Vulto incontornável da história de Espanha, o cardeal Cisneros tem um protagonismo absoluto como prelado, reformador da vida religiosa, estadista e organizador das novas igrejas de Granada e das Índias. É de menção obrigatória nos tratados, manuais e crónicas de história eclesiástica e civil da Europa moderna. A sua figura tem sido representada, em cada momento historiográfico, com perfis e cores diferentes: mecenas renascentista, santo barroco, político nacionalista, asceta severo.
Embora o nome de batismo fosse Gonzalo, ficou conhecido na História pelo seu nome religioso: Francisco Jiménez de Cisneros. Nasceu em Torrelaguna (Madrid) em 1436 e morreu em Roa (Burgos) em 1517. Filho de uma família fidalga, iniciou-se, de acordo com a tradição, na instrução sacerdotal. Estudou em Alcalá de Henares (Madrid), Salamanca (Teologia e Direito) e Roma (onde aperfeiçoou a administração eclesiástica). Quando regressou a Castela, por volta de 1466, obteve o arciprestado de Uceda (Guadalajara) – desde 1252 possessão do arcebispado toledano – mas o arcebispo de Toledo não concordou, pelo que teve problemas e passou alguns anos na prisão. Foi vigário-geral da Diocese de Sigüenza (Guadalajara) de 1480 a 1484, ano em que ingressou no convento dos franciscanos de Toledo, como consequência de uma crise espiritual, levando uma vida de asceta durante oito anos, até 1492. Nessa data, o ano da conquista do reino de Granada, o confessor da rainha Isabel de Castela, a Católica – Fr. Hernando de Talavera –, passou a ser arcebispo da nova diocese e o posto de confessor foi ocupado por Cisneros por recomendação do Gran Cardenal de España, o cardeal Mendoza. Foi provincial dos Franciscanos – reformou a ordem voltando às origens da estrita Regra de S. Francisco e freou as imunidades e os privilégios do clero secular – e arcebispo de Toledo a partir de 1495, um dos postos mais influentes da política espanhola.
Em 1499, deslocou-se para Granada, onde começou uma política de conversão célere dos mudéjares, facto que provocou uma série de guerrilhas nas Alpujarras. Para acabar com os conflitos, obteve, em 1502, a permissão dos reis. Amparado pelo apoio real, Cisneros forçou os mouriscos à conversão ou à emigração, utilizando para isso métodos coercitivos. Cada vez exercia menos o papel eclesiástico e mais o político.
Foi íntimo da rainha até ao seu falecimento (1504) e, a partir desse momento, converteu-se na figura mediadora entre o rei viúvo Fernando de Aragão, o Católico, e Filipe, o Formoso, pelas disputas relacionadas com a sucessão da Coroa de Castela. Fernando partiu para Itália, mas regressou pouco depois, após a morte de Filipe, em 1506. Logo no ano seguinte, em 1507, o cardeal instaurou uma regência – aglutinou as minorias dirigentes castelhanas – e mandou vir o rei Fernando, que regressou com o capelo cardinalício outorgado pelo Papa.
Durante a regência do rei aragonês, Cisneros impulsionou uma forte política de conquistas no norte da África (Mers el-Kébir e Orão – ambas na Argélia –, 1507-1509) e, seguindo uma política centralista, conseguiu o fortalecimento do poder real. Todas estas ações deram projeção ao cardeal, que obteve, em 1507, o cargo de inquisidor geral do Santo Ofício. Sempre foi fiel à causa do rei Católico e à ideia deste do que deveria ser a monarquia hispânica. Foi regente após a morte do rei (1516) e até à sua própria morte. Enquanto regente, foi confirmado no posto pelo futuro imperador Carlos V. Durante esta época, teve de enfrentar muitas rebeliões nobiliárias, criando para as evitar uma milícia urbana (Gente de la Ordenanza).
Na vertente cultural, a sua figura foi de uma grande atividade: recuperou o rito moçárabe – o Corpus Christi – (1495) na catedral de Toledo, fundou a Universidade de Alcalá de Henares (1507) e preparou a famosa Bíblia Poliglota Complutense, publicada em 1520 (os idiomas eram o hebraico, o grego, o latim e o aramaico). Atraído pelo saber de Raimundo Lúlio (Ramon Llull, em catalão), transformou os seus ensinamentos na Península Ibérica, que chegaram a ter categoria universitária.
Depois da morte do cardeal, houve diversas tentativas para conseguir a sua canonização. A primeira delas foi no séc. xvi, no convento de S. Francisco de Torrelaguna. Contudo, a Reforma Protestante que vigorava na altura impediu o seu decurso. A segunda tentativa aconteceu no séc. xvii, sem êxito, e, finalmente, o Papa Clemente XIV – franciscano –, no séc. xviii, encerrou definitivamente o processo, pois não havia consenso entre as duas fações (observante e conventual) em que se tinha dividido a Ordem Franciscana nos tempos do cardeal Cisneros.
Bibliog.: GARCÍA ORO, José, Cisneros, el Cardenal de España, Barcelona, Editorial Ariel, 2002; GÓMEZ DE CASTRO, Álvar, De Rebus Gestis a Francisco Ximenio de Castro, Archiepisco Toletano, libri viii, Alcalá de Henares, 1569 (Ed. Moderna: OROZ RETA, José [trad.], De las Hazañas de Francisco Jiménez de Cisneros, Madrid, Fundación Universitaria Española, 1984); MIRANDA, Salvador, The Cardinals of the Holy Roman Church. Biographical Dictionary, Florida International University Libraries (verbete: Jiménez de Cisneros, O.F.M.Obs., Francisco): http://cardinals.fiu.edu/bios1507.htm#Jimenez (acedido a 23.09.20).
José Ignacio Vásquez Diéguez