Inserem-se nas chamadas ordens militares (tal como a Ordem Teutónica e a Ordem dos Hospitalários). São uma espécie de fusão do monacato com a profissão de armas. Nasceram no contexto das cruzadas. A estas deu impulso o Papa Urbano II, antigo prior de Cluny, quando, em novembro de 1095, se deslocou a Clermont. Falando ao povo que se juntou para o aclamar e ouvir, o Papa evocou “a desgraça dos cristãos do Oriente” e “apelou aos cristãos do Ocidente para cessarem as suas lutas fratricidas e se unirem para combater os pagãos e libertarem os seus irmãos do Oriente”. O povo acolheu calorosamente o desafio, gritando: “Deus le volt” (“Deus o quer”). Nascia assim o movimento das cruzadas, com tudo o que de bom e de mau delas se possa historiar.
No mesmo intuito de defesa dos lugares sagrados de Jerusalém, nasceu também, uns 20 anos mais tarde, por vontade de Hugo de Payens (natural da Borgonha), de Godofredo de Saint-Aumer, de André de Montbard (tio de S. Bernardo de Claraval) e de mais outros seis companheiros, a Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo. A data do nascimento sofre oscilações: para uns, teria sido em 1118; para outros, em 1119; Rudolf Hiestad não tem dúvidas de que foi em 1120. Aos clássicos votos de pobreza, obediência e castidade acrescenta-se um quarto: defender os Lugares Santos e ajudar os peregrinos, recorrendo às armas. O Patriarca de Jerusalém, em nome da Igreja, aprova a nova Ordem. Balduíno II, rei de Jerusalém, está feliz por poder contar com uma força militar que dá segurança aos peregrinos. Tão contente ficou, que até a deixou sediar-se no seu próprio palácio, a mesquita Al-Aksa, instalada dentro do perímetro onde muitos séculos antes estivera o Templo de Jerusalém. Daí que os Pobres Cavaleiros se começassem a chamar Cavaleiros do Templo, ou, mais vulgarmente, Templários. Quando o rei Balduíno abandonou a mesquita e se instalou na Torre de David, todo o espaço do palácio passou para a Ordem do Templo, a qual, por sua vez, resolveu inserir no seu símbolo o desenho desse Templum Salomonis. O passo seguinte seria conseguir a aprovação de Roma. Hugo de Payens, juntamente com cinco cavaleiros, visitaram o Papa Honório II, decorria o ano da Graça de 1128. Tudo correu favoravelmente. O Concílio de Troyes, iniciado logo depois (primeiras sessões, a 13 de janeiro de 1129) e presidido pelo legado papal Mateus de Albano, deu a Hugo a oportunidade de esclarecer as origens da Ordem, de explicar o trabalho já realizado em prol dos Lugares Santos de Jerusalém, de dar a conhecer a Regra que S. Bernardo de Claraval lhes havia escrito e ainda de pedir o apoio do Concílio para a Ordem e a aprovação da Regra. Essa Regra original (que o Concílio aprovou com breves modificações) não chegou até nós. Conhecemos, isso sim, a Regra que mais tarde fez Estêvão de Chartres, que foi Patriarca de Jerusalém de 1128 a 1130, e que se denominou Regra Latina.
Antes, porém, de nos inteirarmos do conteúdo dessa Regra Latina, seja-nos permitido especificar o contributo indelével de S. Bernardo de Claraval para a génese desta Ordem, não apenas por via da Regra que redigiu e que já mencionámos, mas também pela sua doutrina a propósito da cavalaria cristã e pelo incentivo específico que deu, através da escrita, à Milícia dos Pobres Cavaleiros de Cristo. Aos cavaleiros, o cisterciense impulsionava a matarem os infiéis, sem se deixarem tolher por escrúpulos. Dizia-lhes: “Se um cavaleiro morre, é um bem para ele próprio; se mata, fá-lo por Jesus Cristo, porque não é em vão que leva consigo a espada: é ministro de Deus para vingar os infiéis e defender as virtudes dos bons. Certamente, quando se mata um infiel, não se é um homicida, é-se, se me permitem dizer assim, um malicida”. Por outro lado, ao fundador da Ordem, o monge branco escreve um sermão em forma de carta, no qual vai discorrendo: “Se são felizes os que morrem no Senhor, não o serão muito mais os que morrem pelo Senhor?”. Além disso, matar por Cristo “não implica qualquer sentido criminoso, pelo contrário, acarreta uma grande glória. Mais a mais, alcançam dois fins: morrendo, servem Cristo, e matando, o próprio Cristo entrega-se-lhes como prémio”. Do mesmo modo que Cristo procurou expulsar os vendilhões do Templo, também os Templários “expulsaram dos Lugares Santos toda a imundície da infidelidade satânica e agora dedicam-se, dia e noite, a ocupações mais proveitosas”. No De Laude Novae Militiae, Bernardo assegurará que os cavaleiros, sob a proteção da fé, estão seguros, pelo que não temem “nem ao diabo, nem aos homens, nem à morte”; querem combater por Deus, contra os inimigos da cruz de Cristo.
Estes pensamentos de S. Bernardo aparecem refletidos na Regra Latina. Compõe-se esta de um Prólogo e de 72 artigos. O Prólogo dirige-se a “todos os que desejam servir com o coração puro o verdadeiro Rei Soberano”, condenando veementemente “a Ordem de Cavalaria que menospreza o amor pela justiça, que não defende os pobres e as igrejas… preferindo roubar, despojar e matar”. Quanto aos 72 artigos, servem os primeiros para fixar as obrigações espirituais dos cavaleiros: participação no ofício divino e na eucaristia, (abundantes) sufrágios pelos irmãos defuntos, sentido de oblatividade da vida: “uma vez que Cristo sacrificou a vida pela nossa salvação, eu hei-de estar disposto a dar a vida pelos meus irmãos”. Seguem-se indicações sobre a comida (em comum, no refeitório, as Sagradas Escrituras são proclamadas enquanto dura a refeição). Regulamentam-se as vestes, também os bens de que cada um pode dispor. Fala-se da necessária obediência ao Mestre. E da organização interna da Ordem.
Tempo andando, novas regulamentações foram aparecendo. Assim, a 29 de março de 1139, aparece a bula Omne Datum Optimum, concedida ao Mestre Roberto de Craon, pelo Papa Inocêncio II. Estabelece-se a criação dos Irmãos Capelães e, mais profundamente, a emancipação dos Templários face a qualquer autoridade eclesiástica: dependem unicamente do Mestre e do seu capítulo. Por volta de 1140, realiza-se a tradução da Regra Latina para o francês. Mas essa tradução, afinal, trouxe acrescentos, modificações, omissões. Deixa-se de falar em noviciado, recomenda-se o uso de bigode e barba, permite-se alguma fala durante as refeições (em voz baixa, para pedir o que se precisa…). Finalmente, aparecerão os “Retrais”, espécie de estatutos redigidos, em 1187, sob orientação de Bertrand de Blancfort, que nos ajudam a compreender a maturação da Ordem dos Templários. Precisemos quanto ficou definido sobre as vestes: todos devem usar um hábito branco (lembrando a descendência, ou a ligação a Cister). Na altura do Papa Eugénio III (1145-1153), passou a colocar-se nos hábitos uma cruz vermelha: o vermelho do martírio sobre o branco da inocência, “para que este símbolo triunfante lhes servisse de escudo e lhes permitisse nunca recuar diante de qualquer infiel”.
Quanto à organização da Ordem dos Templários, a casa-mãe situava-se em Jerusalém. Quando a Ordem teve de abandonar a cidade por causa das vitórias dos muçulmanos, a sede passou para São João de Acre e, em 1291 (perdidos os Estados Cruzados), para Chipre (no Ocidente, o local mais próximo do Oriente). Na casa central existia uma hierarquia: o Mestre dirige o Templo, acolitado por um capítulo, integrado, entre outros, por um senescal (substitui o primeiro na sua ausência), por um marechal (cuida da disciplina interna, do que diz respeito aos animais, às armas, quer no que se refere à aquisição, quer por quanto se reporta à manutenção), por comendadores (assumiam as funções de tesoureiros). Existia também o comendador de Jerusalém, a quem competia o acolhimento aos peregrinos. Tendo carácter internacional, a Ordem espalhava-se depois por várias Províncias, presididas por um Mestre Geral, divididas em nações e “línguas”. A sua organização interna (ou distribuição fundamental), que procede do tempo de Inocêncio II (bula de 29 de março de 1139), implicava três classes de membros: os cavaleiros nobres (que se dedicavam à guerra e, com frequência, levavam vida de campanha); os capelães (moravam nos conventos como autênticos monges); os irmãos servidores (irmãos leigos que ajudavam os cavaleiros no serviço das armas ou os sacerdotes nos ofícios domésticos).
Apesar de os mais antigos brasões dos templários representarem dois cavaleiros sobre um mesmo cavalo, lembrando a virtude da pobreza, o certo é que os Templários se mostraram em muitas províncias e nações grandes banqueiros, comendadores, financiadores. Aliás, receberam grandes privilégios dos papas e dos reis. Afonso I, o Batalhador, por exemplo, deixou em testamento, outorgado no mês de outubro de 1131, a eles e aos hospitalários, o seu reino de Aragão. Também noutros países, sobretudo em França, receberam generosas doações.
A primeira notícia de Templários em Portugal consiste na doação que lhes fez D. Teresa, em 1128, do castelo e torre de Soure. Seguiram-se as doações de Ega, dos castelos de Leiria, Pombal, Penela da Beira, Castelo Branco, etc. Também D. Afonso Henriques lhes doou o Castelo de Cera, com todos os seus termos. Senhores deste território, estabeleceram convento junto ao rio Nabão e logo deram princípio ao castelo (1160), o famoso castelo de Tomar, que foi, na época, o mais moderno e avançado dispositivo militar do reino, inspirado nas fortificações da Terra Santa. D. Afonso Henriques também ajudou a criar comendas em Idanha e em Évora.
Foi precisamente a riqueza dos Templários a principal causa da sua ruína. Filipe, o Belo, ansioso por se apropriar dos seus bens, montou o famoso processo dos Templários e arrancou do primeiro Papa de Avinhão, Clemente V, a dissolução da Ordem, no Concílio de Vienne (1312). O suplício do grande mestre Tiago de Molay e de muitos outros cavaleiros acusados dos piores crimes pôs termo à existência da Ordem, quando a perda da Terra Santa tornava menos necessários os seus serviços. À riqueza e como causas outras da dissolução da Ordem, contabilizem-se rivalidades internas e com os reis, o ócio em que viveram depois de abandonarem o Oriente, ócio que empregaram a desfrutar das copiosas riquezas acumuladas e a misturar-se nas contendas entre casas senhoriais. Além disso, faziam sombra a muitos monarcas.
A 25 de outubro de 2007 foi lançada, no Vaticano, uma edição de luxo, limitada a 799 exemplares (o n.º 800 ficou para o Papa Bento XVI), reproduzindo as atas do julgamento condenatório da Ordem militar e religiosa. A obra replica o pergaminho que esteve fechado, desde 1308, no Palácio de Chinon, França, sede do julgamento. Está assinado pelos três cardeais que interrogaram o grão-mestre da Ordem e contém as notas escritas do Papa Clemente V. Este Papa, nada de condenatório encontrando na Ordem, compreendeu que, para evitar uma divisão na Igreja, era necessário sacrificar-lhe a existência.
Em Portugal, D. Dinis, sabendo da extinção da Ordem, tratou de manter os cavaleiros e os seus bens, canalizando-os para uma nova organização militar, de cunho nacional: a Ordem de Cristo (criada em 1319). Esta, além de herdeira dos bens espirituais e materiais dos Templários, também manteve o espírito de cruzada, prestando relevantes serviços na epopeia dos Descobrimentos.
Bibliog.: DANIEL-ROPS, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, São Paulo, Quadrante, 1993, pp. 499-500, 552-553, 639-642; GARCÍA-VILLOSLADA, R. et al., Historia de la Iglesia Católica. II. Edad Media, Madrid, BAC, 1988, pp. 697-703; GODES, Jesús Mestre, Os Templários. Alvorada e Crepúsculo dos Cavaleiros, Cascais, Pergaminho, 2001; GOMEZ, Jesus Alvarez, Historia de la Vida Religiosa. II. Desde los Canónigos Regulares Hasta las Reformas del Siglo XV, Madrid, Publicaciones Claretianas, 1989, pp. 208-212; LUSA/REDAÇÃO, “Templários. Edição inédita do processo procurada em todo o mundo”, Diário do Minho, 27.10.2007, p. 15; LORTZ, Joseph, Historia de la Iglesia en la Perspectiva de la Historia del Pensamiento. I, Madrid, Ediciones Cristiandad, 1982, pp. 392-393; ORLANDIS, José, Historia de la Iglesia. I. La Iglesia Antigua y Medieval, Madrid, Pelicano, 2001, pp. 347-349.
José Paulo Leite de Abreu