Membro dos Trapistas, ou da Ordem dos Cistercienses Reformados da Estrita Observância, ou ainda, em latim, Ordo Cisterciensium Observantiae. O fundador desta Ordem foi Armand-Jean Le Bouthillier de Rancé (1626-1700). Nasceu em Paris, filho de um conselheiro de Estado e secretário de Maria de Médicis. Não sendo o primogénito, o pai destinou-o, desde tenra idade, à carreira eclesiástica: recebeu a tonsura eclesiástica aos 9 anos; era cónego, em Paris, aos 13; poucos anos depois, ainda leigo, tornou-se abade comendatário de três abadias e dois priorados. Formado em Humanidades, viria a receber o sacerdócio aos 25 anos de idade. Seguiu-se o doutoramento, em Teologia, na Sorbonne. Em 1655 foi escolhido para deputado da Assembleia do Clero. Tudo apontava para uma brilhante carreira eclesiástica, quer pela ascendência familiar, quer pelos relacionamentos sociais, quer pela ciência adquirida. Dois acontecimentos, porém, terão provocado uma mudança de trajetória: a morte de uma grande amiga e confidente, a marquesa de Montbazon (em 1657), e a morte do duque de Orleans (em 1660). Comovido, optou por abraçar a vida religiosa, professando, primeiro, no Mosteiro de Perseigne, inserindo-se, depois, como abade regular, no Mosteiro de Nossa Senhora da Trapa, em Sorne, do qual já era abade comendatário. Este mosteiro já se guiava pela reforma da Estrita Observância. Mas Rancé quis ir mais longe. Com aprovação da Santa Sé, introduziu-lhe uma reforma ainda mais severa: jejuns, trabalho manual, silêncio perpétuo, pobreza rigorosa, completa abstenção de carne. A inspiração vinha dos Padres do deserto, envoltos em silêncio e na austeridade, em tudo, também no que à alimentação diz respeito. A penitência tinha supremacia sobre a oração (ainda que esta fosse muito considerada); o trabalho manual sobrepunha-se à ciência. O rigor que imprimiu à reforma monástica, a vontade acesa de reconduzir tudo à pureza de Cister, trouxeram para Rancé a alcunha de “abade tempestade”. O seu estilo agressivo, os seus ataques desapiedados, o medo que incutia, ajudavam a reforçar essa alcunha. O Cardeal Bona dizia dele: “O fervor deste abade está impregnado de furor”. A subalternização, pretendida por Rancé, da ciência e das letras ao trabalho manual valeu-lhe um conflito aceso com os mauristas e, mais em concreto, com o douto benedito de Saint Maur, Jean Mabillon (1632-1707). Para Mabillon – assim ele o escreve no seu Traité des Études Monastiques dans les Cloitres, os estudos são muito importantes nos ambientes monacais; deve compaginar-se o espírito religioso com a aprendizagem; deve interpretar-se equilibradamente a regra de S. Bento, a qual, falando em trabalho manual, não exclui o crescimento intelectual. Rancé, por seu turno, defendeu-se publicando uma obra que viria a ter grande relevância na história da espiritualidade, intitulada De la Sainteté et des Devoirs de la Vie Monastique (ano de 1683). A polémica geraria várias outras obras, interessantes para a espiritualidade monástica. Entretanto, seguindo o espírito e a letra da Charta Caritatis (um dos pilares do ordenamento cisterciense), a Ordem da Trapa estabeleceu o governo supremo no Capítulo Geral, que se reúne trienalmente. As Trapas são autónomas, as casas-mãe com direito de visita sobre as casas-filiadas. A vida transcorre entre a Liturgia das Horas e a eucaristia, por um lado, e o trabalho manual, por outro. Apesar de tudo, a Santa Sé insiste em que não se descure a formação intelectual dos religiosos. Malgrado o rigor da sua observância, a Trapa não deixou de exercer fascínio e colher vocações, mormente entre os descontentes com a frivolidade e superficialidade de vida de muitos cristãos. Por outro lado, também gerou repulsas, sobretudo num século marcado pelo iluminismo, pelas luzes, pela razão, pela ciência. Certo é que com a Revolução Francesa (1789), muitos trapistas abandonaram a França. Entre eles, D. Agostinho de Lestrange, que emigrou para a Suíça com mais 24 companheiros. Estabeleceu-se na antiga Cartuxa de Val-Sainte, onde impôs uma observância ainda mais rigorosa do que a de Rancé. Daí saíram trapistas para a Alemanha, fundando casa em Darfeld (Westfalia), mas na fidelidade a Rancé. Em 1836, ainda haveria de surgir na Bélgica uma terceira observância. Até que os superiores dos três ramos (suíço, alemão e belga) resolveram reunir-se em Roma, no ano de 1891, e terminar com a divisão. O Papa Leão XIII patrocinou o enlace daquela que passou, em definitivo, a chamar-se: Ordem dos Cistercienses Reformados ou Cistercienses da Estrita Observância. O vulgo continua a chamar-lhes “trapistas”. Desde 1898, o superior-geral reside em Roma. Em Portugal, começou a concretizar-se, a partir de 2017, a presença de uma comunidade trapista feminina em Palaçoulo, Diocese de Bragança-Miranda. Essa comunidade chama-se Mosteiro Trapista de Santa Maria Mãe da Igreja. Integra 10 religiosas, oriundas do Mosteiro de Vitorchiano (Viterbo, Itália). As irmãs têm competências diversas: há quem se ocupe da liturgia, da música, das traduções, da atividade agrícola, da atividade artesanal… Palaçoulo sobreviverá com a ajuda de marmeladas, “limoncello” (licor muito apreciado), doces de pasta de amêndoa… No ramo masculino, a sobrevivência consegue-se com a venda de pão, queijos, roupas, mas, sobretudo, com a venda de cervejas. As cervejas trapistas são colocadas, pelos especialistas, entre as melhores do mundo. Os Trapistas – ramo masculino, encontram-se em 87 mosteiros, num total de 1661 membros; o ramo feminino ocupa 70 mosteiros, num total de 1521 monjas. O total de trapistas, à data de 31 de dezembro de 2020, é de 3182. Estão espalhados pelos cinco continentes, pelos seguintes países e número de casas: Angola (2); Benin (2); Camarão (3); Congo (4); Madagáscar (2); Marrocos (1); Nigéria (4); Ruanda (1); Uganda (2); Canadá (5); Estados Unidos da América (15); México (2); República Dominicana (1); Argentina (2); Brasil (2); Chile (2); Equador (2); Nicarágua (1); Venezuela (2); Coreia do Sul (1); Israel (1); Filipinas (2); Japão (7); Hong-Kong Xingam (1); Índia (2); Indonésia (3); Macau (1); Síria (1); Áustria (1); Bélgica (10); Dinamarca (1); França (23); Alemanha (2); Grã-Bretanha (5); Irlanda (6); Itália (5); Noruega (0); Países Baixos (5); República Checa (2); Portugal (1); Espanha (18); Suíça (2); Austrália (1); Nova Zelândia (1).
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José Paulo Leite de Abreu