Carlos de Áustria nasceu a 17 de agosto de 1887, no castelo de Persenbeug, como primogénito do sobrinho do imperador Francisco José, Otão de Áustria, e de Maria Josefa de Saxe, senhora muito católica que influenciou decisivamente a educação do filho.
Criado de forma espartana, o jovem entrou aos 9 anos para Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, cujo escapulário usou até à morte, e aos 12 anos fez a primeira comunhão e ingressou no colégio beneditino, o Schottengymnasium, onde estudará até aceder à formação militar, que o levará, aos 18 anos, a integrar o exército. Mais tarde, será aluno da Universidade de Praga, onde cursou Direito e Ciências Políticas, linha de estudos apropriada a um futuro imperador.
Casado desde 1911 com Zita de Bourbon, neta de D. Manuel II de Portugal e senhora de uma educação também profundamente católica, recebida no Instituto de São José das Irmãs Salesianas, Carlos não dispunha, no entanto, de muito tempo para dedicar à família, dado que era militar e a Europa se encontrava à beira de uma guerra, que começará em 1914, e cuja causa próxima foi precisamente o assassinato do seu tio Francisco Fernando.
A morte de Francisco José, em 1916, faz do jovem Carlos imperador, numa conjuntura em que a Primeira Guerra Mundial já tinha provocado inúmeras vítimas, algumas das quais na sua presença, uma vez que estava frequentemente muito perto da linha da frente. Os horrores da guerra perturbavam o imperador, que desde a primeira hora levou a cabo uma série de iniciativas tendentes a abreviar o conflito, todas infrutíferas. Em 1918, o fim da guerra determina igualmente o fim do Império Austro-Húngaro, e a família real é obrigada a exilar-se, primeiro na Suíça e depois na Madeira, terra aonde chega em 1921, sem recursos económicos suficientes para assegurar a subsistência da família. Muito bem acolhido pela população, o imperador acabou por aceitar a oferta de alojamento feita por um banqueiro local, e a família instalou-se no Monte, numa casa grande, mas muito mal isolada para o inverno, que, naquelas altitudes, é bastante frio e húmido. Estas condições acabaram por fazê-lo adoecer com uma pneumonia que o vitimou, a 1 de abril de 1922. Foi sepultado na igreja do Monte, e ao seu enterro assistiu uma multidão, o que bem comprova a aceitação de que gozava entre a população, granjeada no breve contacto de seis meses.
Apesar de a sua vida ter sido marcada por infortúnios sucessivos, Carlos de Áustria não se queixava, mas antes a agradecia a Deus, a 31 de dezembro do annus horribilis de 1918, todas as graças que recebera durante aquele período, marcado pela derrota e pelo exílio.
Católico profundo e convicto, Carlos pautou a sua vida pela oração – particularmente o terço, que sempre trazia consigo, a frequente assistência à missa, a generosidade que manteve, constante mesmo quando a família não gozava de nenhuma prosperidade, a humildade, a aceitação plena da vontade de Deus, que nunca contestou. À porta da residência no Monte, onde a família passava por tantas dificuldades, Carlos encarregou uma pessoa de socorrer os que ainda eram mais pobres do que ele, e na mesma altura escrevia “Estou muito grato a Deus por tudo o que me manda” (FARIA, 2011, 55). O reconhecimento da sua fé inquebrantável, a caridade que sempre o acompanhou e a esperança que manteve até ao fim da vida levaram a que o processo para a sua beatificação se tivesse iniciado logo após o seu falecimento. Depois de vicissitudes várias, que frequentemente retardam estes processos, e da evidenciação de um milagre obtido por sua intercessão, Carlos de Áustria acabou por ser beatificado em 2003 pelo Papa João Paulo II, sendo a sua memória evocada no dia 21 de outubro, data em que celebrava o casamento com Zita de Bourbon, ela própria a caminho da beatificação.
Bibliog.: impressa: FARIA, D. Teodoro de, Beato Carlos de Áustria. Os Habsburg na Madeira, Funchal, Direção Regional dos Assuntos Culturais/Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 2011; digital: Beatification of Five Servants of God, Homily of John Paul II, 2004: http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/en/homilies/2004/documents/hf_jp-ii_hom_20041003_beatifications.html (acedido a 12.01.22); Carlo d’Asburgo, modelo di santità: https://www.lavocedelpopolo.it/diocesi/ (acedido a 03.11.20); Carlos de Áustria (1887-1922): http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_20041003_charles-austria_po.html (acedido a 03.11.20).
Cristina Trindade