A B C D E F G H I J K L M N O P Q R S T U V W X Y Z

Cenobitismo

De koinós + bíos = vida em comum, estilo de vida religiosa proposto por Pacómio, conhecido como o pai da koinonia (da comunhão), asceta que soube encontrar um equilíbrio entre o individualismo ascético dos primeiros padres do deserto e uma regulamentação eficaz da vida comunitária. Em ambos os ascetismos, individual e comunitário, os fundamentos eram os mesmos: vigilância para não cair em tentação, renúncia ao mundo, morrer para si próprio, tomar a cruz para seguir o Mestre, doar-se radicalmente a Deus e ao Reino. Mas os carismas eram diversos.

Pacómio nasceu em Latópolis (Esneh), por volta do ano 290. Alistado no exército quando tinha 20 anos, para a última guerra de Maximino Daia contra Licínio, acabou por ir parar à prisão de Luxor. Os cristãos das proximidades de Luxor levaram aos prisioneiros alimentos e bebida. E Pacómio quis saber o que significava isso de ser cristão. Ainda preso prometera que, se escapasse da tribulação, gastaria o resto dos seus dias amando e servindo os homens. Poucos meses depois, Maximino Daia venceu Licínio. Pacómio regressa a casa e pede o batismo.

Juntamente com seu irmão João, levantou a primeira cela em Tabenisi, na margem oriental do Nilo, a norte de Tebas; alguns anacoretas que viviam nas proximidades juntaram-se a eles; nasceram assim as “tebaides””, nome dado às primeiras comunidades de monges fundadas por S. Pacómio.

Esta primeira tentativa fracassou. Mas Pacómio tinha realizado uma experiência espiritual decisiva para o futuro desenvolvimento da vida monástica. Até então, o anacoretismo (de anachorein = retirar-se, isolar-se, abandonar o mundo) tinha separado o serviço a Deus do serviço aos homens; agora Pacómio percebeu que o serviço a Deus passa pelo serviço aos irmãos. À “desordem” dos anacoretas ele contrapunha a vida em comum, com os do mesmo ideal, cintados por um muro.

Novos discípulos, muitos discípulos, dão origem a uma nova tentativa de vida comunitária. Para além de Tabenisi, que, entretanto, se mostra insuficiente, constroem-se agora os mosteiros de Pbow (que viria a ser o centro de todo a estrutura pacomiana), Chenoboskion, Tmousons, Akhmîn, Thebiou, Tsi e Tsminé. A última fundação foi a de Phnoum.

À morte de Pacómio temos, então, nove mosteiros masculinos, a que se somam dois femininos, cada um deles chefiado por uma superiora, que recebia o nome de ammas ou abadessa. Uma das abadessas chamava-se Maria, que era irmã do fundador.

As criações pacomianas agrupam muita gente. Há quem fale em 600 monges (caso de Pbow); chega a falar-se em 750 a 800 homens, repartidos depois segundo o seu trabalho em casas, nas quais habitam entre 20 a 40. Em frente do mosteiro está o Superior; em frente da casa está o Prepósito. O Superior do Mosteiro recebe diretamente as ordens do Superior Geral.

Quanto ao total de monges, os números são díspares: Paládio fala, à época do fundador, quer em 3 000 (Hist. Laus. 7), quer em 7000 (Hist. Laus. 32). Segundo o mesmo autor, no Mosteiro feminino de Panópolis estariam 400 monjas. Segundo Cassiano, os monges pacomianos seriam uns 5000 (Inst. 4, 1). S. Jerónimo, no prefácio à Regra, que ele mesmo traduziu, fala na astronómica cifra de 50000.

Pacómio visitava todos os mosteiros uma vez no ano. Teve o grande mérito de abrir muitas possibilidades de vida monástica aos cristãos que não podiam aspirar às heroicidades ascéticas dos anacoretas.

Morreu em 346. Apesar das dificuldades em encontrar sucessores, a sua obra foi continuada pelos seus discípulos, sobretudo pelo seu aluno predileto Teodoro e, depois, por Orsiesio (falecido em 386).

Entretanto, vítima de uma organização muito sufocante, este tipo de monaquismo viria a esgotar-se no espaço de um meio século.

Mas ficou aberto um canal que não mais se fecharia até aos dias de hoje, para quem pretende doar-se na radicalidade a Deus: a vida cenobítica, a vida comunitária, a vida com outras vidas entrelaçadas por um mesmo ideal, carisma que abarca a maioria das ordens religiosas existentes (são menos as que optam pela vida anacorética, cimentada no silêncio, na meditação, na clausura, num grande ascetismo).

Numa comunidade pacomiana, tudo se regulamenta, tudo se estrutura. A Regra é fundamental. S. Pacómio desdobrou-a em 194 artigos. Esta Regra viria a tornar-se modelar para os sucessivos legisladores (entre os quais S. Bento).

Com base na Regra, a Eucaristia, a Liturgia das Horas (pela manhã, ao meio-dia, à tarde) e as refeições reúnem todos os membros (na Quaresma, nas quartas e sextas-feiras ao longo de todo o ano faz-se apenas uma refeição). O hábito, igual para todos, sublinha a adesão do candidato a um sistema pré-estabelecido (esse hábito consiste numa túnica de linho sem mangas, cinto de couro, pele de cabra curtida; no tempo frio, um mantelete com capuz, no qual se indica a “casa” a que o monge pertence). A atividade desenvolve-se sob a autoridade de um coordenador de trabalhos (a maior parte dos monges ocupa-se na fabricação de esteiras de vime). A pobreza exige que se ponham em comum todos os bens, sem que isso signifique propriedade coletiva, já que tudo permanece propriedade do Senhor (poucos ou muitos, os ascetas tinham os seus pertences; aqui, ninguém é dono de nada). Exige-se obediência absoluta (para Pacómio, a obediência é a virtude principal do monge). Duas vezes por ano reúnem-se os monges de todos os mosteiros: a primeira, pela Páscoa, para a celebração da festa; a segunda, em agosto-setembro, para apresentação de contas.

Os monges podem ser encarregados de tarefas específicas, assumindo nomes condizentes: ministro; hebdomadário, ecónomo; enfermeiro…

Todos os monges devem procurar, para além do trabalho, a instrução espiritual e o progresso ascético. Há que observar a mais estrita pontualidade, rigoroso silêncio, observância da disciplina, perfeita observância da castidade, esmerada pobreza, rigorosa penitência.

Acrescente-se que a Regra de S. Pacómio ocupa o primeiro lugar na cronologia das regras monásticas. Tendo sido escrita em copto, só nos chegou em traduções. A melhor foi a realizada por S. Jerónimo, em 404. Mas, além da tradução latina, chegaram-nos também quatro fragmentos em copto:  Praecepta, Praecepta et Instituta, Praecepta atque Judicia e Praecepta ac Leges.

Uma palavra final sobre a vida de São Pacómio: causou grande impacto e admiração entre os monges. Prova disso são as muitas biografias que sobre ele se escreveram, em vários idiomas: copto sahídico e copto bohaírico, árabe, siríaco, grego e latim. As mais importantes são as seis conhecidas como Vita I, II, III, IV, V, VI. Completam-se com a Carta do Bispo Ammón a Teófilo de Alexandria, onde se descreve a vida de Pacómio e do seu sucessor, o monge Teodoro.

 

Bibliog.: BIANCO, M. G., “Cenobio, cenobita”, in BERNARDINO, Angelo Di (dir.), Nuovo Dizionario Patristico e di Antichità Cristiane. A-E, Genova/Milano, Editore Marietti 1820, 2006, pp. 984-986; BIANCO, M. G., “Cenobium-cenobite (also coenobium-coenobite)”, in BERNARDINO, Angelo Di (dir.), Encyclopedia of Ancient Christianity, Lisle (Illinois), InterVarsity Press, 2014, pp. 487-489; GÓMEZ, Jesús Álvares, Historia de la Vida Religiosa. I. Desde los Origenes hasta la Reforma Cluniacense, Madrid, Plubicaciones Claretianas, 1996, pp. 198-199, 222-236; LLORCA, B. et al., Historia de la Iglesia Catolica. I. Edad Antigua. La Iglesia en el mundo grecorromano, Madrid, BAC, 1996, pp. 592-594; MERVILLE, Gert, “Monachesimo”, in ARDURA, Bernard (ed.), Lessico di Storia della Chiesa, Citá del Vaticano/Roma, Pontifícia Università Lateranense, 2020, pp. 417-422; PRINZIVALLI, Emanuela, Storia del Cristianesimo. I. L’Età Antica (Secoli I-VII), Roma, Carocci Editori, 2019, pp. 286-288; SOTOMAYOR, Manuel e UBIÑA, José Fernández (coords.), Historia del Cristianismo. I. El Mundo Antiguo, Madrid, Editorial Trotta/Universidade de Granada, 2003, pp. 651-654.

 

José Paulo Leite de Abreu

Autor

Scroll to Top