A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Bandeira

Designação genérica dada a um vasto conjunto de insígnias feitas de pano preso a uma vara, com cores e sinais identificativos, que recebem várias denominações, de acordo, em geral, com o seu formato (bandeiras, estandartes, pendões, guidões, flâmulas, bandeirolas, galhardetes, gonfalões), e que representam um país, um estado, um município, uma organização ou qualquer outra entidade, pública ou privada.

A bandeira tem na sua origem as insígnias de poder e comando usadas pelos combatentes da Antiguidade, tanto ocidental como oriental, de que, mais perto de nós, são exemplo as do Império Romano. Desde o séc. i a.C., o exército romano tinha a águia como insígnia da legião, o manípulo para a divisão com o mesmo nome, o vexillum para a cavalaria. Este último era uma peça de tecido pendente de uma vara de madeira, da qual derivam as bandeiras medievais, e deu o nome à vexilologia, a disciplina que estuda bandeiras, estandartes e insígnias.

Durante a Idade Média, a bandeira era usada especialmente no contexto militar, para identificar os senhores e indicar, no campo de batalha, a respetiva posição e o lugar para onde deviam convergir as mesnadas que os serviam. A captura deste símbolo pelo inimigo significava derrota e humilhação; manter a bandeira hasteada constituía, por isso, uma prioridade, e dava por vezes azo a atos de heroísmo. Com o aparecimento da heráldica no séc. xii, a bandeira tornou-se armoriada, e, mais tarde, com o advento das empresas, apresentava com frequência esse tipo de emblemática, que complementava as armas pessoais ou institucionais do seu possuidor.

A normativa mais antiga que se conhece sobre bandeiras encontra-se nas Siete Partidas do rei de Castela Afonso X, o Sábio (1252-1284). No topo da hierarquia constava o estandarte, quadrado e armoriado, reservado para príncipes soberanos. Em segundo lugar vinha o pendão caudal (de caudilho), retangular e terminando em semicírculo, usado pelos chefes de 100 ou mais cavaleiros, assim como por municípios. Seguia-se o pendão triangular, com o ângulo mais agudo flutuante, para quem comandava uma força de 50 a 100 cavaleiros, mestres das ordens militares e respetivos comendadores-mores. Os chefes de 10 a 50 cavaleiros usavam uma bandeira retangular colocada à altura de um terço da haste, e os que tinham 5 a 10 cavaleiros sob sua responsabilidade, bem como os adaís, tinham uma bandeira farpada, com duas pontas. Todas estas bandeiras deviam ser içadas numa haste de ferro. Desconhece-se se as normas preconizadas nas Partidas foram integralmente respeitadas em Portugal, e por quanto tempo. Sabe-se que, no séc. xv, havia nomenclaturas diferentes para algumas das bandeiras indicadas, em alguns casos mudando o sentido das anteriores designações, e que certas insígnias referidas nas Partidas tinham já desaparecido. D. João I juntara ao estandarte real, quadrado e armoriado, um outro, retangular e oblongo, com as cores e a empresa do monarca. O primeiro tornara-se símbolo da instituição régia e podia ser hasteado em qualquer local para invocar a autoridade do rei; o segundo, que em finais do séc. xvi deixa de ter a empresa e passa a ostentar as armas régias sobre fundo vermelho, representava o próprio monarca e só podia ser exibido onde este se encontrava pessoalmente. Nas Ordenações Afonsinas, o estandarte real aparece designado como bandeira, tal como sucede nas crónicas de Rui de Pina.

A partir do séc. xvi, as cores e os tipos de bandeiras multiplicaram-se, continuando a ser usadas nos exércitos modernos, identificando os seus diferentes corpos. Além do universo militar, as bandeiras difundiram-se por muitas outras áreas da sociedade, como as instituições eclesiásticas, as confrarias e irmandades, as misericórdias e o Tribunal da Inquisição.

Em torno das bandeiras foi criado um conjunto de protocolos e significados que evoluiu ao longo do tempo e inclui regras e rituais, cujo número e solenidade varia consoante a entidade e a época, e criaram-se outros usos para elas. Entre eles, refira-se a comunicação praticada por seu intermédio na marinha e na aviação, a sua utilização em diversos desportos, e o código de bandeiras coloridas que informa os banhistas acerca do estado do mar.

 

Bibliog.: impressa: “Bandeira”, Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vol. 4, Lisboa/Rio de Janeiro, Ed. Enciclopédia, Lda., s.d., pp. 106-113; “Bandeira”, Verbo: Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Edição Século XXI, vol. 4, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1998, pp. 110-114; “Estandarte”, Verbo: Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Edição Século XXI, vol. 10, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1999, pp. 1356-1357; MATOS, Francisco, “A bandeira municipal de Lisboa: Introdução à vexilologia autárquica olisiponense”, Cadernos do Arquivo Municipal, n.º 5, 2001, pp. 109-127; PASTOUREAU, Michel, “Des armoiries aux drapeaux. Genèse médiévale des emblèmes nationaux”, in Une Histoire Symbolique du Moyen Âge Occidental, Paris, Seuil, 2004, pp. 245-265; “Pendão”, Verbo: Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura. Edição Século XXI, vol. 22, Lisboa/São Paulo, Verbo/Palolo-Poder, 2002, p. 600; PINTO, Augusto Cardoso, “O guião da divisa de D. Afonso V”, Armas e Troféus, 1.ª série, n.º 1, 1931, pp. 92-100; SÃO PAYO, Marquês de, “A nomenclatura das signas medievais”, Armas e Troféus, 1.ª série, n.º 1, 1932, pp. 21-27; SEIXAS, Miguel Metelo de, Quinas e Castelos: Sinais de Portugal, Lisboa, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2019; digital: “Flag”, Encyclopædia Britannica Online: https://www.britannica.com/topic/flag-heraldry (acedido a 30.05.2022).

 

Maria do Rosário Barbosa Morujão

Autor

Scroll to Top