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Anabatistas

Movimento religioso que teve a sua principal expressão a partir do séc. xvi, constituindo o ramo mais influente da chamada Reforma Radical, o qual, embora decorrente do processo de mudanças profundas ocorridas na cristandade europeia ocidental no início da Idade Moderna, se distinguiu daquela que é considerada a “Reforma Magisterial”, associada a teólogos como Martinho Lutero (1483-1546), Ulrico Zuínglio (1484-1531), João Calvino (1509-1564) e muitos outros. O termo “anabatismo” resulta da transliteração de um vocábulo grego, composto pelo prefixo ανα, usado com o sentido de “repetição”, e βαπτίζω, verbo que é transliterado para “batizar”, ou seja, imergir, lavar. Em meio cristão, o termo aplica-se aos que defendem a necessidade de “rebatizar”, isto é, de administrar um novo batismo aos que se juntam à sua comunidade cristã, ainda que tenham pertencido antes a outro grupo cristão. Apesar de ser um conceito a que vários autores recorreram desde os primeiros séculos do cristianismo, viria a fixar-se historicamente como um de entre outros tantos neologismos que resultaram da Reforma quinhentista. Tal como em muitas outras situações, particularmente as associadas a grupos “radicais”, também no caso dos anabatistas este rótulo que se lhes haveria de colar para sempre resultou da uma estratégia recorrente de se nomearem adversários, não só com base nas suas crenças, mas, frequentemente, nas suas práticas e formas de agir, particularmente aquelas que contrastavam com as dos que categorizavam tais adversários. Não é completamente clara a origem histórica do termo “anabatismo”, mas é bem possível que tenha sido cunhado pela primeira vez no âmbito da controvérsia montanista, logo em meados do séc. ii. Seguro é que Cirilo de Jerusalém (313-386), no olho do furacão da disputa ariana, usou a palavra no prólogo da sua Procatechesis, afirmando em concreto “apenas os hereges são rebatizados, uma vez que o primeiro não foi batismo” (Cyr. H. Procatech. 7). Também Epifânio de Salamina (c. 310-403) terá recorrido ao mesmo termo com significado semelhante (cf. Epiph. Const. Exp. Fid. 13). Não obstante tal ancestralidade, a verdade é que os anabatistas passam a existir como tal a partir do séc. xvi, no contexto da Reforma na Europa Central, embora a designação abranja um vasto leque de personalidades e movimentos que foram surgindo até em diferentes pontos geográficos, pelo que a historiografia do último século tem vindo a demonstrar que não existe necessariamente uma causalidade e univocidade cronológica que liguem de forma coerente esses diferentes grupos. A questão é que uma caracterização destes agregados muito centrada na etimologia da palavra pode revelar-se enganadora, pois se é certo que historicamente os primeiros batismos de adultos ocorreram em Zurique, no seio de um grupo que se cindiu a partir da reforma promovida por Zuínglio – como mais à frente se detalhará –, é igualmente certo que as suas ideias não se limitavam a esta prática, pelo que, numa abordagem mais genérica do seu ideário, é de defender a poligénese da tradição anabatista, já que se trata fundamentalmente de um movimento plural com origens plurais.

Pouca importância se tem dado à figura de André Bodenstein, mais conhecido por André de Carlstadt (1477-1541), mas é a ele que, desde muito cedo, se devem algumas ideias que podem facilmente ser enquadradas na teologia e na prática anabatistas. Primeiro, como “orientador”, depois como colega de Lutero, no corpo docente da recém-criada Universidade de Vitemberga, e, logo a partir de 1517, como indefetível aderente à reforma da Igreja proposta pelo autor das “95 Teses contra a eficácia das indulgências”, ao ponto de com ele ser condenado eclesiasticamente em 1520, Carlstadt viria, pois, a demonstrar a sua pulsão por “ir mais além”, quando assumiu a liderança espiritual da comunidade em Vitemberga durante a ausência do já excomungado Lutero, na sequência da sua proscrição do Sacro Império Romano, decretada na Dieta de Worms, em 1521. Foram dados passos velozes, como a destruição de imagens de escultura, como a anulação do celibato clerical, para a qual contribuiu com o seu próprio matrimónio, logo em janeiro de 1522, como a reforma da liturgia, particularmente com a restauração da distribuição das duas espécies – hóstia e cálix – a todos os comungantes, e como a utilização da língua vernácula, durante as celebrações. O que terá, porém, agravado a dissensão entre as duas principais figuras de Reforma em Vitemberga foi a chegada àquela cidade dos chamados “profetas de Zwickau” – Nicolau Storch, Tomás Drechsel, Marcos Stübner –, ainda com Lutero em Vartburgo. Embora seja criticável generalizar este episódio, aplicando-o sem quaisquer critérios analíticos a um fenómeno tão diverso como foi a Reforma Radical, é certo que progressivamente Carlstadt foi assumindo posições que o aproximaram mais desta vertente, ainda que estes homens de Zwickau apresentassem um discurso muito centrado em visões particulares, algo que não caracterizava o pensamento teológico de Carlstadt. A personalidade que mais contribuiu para a formação de alguma identidade nos anabatistas do sul da Alemanha foi Tomás Müntzer (1490-1525), com quem Carlstadt também se relacionaria após a sua saída de Vitemberga. Desaparecido precocemente, no epílogo da Guerra dos Camponeses, em 1525, as suas ideias viriam a ser repescadas por outros teólogos, os quais conferiram ênfase ao conceito de que a transformação interior do indivíduo, enraizado em práticas místicas medievais, deveria ser acompanhada de uma explícita modificação da sociedade. As interpretações sobre o pensamento teológico e social de Müntzer são diferentes e os seus sucessores foram adquirindo progressivamente uma feição mais pacifista do que aquela que terá sido defendida pelo proponente. Após cerca de uma década bastante conturbada em torno do ideário criado por Müntzer, os anabatistas alemães acabariam por encontrar alguma unidade em torno da figura de Jacó Hutter (c. 1500-1536), que chegou à Morávia em 1533, fugido da perseguição aos anabatistas no Tirol. Com perseverança, Hutter logrou juntar as comunidades anabatistas locais, o que conduziu ao florescimento deste movimento na Morávia, levando inclusivamente a que algumas dessas comunidades adotassem a prática da propriedade comunitária de bens, além das crenças de não-violência, e, como não podia deixar de ser, o batismo exclusivamente de adultos. A perseguição aos anabatistas na Morávia obrigou Hutter a regressar ao Tirol, onde viria a ser condenado à morte na fogueira, sentença que foi executada em 1536.

Uma outra vertente dos anabatistas pode ser identificada nos Países Baixos a partir da pregação de Melquior Hofman (c. 1495-1543), que no início da Reforma foi pregador luterano na Suécia. A sua ênfase era mais escatológica, perspetivando a formação de uma “Nova Jerusalém”, prestes a ser instituída como resultado do julgamento divino contra os ímpios. Após o seu falecimento em Estrasburgo, derivaram duas linhas de pensamento e de prática teológicas relativamente antagónicas: uma de feição mais revolucionária, que levou à instituição, ainda que breve, de um “reino davídico” na cidade de Münster, em 1534, onde foi dada expressão concreta à ideia de “fim dos tempos” a que Hofman tinha dado destaque, mas com violência e radicalismo tais, que todos aqueles que não se identificassem com estas ideias eram eliminados; uma outra linha, de pendor pacifista, teve como personalidade determinante Meno Simons (1496-1561), um teólogo originário da Frísia, que, juntando os huteritas desiludidos com o episódio de Münster, procurou dar mais relevo à paz inaugurada por Cristo.

Tal como já foi acima referido, os anabatistas estão para sempre associados ao grupo de crentes ligados à reforma de Zuínglio. Tudo começou com um conjunto de fiéis da igreja de Zurique que se começaram a juntar para a realização de estudos bíblicos, que, em torno de Conrado Grebel (1498-1526), um mercador suíço, começaram a pressionar Zuínglio para que as transformações religiosas avançassem mais rapidamente. Uma certa disputa entre comunidades rurais e comunidades urbanas acabaria por precipitar a separação que fica historicamente datada de 21 de janeiro de 1525, para muitos o momento fundador do movimento anabatista, ocasião em que os secessionistas foram “de novo” batizados. Embora desde o início tenha ficado patente a dificuldade em unificar os diferentes grupos em torno de uma estrutura ou mesmo de um ideário comuns, pode dizer-se que os Artigos de Schleiteim, redigidos por Miguel Sattler (1495-1527) em 1527, se tornaram uma espécie de magna carta dos anabatistas, no que concerne às suas principais afirmações teológicas.

Mesmo tendo origens diferentes e partindo de pressupostos diversificados, os herdeiros dos vários ramos anabatistas podem ser reconhecidos por terem surgido num ambiente de forte agitação política, social e religiosa, e também pelas suas ênfases comuns na defesa da Bíblia, do batismo de adultos e da separação radical de uma sociedade mundana, mas também de uma igreja estatal, alimentando ainda uma certa nostalgia espiritual na convicção de que o fim do mundo estava próximo. Atualmente, os anabatistas têm a sua expressão mais evidente em comunidades como os menonitas, os amish, os huteritas, até com maior disseminação na América do Norte do que na Europa, mas os seus princípios acabaram por inspirar a vasta corrente, muito heterogénea, de grupos protestantes de natureza congregacionalista, como batistas, quacres, darbistas, ou mesmo pentecostais, os quais no seu conjunto representam mais de 500 milhões de crentes em todo o mundo, sendo, portanto, a mais vasta fatia de todos aqueles que se podem considerar herdeiros da Reforma Protestante.

 

Bibliog.: Dyck, Cornelius J., An Introduction to Mennonite History: A Popular History of the Anabaptists and the Mennonites, Scottdale, Herald Press, 1993; ESTEP, William R., The Anabaptist Story: An Introduction to Sixteenth-Century Anabaptism (3.ª ed.), Grand Rapids, Eerdmans, 1995; HILL, Kat, Baptism, Brotherhood, and Belief in Reformation Germany: Anabaptism and Lutheranism (1525-1585), Oxford, Oxford University Press, 2015; Hill, Katherine, “The power of names: radical identities in the Reformation Era”, in Heal, B. e Wetzel, A. (eds.), Radicalism and Dissent in the World of Protestant Reform, Kornwestheim, Vandoeck and Ruprecht, 2017, pp. 53-70; Stayer, James M. et al., “From monogenesis to polygenesis: the historical discussion of Anabaptist origins”, Mennonite Quarterly Review, vol. 49, n.º 2, 1975, pp. 83-121; WEAVER, J. D., “Reforma Radical” in ELWELL, Walter A. (ed.), Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, vol. 3, S. Paulo, Vida Nova, 1990, pp. 252-255.

 

Timóteo Cavaco

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