando na Cruzada, com sentimento de penitência, receberiam o perdão pleno dos seus pecados e a recompensa eterna no além”. Indulgência plenária, ou seja, perdão de todos os pecados e penas inerentes aos pecados, a quem se integre na Cruzada, ou pereça no seu decorrer: eis o grande incentivo espiritual. Pouco a pouco, essas indulgências começam a ser usadas como fonte de rendimento. Em 1184, os que não podiam integrar a Cruzada podiam obter indulgências parciais, contribuindo monetariamente para o empreendimento. O IV Concílio de Latrão, em 1215, prometia indulgência plenária aos que tivessem contribuído para a Cruzada conforme as suas possibilidades. Quanto à parte material, muitos cruzados, colhidos entre camponeses, aventureiros, salteadores, desesperados, nobres arruinados, famílias em dificuldades, sonham com melhoria de vida. Nada têm a perder: os bens terrenos dos que partem ficam colocados sob a proteção da Igreja durante a ausência, por causa da guerra; o bispo local fica responsável pela sua custódia e restitui-los-á, intactos, ao retorno do guerreiro à sua pátria. As dívidas podem esperar.

 

Primeira Cruzada (1095-1099)

O “tiro de partida” foi dado pelo Papa Urbano II, em Clermont, no contexto de um Concílio, participado por uns trezentos prelados. A 27 de novembro de 1095, discursando ao povo, terá começado por descrever a necessidade de ajuda aos cristãos do Oriente, por causa do perigo turco. Os turcos avançam pelas terras cristãs, maltratando os habitantes e profanando os santuários. Mas o Papa não falou somente de Bizâncio. Também aludiu ao carácter sagrado de Jerusalém e descreveu os sofrimentos dos peregrinos que para lá se dirigem. Há que ir socorrer. Em vez de se trucidarem uns aos outros, juntem-se os valentes para travarem uma guerra justa. Deus os guiará. A resposta foi imediata: Deus vult, “Deus o quer”. Mal o Papa acabara de falar, já Ademaro, bispo de Puy, se levantara da sua cadeira, solicitando poder unir-se à santa expedição. E muitos lhe seguiram o exemplo. O Papa continuaria a pregar a Cruzada. E o mesmo fizeram outros pregadores, nos meses sucessivos, merecendo destaque Pedro, o Eremita, um pobre monge itinerante. A primeira Cruzada conheceu dois impulsos: o primeiro agregou uma multidão heterogénea de homens, mulheres e crianças. Foi uma espécie de “Cruzada popular”, inevitavelmente destinada ao fracasso, dada a impreparação dos intervenientes (camponeses de parcos recursos, nobres deserdados, aventureiros e delinquentes), o inadequado armamento, a total ausência de estratégia, até a falta de víveres. O segundo impulso dá-se a partir de finais de 1096, quando começam a concentrar-se em Constantinopla os senhores feudais, juntamente com uns 100.000 homens. Entre os comandantes contam-se: Godofredo de Bouillon, duque da Baixa Lorena, e seus irmãos Eustáquio, conde de Bolonha, e Baldovino; Raimundo de Saint-Gille, conde de Tolosa; Hugo de Vermandois, irmão do rei de França, Filipe I; Roberto, duque da Normandia e seu cunhado Estêvão, conde de Blois (estes dois últimos só chegaram a Constantinopla em maio de 1097); Boemondo, príncipe de Taranto, e seu sobrinho Tancredo. Pelo caminho para Jerusalém, os cavaleiros conquistaram e fundaram o Condado de Edessa. Seguiu-se a captura de Antioquia. O exército rumou, finalmente, a Jerusalém, pela estrada junto ao mar. O assalto consumou-se em 15 de julho de 1099. A população hebraica e muçulmana foi quase inteiramente massacrada. As vítimas islâmicas terão sido 60 ou 70.000. Os relatos do acontecido são aterradores, chegando a falar-se em soldados a caminharem pelas ruas de Jerusalém com o sangue pelos joelhos. Mais contida neste último pormenor, a História anónima da Primeira Cruzada (1924, 203) assim nos narra: pelas três horas da tarde, um dos cavaleiros, Liétaud, conseguiu escalar a muralha da cidade. “Imediatamente todos os defensores se puseram em fuga pela cidade e os nossos perseguiram-nos matando-os e passando-os a fio de espada até ao Tempo de Salomão, onde houve uma tal carnificina que os nossos caminhavam no sangue até ao tornozelo […]. Depois de terem aniquilado os pagãos, os nossos retiraram do Templo um grande número de homens e mulheres e mataram ou deixaram vivos quem bem lhes parecia. […] Os cruzados depressa percorreram toda a cidade, apoderando-se do ouro, da prata, dos cavalos e das azémolas e pilhando as casas que regurgitavam de riquezas. Depois, chorando de felicidade e alegria, os nossos foram adorar o Sepulcro de nosso Salvador […]. Na manhã seguinte, os nossos escalaram o telhado do Templo, atacaram os Sarracenos, homens e mulheres, e decapitaram-nos. Alguns lançaram-se do alto do Templo. Ao ver isto, Tancredo ficou cheio de indignação […]”. Infelizmente, a Cruzada não pecou apenas por excesso de violência e pilhagens. Também por outra desonestidade. De facto, o prometido é que, quanto os cruzados conquistassem no Oriente deveria ser entregue ao imperador, no caso, Alessio I Comneno (1081-1118). Ora, tal não sucedeu. Godofredo de Bouillon foi constituído chefe de Jerusalém, fazendo juramento de vassalagem ao novo patriarca da cidade, Daimberto, arcebispo de Pisa. Baldovino de Bolonha e Boemondo de Taranto assenhorearam-se, respetivamente, de Edessa e de Antioquia. O imperador, que tanto apoio logístico tinha dado aos militares peregrinos, não via o seu esforço recompensado. Pior: em vez de aliados, encontrou outra trupe de que tinha, afinal, de defender-se.

 

Segunda Cruzada (1147-1149)

Os exércitos muçulmanos, comandados primeiro por Zengui, depois pelo seu filho Nuredinn, capturaram Edessa. Esta ocupação fez sentir à ameaçada Jerusalém a necessidade de pedir com urgência o socorro do Ocidente. Poucos meses depois da captura, em novembro de 1145, o bispo de Gabala aparecia em Roma para falar com Eugénio III.  De imediato se pensa numa nova Cruzada. O Papa consegue o apoio de Luís VII, de França. Aos bispos e aos varões do seu reino, convocados para Bourges no dia de Natal de 1145, para a cerimónia da coroação, o monarca anuncia solenemente a decisão de assumir a cruz, convidando os ouvintes a seguirem-lhe o exemplo. Bernardo de Claraval ajuda na pregação desta Cruzada – um contributo inestimável. A 31 de março de 1146, o cisterciense prega à assembleia de Vézelay, onde lê a bula de convocação de Eugénio III, do seguinte teor: “Os principados do Oriente e toda a cristandade correm o mais sério dos perigos. À honra dos primeiros cruzados, e particularmente dos cruzados franceses, se deve ter-se arrancado Jerusalém, Antioquia e tantas outras cidades da tirania muçulmana e ter-se levado o nome cristão até às margens asiáticas. Se as conquistas dos vossos pais devem ser consolidadas no valor dos filhos, é expectável que a França demonstre que o seu heroísmo não degenerou. Recomendamos, portanto, que se assumam a cruz e as armas”. Seguem-se as promessas, espirituais (perdão dos pecados…) e materiais (proteção dos bens e da família). A pregação de Bernardo de Claraval conseguirá a adesão de Conrado III, imperador alemão. Na primavera de 1147, os preparativos da nova Cruzada podiam dar-se por concluídos. As tropas de Luís VII e Conrado III formavam um exército de 150 mil homens. Também da Inglaterra e da Flandres, ainda da Itália (sob Amadeu de Turim e Guilherme de Monferrato) deveriam partir soldados. Tudo apontava para o sucesso. Conrado III saiu da Alemanha em finais de maio de 1147, atravessou a Hungria e chegou a Bizâncio poucos meses mais tarde. Em Bizâncio, ocupava o trono Manuel I Comneno, neto de Alessio I. Conrado jurou não agir contra o imperador. E este deu-lhe apoio logístico. Mas o percurso cruzado por entre os territórios do imperador foi tudo menos pacífico. Em Sofia e em Filippopoli, registaram-se incidentes com as populações, e Manuel Comneno teve de enviar soldados para escoltar os cruzados. Combateram-se entre eles. Os alemães deram-se à pilhagem nos arredores de Constantinopla. Entretanto, chegaram os franceses. A expedição tomou o caminho da Ásia Menor, com a ajuda de Bizâncio, mas sem qualquer colaboração entre franceses e alemães. Os primeiros foram pesadamente derrotados pelos turcos, próximo a Dorileo, a 25 de outubro. Conrado III abandonou a expedição em Éfeso, tornou a Constantinopla e depois foi para a Palestina. As operações prosseguiram na Síria, sem resultados práticos. Enquanto esta Cruzada durava, os normandos do rei Rogério II tomaram conta de Corfù, em 1147, atacaram depois a Grécia continental, devastando-lhe muitas localidades, entre elas Tebe e Corinto. Fizeram um número enorme de prisioneiros e fartaram-se de roubar. Manuel Comneno teve de se aliar aos venezianos para conseguir conquistar a ilha, o que viria a fazer no verão de 1149. Como se percebe, também esta Cruzada em nada contribuiu para a aproximação entre Oriente e Ocidente. Ficou marcada pelo fracasso, por várias razões: por entre os combatentes contavam-se muitos aventureiros; seguindo o exemplo do rei de França, que levava consigo a jovem rainha, muitos barões franceses e alemães levavam também consigo as respetivas esposas; pouco espírito militar; os dois soberanos também não eram um exemplo de conseguida unidade – cada um lutava por sua conta. Um analista de Würzburg anotou que as causas principais do desastre da segunda Cruzada foram uma massa desordenada e militarmente inutilizável… O fracasso ficou na memória por muito tempo. Foi preciso esperar que Jerusalém voltasse a cair nas mãos dos muçulmanos, na época de Saladino, em 1187, para que a bandeira das cruzadas conseguisse ainda recolher no Ocidente forças aptas a uma expedição armada. Saladino foi um grande sultão do Egito, figura nobilíssima dotada de grande sabedoria e equilíbrio.

 

Terceira Cruzada (1189-1192)

Decorreu nos papados de Clemente III e Celestino III. Pretendeu compensar o fracasso da anterior. Foi encabeçada pelos três grandes monarcas de então: Frederico Barba-Roxa, Filipe Augusto de França e Ricardo Coração de Leão (da Inglaterra). Teve um êxito modesto – a retoma temporária de Jerusalém – mas voltou a complicar a relação com Bizâncio. Na verdade, Frederico Barba-Roxa, inimigo declarado do Império, deslocou-se através dos Balcãs e aliou-se com os servos e os búlgaros contra Bizâncio. Isto gerou o pânico em Constantinopla, que concluiu um tratado com Saladino, tentando obstaculizar a passagem dos cruzados. Frederico ocupou Lilippopoli e começou a preparar o assalto a Constantinopla, ordenando ao filho, Henrique, que aprontasse uma frota e obtivesse a bênção papal para a campanha contra o Império Bizantino. A guerra não chegou a acontecer porque, entretanto, Isaac II se rendeu e, em fevereiro de 1190, assinou um tratado, por força do qual o monarca alemão podia circular, abastecer-se de víveres e usar algumas estalagens. Barba-Roxa não chegou à Terra Santa, nem os monarcas francês e inglês. Mas este último subtraiu Chipre aos bizantinos. A relação com Bizâncio piorou ao tempo do filho e sucessor de Barba-Roxa, Henrique VI. Para se manter autónoma, Bizâncio ficou a pagar-lhe um forte tributo anual (“taxa alemã”). E quando o dinheiro escasseou, Alessio III teve de exportar os ornamentos dos túmulos imperiais para atingir a soma necessária. Henrique VI morreu em 1197. Bizâncio respirou fundo, mas, por pouco tempo.

 

Quarta Cruzada (1204)

Na sua obra Bisanzio e l’Occidente medievale, Giorgio Ravegnani afirma perentoriamente que “a quarta Cruzada foi um ato de pirataria internacional”. Os dois artífices principais foram o duque de Veneza e o marquês Bonifácio de Monferrato. O ideal de libertação da Terra Santa perdeu-se por completo. Quem a propôs foi o Papa Inocêncio III, em 1198, e o seu convite foi acolhido por franceses e flamengos, depois por senhores alemães e italianos. Capitaneou-a Bonifácio de Monferrato. Os cruzados tomaram o caminho do Egito, daí queriam atacar a Terra Santa. Precisavam de uma frota capaz. Só Veneza poderia proporcionar isso. Que sim, disseram os venezianos, na condição de os cruzados conquistarem para a rainha do Adriático a cidade de Zara, na Dalmácia, que estava em posse do rei da Hungria. Muitos cruzados não ficaram satisfeitos com esta conquista de uma cidade, não islâmica, mas cristã. E revoltaram-se. Também o Papa Inocêncio III não apreciou o ato, pelo que chegou a excomungar os responsáveis. Mas depressa tudo se desvaneceu. Afinal, o Papa sabia que precisava dos cruzados. Por mar, a partir do chamado Corno de Ouro, os cruzados entraram na cidade, a 12 de abril de 1204. O imperador Alessio V fugiu. Caía assim a capital do Império Romano do Oriente, depois de inviolada por tantos séculos. Durante três dias, os vencedores passearam tranquilamente pela cidade. Profanaram as igrejas, para lhes roubarem tesouros e relíquias, violaram palácios e casas privadas, destruíram imensas obras de arte (salvaram-se algumas, caídas em mãos de venezianos, que preferiram conservá-las e transportá-las para Veneza). Não foram poupados os túmulos imperiais, à procura de ornamentos dos cadáveres. O historiador bizantino Niceta Coniate fala dos cruzados ocidentais como o povo mais ávido de dinheiro, mais parasita e mais destruidor que conhece. Lamenta a feroz e insensata profanação da cidade. Não menos benigna é a descrição que Nicholas Zernov lega à posteridade na sua obra Il Cristianesimo orientale. Aí se lê: na Sexta-Feira Santa de 1204, os cruzados “[…]  irromperam na cidade [de Constantinopla] e durante três dias dedicaram-se a saquear selvaticamente a grande capital do Oriente cristão […]. O saque de Constantinopla foi um dos maiores desastres da história do Cristianismo. A cidade continha inúmeros e insubstituíveis tesouros da antiguidade clássica e da arte e cultura cristãs. Ali estava tudo o que de melhor possuía o mundo mediterrâneo. Durante três dias uma massa enfurecida de soldados bêbados e sequiosos de sangue cometeu homicídios e violências de toda a espécie; palácios, igrejas, bibliotecas e coleções de arte foram bestialmente destruídos; mosteiros e conventos profanados, hospedarias e orfanatos saqueados. Uma prostituta embriagada, sentada no trono do Patriarca na catedral de Santa Sofia, cantava canções obscenas por entre os aplausos dos Cruzados, enquanto os Cavaleiros, por seu turno, se atarefavam em fazer em pedaços o altar-mor que era todo de ouro ornado de pedras preciosas. Naqueles três dias a humanidade perdeu alguns dos seus maiores valores artísticos, a Igreja perdeu a sua unidade, o Império a força para resistir aos invasores asiáticos. O sentimento de fraternidade entre os Cristãos do Oriente e do Ocidente que até então sobrevivera a tanta dificuldade e a tanta prova e havia resistido a tantas tentativas de desagregação, finalmente, ruiu. Não se podia continuar a dizer que Latinos e Gregos fossem membros da mesma Igreja. Os altares profanados, os vasos sagrados manchados de sangue, os edifícios religiosos devastados anunciavam de forma por demais eloquente o fim da unidade cristã” (ZERNOV, 1990, 119). Mais de meio século depois, Miguel VIII Paleólogo (1260-1282) expulsou os cruzados e, de Niceia, onde o governo grego se tinha provisoriamente instalado, voltou para Constantinopla. A cidade, arrastando-se, agónica, viria mais tarde a cair em mãos dos turcos. Ironicamente foi isso, afinal, o que os cristãos acabaram por conseguir.

 

Quinta Cruzada (1217-1221)

Conhece um primeiro impulso com um pequeno pastor, de cerca de 12 anos, chamado Estêvão, que aparece em Saint-Denis, donde partiu a pregar, reunindo muitas crianças à sua volta. Marca encontro com todos os pequenos heróis em Vendôme. Seguem pela estrada de Tours e Lião, rumo a Marselha. Quando embarcaram, o mar não se lhes abriu diante, como fantasiosamente pregava o petiz. Na Alemanha, as crianças foram convocadas por um rapaz chamado Nicolau, que pregou junto do Santuário dos Três Reis, em Colónia. Chegaram a partir dois grupos, que se desfizeram sem terem atingido os objetivos que se propunham. Até que, em 1215, no IV Concílio de Latrão, o Papa Inocêncio III relança a ideia de uma Cruzada, destarte levada a cabo por adultos. O desiderato só se concretizou no tempo do seu sucessor, Honório III, que escreveu a todos os soberanos da Europa, encontrando eco favorável no rei André II da Hungria, no duque Leopoldo da Áustria, no rei Hugo do Chipre, em João de Brienne, ainda em Frederico II, imperador do Sacro Império Romano. Cedo se percebeu que o intuito da Cruzada era tomar conta do Egito. Em finais de maio de 1218 dá-se o desembarque vitorioso em Damieta (Dumyat), considerada cabeça e chave do inteiro Egito. Tentou o muçulmano al-Kãmil, em 1219, que os beligerantes cristãos trocassem Damieta pela Cidade Santa, recebendo ainda a Verdadeira Cruz, perdida em 1187, além da libertação dos prisioneiros vivos dos cárceres egípcios e sírios e a plena posse dos castelos de Belvoir, Safed e Toron. Estranhamente, os cruzados, entre eles o cardeal Pelágio, recusaram a oferta. Provavelmente, porque esperavam a chegada dos reforços que Frederico II prometera enviar, sonhando que com eles seria possível ganhar as duas partes: Egito e Terra Santa. O certo é que os reforços não chegaram, os muçulmanos, entretanto, recompuseram-se e os cristãos saborearam um novo e total fracasso: para salvarem as suas vidas, tiveram que abandonar o Egito.

 

Sexta Cruzada (1228-1229)

A não participação na Cruzada anterior valera a Frederico II uma excomunhão da parte do Papa Gregório IX. Mas o imperador soube que o sultão al-Kãmil procurava apoios e estava disposto a reconhecer o poder imperial Outremer. A 28 de junho de 1228 embarca em Veneza. A excomunhão criava alguns problemas em Outremer, sobretudo entre as ordens militares. Mas Frederico conseguiu reunir o favor dos seus súbditos. Com o sultão concluirá um tratado, assinado em Jafa, a 18 de fevereiro de 1229, que contempla a restituição de Jerusalém aos cristãos (à exceção do Haram al-Sharif, lugar sagrado para os muçulmanos – o que entristeceu os Templários, pois que tinham na mesquita de Al-Aqsã a sua sede principal), as cidades de Jafa e Belém e ainda o território entre Nazaré e Acre. Em contrapartida, o imperador deveria dissuadir os francos e os outros inimigos do sultão de fazerem guerra nos seus territórios, prestando-lhes, se necessária, a sua própria ajuda. Houve quem se revoltasse com o sultão por causa deste acordo. Mas o certo é que transformou esta Cruzada num êxito, não pelas armas, mas pela negociação. Frederico pôde proclamar-se rei de Jerusalém. A cidade foi mantida sob domínio cristão até 1244, altura em que um grupo de turcos khwarezmianos a reconquistou. Os cruzados perderiam definitivamente a cidade de Jerusalém.

 

Sétima Cruzada (1248-1250)

Foi liderada por S. Luís IX, rei de França. Tinha feito voto de partir para a Cruzada em 1244, durante uma grave doença. O concílio de Lião de 1245, no pontificado do Papa Inocêncio IV, sancionava o bom propósito. O objetivo primário da Cruzada era novamente o Egito. O exército chega a Damieta no princípio de junho de 1248 e toma conta da cidade. Seguirá depois, pelo Nilo, em direção ao Cairo. Os cruzados entraram na cidade. As portas de al-Mansura fecharam-se nas suas costas. Foi uma autêntica carnificina. Os mamelucos de al-Salih, pertencentes ao regimento Barih, massacraram os francos, matando uns, aprisionando outros. Depois do fragor das armas, veio o acordo diplomático: a 6 de maio de 1250, mediante o pagamento de um ingente resgate e com a promessa da restituição de Damieta, Luís IX foi finalmente libertado.

 

Oitava Cruzada (1270)

É capitaneada pelo mesmo S. Luís IX e de novo integrada apenas por franceses. A ideia era travar o avanço dos mamelucos, chefiados pelo valente Baybars, que progressivamente se foi apoderando de Arsuf, Cesareia, Safed, Antioquia. Os esforços de Luís IX para contrariar semelhante avanço não obtiveram resultado satisfatório. Com efeito, o exército ficou enfermo com a peste e uma das vítimas foi exatamente o rei. E, com a morte desse soberano, desaparecia o sonho de reconquista da Terra Santa.

 

Reconquista

A luta contra os infiéis não se travava só no Oriente. Ela acontecia também no Ocidente, mais propriamente na Península Ibérica. Só que aqui assumiu um nome diferente – Reconquista. Tal como aos cruzados, também aos homens da Reconquista o Papa concedeu grandes graças. Havia, porém, urna diferença: as cruzadas eram uma empresa eminentemente internacional, enquanto a Reconquista era uma empresa predominantemente peninsular. O primeiro período de grande atividade desta Reconquista inicia-se com Afonso VI, rei de Leão e de Castela, a quem se deve a conquista da cidade de Toledo, em 1085 (perdê-la-ia um ano depois – Batalha de Zalaca). Em 1093, o mesmo Afonso VI conquista aos muçulmanos Santarém, Lisboa e Sintra. Neste final do séc. xi, a luta contra os muçulmanos atraiu as atenções da cristandade europeia. De além-Pirenéus vieram alistar-se nos exércitos de Afonso VI numerosos fidalgos, entre os quais D. Henrique de Borgonha, que casou com a infanta D. Teresa e foi incumbido de governar o Condado Portucalense (1097), que ia desde o Minho ao Tejo. D. Henrique fixou em Guimarães a sua habitação. E, quando faleceu (ano de 1112), o governo do Condado ficou em mãos da viúva, D. Teresa, durante a menoridade do filho Afonso Henriques. Em 1128, trava-se a Batalha de São Mamede, entre os partidários do infante Afonso e os da sua mãe. Esta é vencida. D. Afonso Henriques toma conta do Condado e vai edificar o reino de Portugal. A primeira grande conquista do novo rei dá-se em 1147: Afonso Henriques toma Santarém e, auxiliado pelos cruzados ingleses, franceses, alemães e flamengos, conquista Lisboa. Apesar destas vitórias, só em 1179 é que a Santa Sé reconhece solenemente D. Afonso Henriques como rei de Portugal, que na altura não abrangia o Algarve (conquistado em 1249, no reinado de D. Afonso III).

 

Em jeito de balanço

Apesar de se traduzirem em derrotas, ainda que possam ter dado um impulso ao antissemitismo, sendo certo que se encaixilham dentro de um espírito de intolerância, havendo a lamentar muito sangue vertido, e tendo passado a ideia de que os latinos são bárbaros… as cruzadas não deixam de apresentar aspetos positivos, como sejam: cristãos e muçulmanos encontram-se e, menos ou mais ecuménicos, em muitas situações são levados a conviver, negociar, influenciar-se reciprocamente; nas universidades, na literatura, na arte, na matemática, os ocidentais tiveram muito a colher; a atividade comercial sofreu um incremento notório, passando o Ocidente a conhecer produtos como o algodão, a cana-de-açúcar, várias espécies de árvores de fruto; as cruzadas também nos trouxeram tecidos e tapetes orientais, trajes diferentes e sumptuosos, mobiliários exóticos e ricos; até na liturgia e seus adereços o Oriente contribuiu para o enriquecimento da Europa cristã. E por entre o bom e o mau, se vai urdindo a história!

 

Bibliog.: ALMEIDA, Roque de, Para ler a história da Igreja em Portugal, Porto, Editorial Perpétuo Socorro, 1996; Anónimo, História anónima da Primeira Cruzada, Paris, Éd. Les classiques du Moyen Age, 1924; BENEDETTI, Marina (a cura di), Storia del cristianesimo. II. L’età medievale (secoli VIII-XV), Roma, Carocci editore, 2018; BUONAIUTI, Ernesto, Storia del Cristianesimo. II. Evo Medio, Castelvecchi, Roma, 2018; CARDINI, Franco e MUSARRA, Antonio, Il grande raconto delle Crociate, Bolonha, Società editrice Il Mulino, 2019; COMBA, Rinaldo, Storia Medievale, Milão, Raffaello Cortina Editore, 2021; COMBY, Jean, Para ler a história da Igreja. 2. Do século XI (1054) à Revolução Francesa (1789), Porto, Editorial Perpétuo Socorro, 1989; FERNÁNDEZ, Emilio Mitre (coord.), Historia del Cristianismo. II. El mundo medieval, Madrid, Editorial Trotta/Universidad de Granada, 2006; OLIVEIRA, Miguel de, História eclesiástica de Portugal, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1994; RAVEGNANI, Giorgio, Bisanzio e l’Occidente medievale, Bolonha, Ed. Il Mulino, 2019; RILEY-SMITH, Jonathan, “Crociata”, in ARDURA, Bernard (ed.), Lessico di Storia della Chiesa, Cittâ del Vaticano, Lateran University Press, 2020, pp. 225-227; RUNCIMAN, Steven, Storia delle Crociate, 2 vols., Torino, Einaudi, 1993; ZERNOV, Nicholas, Il Cristianesimo orientale, Milão, Arnoldo Mondadori Editore, 1990.

 

José Paulo Leite de Abreu

 

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