Cálice, do latim cálix, calicis, que significa copo, vaso para beber, tigela. No âmbito da espiritualidade cristã, o cálice enquadra-se no dispositivo simbólico-imagético da liturgia eucarística, remetendo para a anamnese da Última Ceia e a sequente instituição da eucaristia. Imbuído de uma excessiva carga simbólica no âmbito antrópico da liturgia, dado tratar-se de um objeto que, segundos relatos evangélicos, Jesus Cristo terá utilizado, o cálice insere-se na linguagem eucarística que expressa nos símbolos a sua compreensão plena.
Fundando-se nos textos evangélicos referentes à instituição da eucaristia, o cálice é objeto determinante como contentor do vinho sob o qual se consubstancia o sangue de Cristo. Tomou Jesus primeiramente o pão, e depois o cálice, bendizendo a Deus por um, e dando graças pelo outro. Quando tomou o cálice, exprime-se deste modo: “isto é meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados” (Mt 26, 26-28). Também nas Cartas de Paulo encontramos renovadas referências, que fortalecem a relevância deste objeto como “o cálice da bênção” (1Cor 10, 16). A necessidade de perfazer a memória, solicitada por Cristo – fazei isto em memória de mim – conduziu a liturgia cristã à aplicação de utensílios similares, em nome da fidelidade à Palavra.
O cálice remete para a tradição judaica do Quiddush, que no hebraico significa precisamente “santificação”, que remete para o costume da bênção do cálice. Trata-se de um ritual em que o chefe de família tomava um cálice de vinho na mão, e em palavras solenes rendia graças e louvores a Deus pelos benefícios recebidos, e passava depois o cálice a todos os convidados, cada um dos quais bebendo dele.
O protagonismo do cálice não advém meramente da sua existência material, mas apresenta-se sempre em relação com o vinho, o manancial que remete para a ação de graças judaica e, por sua influência, para a eucaristia cristã. O vinho, tal como o sangue, é o símbolo da aliança entre Deus e a humanidade, consignada através de Moisés (Ex 19, 3-8). A aliança concretiza-se através de um ritual no qual se realizam sacrifícios expiatórios, que antecedem a aspersão do povo com o sangue da aliança. Moisés tomou o sangue e aspergiu com ele o povo, dizendo: “Eis o sangue da aliança que o Senhor concluiu convosco” (Ex 24, 4-8). A aliança de Deus com o seu povo é renovada por Jesus Cristo no ritual que antecipa o seu próprio sacrifício. Segundo a mais antiga narração da instituição da Última Ceia, Jesus institui uma Nova Aliança: “Este cálice é a Nova aliança no meu sangue” (1Cor 11, 25 / Mt 26, 28 / Mc 14, 24 / Lc 22, 20). O vinho apresenta-se como o seu próprio Sangue, no qual Jesus funda uma nova relação entre Deus e os homens, tal como a antiga realizada sobre um sacrifício, no entanto, neste caso, sobre o sacrifício de si próprio.
O cálice renova a sua significação sacrificial durante a oração no Getsémani que antecede a Paixão de Jesus. “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como Eu quero, mas como Tu queres” (Mt 29, 26 / Mc 14, 36 / Lc 22, 42 / Jo 18, 11). As ligeiras variantes que aparecem nos relatos evangélicos não deturpam a mensagem fundamental. Jesus apela para que o cálice da amargura seja afastado, prevalecendo, no entanto, a submissão à vontade do Pai.
Na tradição bíblica, a palavra “cálice” aparece com outras significações, nomeadamente no versículo 13 do Salmo 116 – “elevarei o cálice da salvação” –, em que adquire o significado de sorte admirável ou assistência divina. Inversa significação se denota no primeiro livro de Isaías, 51, 17: “tu que bebeste da mão do Senhor o cálice da sua cólera”, que remete para a ira divina e vontade de castigo.
Um dos mitos mais antigos da história da Igreja é o Santo Graal, que atribui ao cálice utilizado por Jesus Cristo poderes divinos especiais. O Santo Graal é símbolo primordial da cristianização da Grã-Bretanha. Um dos mitos ancestrais da cultura celta defendia a crença em um caldeirão mágico que seria uma fonte de vida, salvando as pessoas da fome e da morte, assumindo um vínculo entre o profano e o sagrado. Com a cristianização da Inglaterra, a cultura celta foi sincretizada, transferindo a lenda do caldeirão mágico para o cálice de Jesus Cristo: o Santo Graal. Apesar das dúvidas levantadas sobre a configuração do “graal”, a origem latina do termo – do latim medieval gradalis – mantém o sentido de recipiente com boca larga, balde, botija ou grande prato fundo.
O mito do Santo Graal fundava-se na crença de que o cálice utilizado por Jesus Cristo na Última Ceia seria o mesmo em que José de Arimateia (ou o soldado Longinus) teria recolhido o sangue de Jesus Cristo que jorrou no momento em que foi ferido por uma lança. José de Arimateia teria fugido para a Grã-Bretanha levando o Santo Graal, que teria sido guardado ocultamente pela Ordem do Priorado de Sião e pelos Templários. A procura pela relíquia chegou a mobilizar os cavaleiros do rei Artur, monarca que liderou a defesa da Grã-Bretanha contra os saxões no final do séc. v. Além do Santo Graal britânico, são inúmeros os relatos míticos que defendem a subsistência desta relíquia, entre as quais sobressai a que se guarda na Catedral de Valência (Espanha). Além da literatura, também o cinema já explorou a temática da busca pelo cálice sagrado, como é exemplo o filme Indiana Jones e a Última Cruzada (1989) ou a rábula dos Monty Phyton Em Busca do Cálice Sagrado (1975). A relevância do cálice como objeto de sacralização percebe-se também nas competições em que a taça dada aos vencedores adquire frequentemente a configuração e a significação do cálice.
Bibliog.: impressa: CENTENO, Yvette, “A simbólica do Graal: notas e reflexões”, Gaudium Sciendi, n.º 1, 2012, pp. 35-46; FERREIRA, José de Freitas, “O sacramento da eucaristia”, Didaskalia, n.º 27, 1997, pp. 5-52; MAGALHÃES, Ana Paula Tavares, “A demanda do Santo Graal: o manuscrito de Heidelberg”, Estudos Avançados, n.º 89, 2017, pp. 453-458; TAVARES, A. A., “Palavras hebraicas e hebraísmos na língua portuguesa”, Didaskalia, n.º 6, 1976, pp. 95-121; digital: SANTA SÉ, Catecismo da Igreja Católica, n.º 271-294: www.vatican.va (acedido a 27.10.2020); SANTA SÉ, Constituição Conciliar Sacrosanctum Concilium – sobre a Sagrada Liturgia: www.vatican.va (acedido a 28.10.2020).
Rui Ferreira