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Belo, Ruy

Ruy Belo (1933-1978), filho de pai seminarista, contacta, a partir de 1943, com a Juventude Escolar Católica, organismo da Ação Católica Portuguesa, com que colabora pontualmente. Faz-se membro da Opus Dei após mudar-se para Coimbra, entre 1951 e 1961, com passagem por Roma a partir de 1956, onde se doutora em Direito Canónico. Em 1961 publica o seu primeiro livro, Aquele Grande Rio Eufrates, abrindo uma primeira fase que desemboca em Homem de Palavra(s), de 1970, a que se segue a partida para Madrid, no ano seguinte. Vive na Faculdade de Letras de Lisboa a crise académica de 1962, ano em que publica O Problema da Habitação – Alguns Aspectos, descobrindo um ensejo de participação política. Em 1965 assina o manifesto dos 101 católicos, a favor do Manifesto da Oposição Democrática, em desacordo com o Estado Novo e com a guerra colonial. Precoce é, na sua vida, a suspeita relativa a uma certa institucionalidade católica, plasmada logo no prefácio à sua primeira obra. Certo é, no entanto, que a questão de Deus é nuclear na sua poesia, de modo particularmente explícito nesses primeiros títulos, com tónica angustiada e de proximidade coletiva, articulada progressivamente com o quotidiano comum, donde as inquietações aludidas na citação do Apocalipse de S. João no seu primeiro título e um progressivo centramento na dúvida que acentua o peso apofântico da morte (“Para a Dedicação de um Homem”). A morte, porém, encontra ainda redenção em Aquele Grande Rio Eufrates (“Homem para Deus”, “Composição do Lugar”, “Maran Atha”, “Última Vontade”), alimentada pelos Vestigia Dei que proporcionam certa nota de otimismo à sua poesia. As coisas mudariam, mas então podia o poeta reencenar a portentosa alusão ao choro de Cristo sobre Jerusalém (“Jerusalém Jerusalém… ou Alto da Serafina”). A dúvida e a evidência da morte agudizam-se, porém, em Problema de Habitação (“Haceldama”), passando Deus a assentar numa visão imanentista (“Prince Caspian”), equilibrando já a sua visão ética de fundo coletivo (“No Túmulo de Sardanapalo”) com certa ironia decetiva (“Rua do Sol a Sant’ana”). Tal tónica decetiva, resultante de um progressivo distanciamento da Igreja Católica, considerando o seu uso social e político pelo Estado Novo, agudiza-se a partir de Boca Bilingue (1966), obra autocensurada, temendo represálias, em três poemas, entre os quais “Versos do Pobre Católico”, e mais ainda em 1969, ano em que se candidata como deputado por Lisboa nas listas da Comissão Eleitoral da Unidade Democrática à Assembleia Nacional e publica Homem de Palavra(s), quando a sua militância política colide com a ideologização institucional da Igreja, culminando nos célebres “Nós os Vencidos do Catolicismo” e “Quadras da Alma Dorida”. Esta rutura com a institucionalidade da fé, entendida como processo não meramente individual, mas como resultado de uma inflexão geracional, converte-o em caso paradigmático de um imaginário de vencidismo católico, no contexto da resistência à instituição eclesial, entre o período que medeia a campanha para a presidência da República, em 1958, e o 25 de Abril de 1974. Tal mutação é, aliás, patente pelo facto de minusculizar todas as palavras a partir da segunda edição de Aquele Grande Rio Eufrates, em 1972, incluindo “deus”. Ainda assim, importa destacar a reiteração, sobretudo nesta primeira fase da sua obra, de uma cosmovisão bíblica, explícita ainda, além dos aludidos, em poemas como “Escatologia”, “Grandeza do Homem”, “Teoria da Presença de Deus”, “Poema vindo dos Dias”, de Aquele Grande Rio Eufrates, ou “Palavras de Jacob depois do Sonho”, “Lot Fala com o Anjo”, “Senhor da Palavra” e “Lembra-te ó Homem”, de Homem de Palavra(s). Se a partir de 1969 se aproxima da tradição neorrealista de atenção ao quotidiano coletivo, sob o signo da fraternidade como valor primacial, surge não uma suspensão da religiosidade, mas a sua versão em dúvida e a abdicação da sua materialização histórica e orgânica, em face da urgência social e política de construção d’ “O Portugal Futuro”. O afastamento da institucionalidade católica – configurado, por exemplo, através da crítica do uso classista da caridade cristã, assente num aparelhamento desigual da Igreja pelo Estado Novo, em “Soneto Superdesenvolvido” – radicalizará doravante a configuração imanentista e humanizada de Deus (“Orla Marítima”, “Palavras de Jacob depois do Sonho”, “Enganos e Desencontros”), dando ênfase à dúvida, abrindo-se a referentes profanos e recusando um discurso oficializante repressor.

 

Obras de Ruy Belo: Aquele Grande Rio Eufrates (1961); O Problema da Habitação – Alguns Aspectos (1962); Boca Bilingue (1966); Homem de Palavra(s) (1970); Todos os Poemas (2004).

 

Bibliog.: CRUZ, Gastão, “Ruy Belo, poeta da morte, do real e da dúvida”, A Poesia Portuguesa Hoje, Lisboa, Relógio d’Água, 1999, pp. 116-121; JORGE, João Miguel Fernandes, “Somos Matéria de Deus”, Uma Paixão Inocente, Lisboa, Cotovia, 1989, pp. 35-40; MAGALHÃES, Joaquim Manuel, “Ruy Belo – Motivos alheios à sua vontade”, Os Dois Crepúsculos: Sobre Poesia Portuguesa Actual e Outras Crónicas, Lisboa, A Regra do Jogo, 1981, pp. 145-163; Id., “Ruy Belo”, Um Pouco de Morte, Lisboa, Presença, 1989, pp. 145-174; MENDONÇA, José Tolentino de, “Introdução. Ruy Belo, clandestino seguidor de Deus”, Aquele Grande Rio Eufrates, 4.ª ed., Lisboa, Presença, pp. 7-15; NEVES, Margarida Braga, “Introdução. Poesia e Poética”, Homem de Palavra(s), Lisboa, Presença, 1997, pp. 7-19; REVEZ, Jorge, “Os vencidos do catolicismo: do poema de Ruy Belo, Nós os Vencidos do Catolicismo (1970), ao problema do “vencidismo” católico”, Lusitania Sacra, n.º 19-20, 2.ª série, 2007-2008, pp. 399-424; RIBEIRO, Manuel António Silva, A Margem da Transcendência: Um Estudo da Poesia de Ruy Belo, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2004; SILVESTRE, Osvaldo Manuel, “Introdução”, Boca Bilingue, 4.ª ed., Lisboa, Presença, 1997, pp. 7-20.

 

Miguel Filipe Mochila

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