A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Berceo, Gonzalo de

Clérigo secular oriundo da localidade de Berceo (La Rioja) e ligado ao mosteiro próximo de San Millán de la Cogolla, Gonzalo de Berceo (c. 1196-c. 1264) ocupa um lugar singular na história da literatura espanhola em língua castelhana, onde surge como o mais antigo autor cujo nome é conhecido.

Representante da renascença cultural dos reinos cristãos da Península Ibérica no séc. xiii, e talvez formado no Studium Generale de Palência, deixou uma ampla produção de vocação didático-moralizante, incluindo as vertentes hagiográfica (quase sempre acerca de santos vinculados com o cenóbio de San Millán, de que foi um hábil propagandista), doutrinal e mariológica. É a esta última linha que pertence a sua obra mais destacada, os Milagros de Nuestra Señora, 25 narrações recriadas a partir de esquemáticos exempla latinos (24 desses milagres estão compilados numa mesma fonte, o ms. Thott, n.º 128, da Biblioteca de Copenhaga) e compostas nos moldes métricos da cuaderna vía que eram distintivos da poesia culta, o chamado mester de clerezia, sem por isso deixar de aproveitar a linguagem popularizante ou as estratégias de captação da atenção do auditório próprias do mester de jograria.

Com o intuito de estimular o fervor mariano entre os ouvintes, e no encalço do papel de maternal mediadora entre Deus e os pecadores que a Ela já lhe atribuíra Bernardo de Claraval, este erudito metamorfoseado em jogral de Nossa Senhora constrói nesses Milagros uma imagem profundamente humana da Virgem Maria. A admirável introdução alegórica que ocupa as primeiras 46 estrofes da obra constitui uma original síntese de tópicos e símbolos retirados da vasta cultura teológica que possuía o seu autor, dos quais se relevam o motivo do homo viator e o do hortus conclusus.

 

Obras de Gonzalo de Berceo: Milagros de Nuestra Señora (c. 1260).

 

Bibliog.: impressa: DOMÍNGUEZ MATITO, Francisco e BORSARI, Elisa (eds.), Revisitando a Berceo. Lecturas del Siglo XXI, Madrid/Frankfurt, Iberoamericana/Vervuert, 2020; digital: FERNÁNDEZ PÉREZ, Juan Carlos, El Estilo de las Obras de Gonzalo de Berceo y Sus Fuentes Latinas: Análisis Comparativo, Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Santiago de Compostela, Santiago de Compostela, texto policopiado, 2006: https://core.ac.uk/download/pdf/61964686.pdf (acedido a 24.10.2020); GARCÍA OTERO, María J., Hag(e)ografia. Propaganda Ideológica y Política Geográfica en los Discursos Hagiográficos Peninsulares. La Construcción de la Nación Española (Siglos XIII a XVII), Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade do Kansas, Lawrence, texto policopiado, 2012: http://hdl.handle.net/1808/11471  (acedido a 24.10.2020); LACARRA DUCAY, María Jesús (dir.), Gonzalo de Berceo [Biblioteca de Autor], Alicante, Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes, 2008: http://www.cervantesvirtual.com/nd/ark:/59851/bmcxh043 (acedido a 24.10.2020); ULI BALLAZ, Alejandro, “¿Es original la introducción a los Milagros de Nuestra Señora?”, Berceo, n.º 86, 1974, pp. 93-118: https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=61554 (acedido a 24.10.2020).

 

Ana Belén Cao Míguez

Autor

Scroll to Top