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Cirita, João

Personagem mal conhecido, que chegou já a ser tido como ficção, a sua figura perpassa toda a problemática da introdução e da primeira fase da expansão de Cister em Portugal. Embora não se conheça, hoje, nenhum documento original em que o seu nome seja citado, aqueles que nos chegaram têm as características exigidas a cópias autênticas, além de que muitos deles foram vistos no séc. xvii, por autores fidedignos que deixaram também informação sobre o lugar onde viram os documentos e quais as suas características ou condições de transmissão e guarda. São vários, tanto de proveniência régia como particular, o que lhes acrescenta fiabilidade e afasta a invenção da sua figura.

Mencionado desde 1125, e desconhecendo-se a data do seu nascimento, nas suas próprias palavras – de data muito mais tardia –, seria um homem chegado “a transalpinis partibus”, i.e., das partes transalpinas. Segundo a memória do Mosteiro de Tarouca, teria relações privilegiadas com Bernardo de Claraval. Não se lhe devendo a introdução da obediência cisterciense em terras portuguesas, foi, no entanto, um personagem central na sua expansão por elas, em estreita sintonia com o rei dos portugueses e D. João Peculiar, arcebispo de Braga e exímio diplomata de D. Afonso Henriques. A tarefa foi levada a cabo num espaço muito próprio, delimitado e circunscrito, a Beira-Douro, pelo qual entrou e se afirmou a Ordem de Cister em Portugal. O seu nome adorna a história dos mosteiros beiro-durienses, desde São Cristóvão de Lafões a São João de Tarouca, Santa Maria de Salzedas e São Pedro de Águias, pelo que, fosse quem fosse, na sua origem, e tenha chegado a Portugal em que circunstâncias fosse, o seu nome tem lugar na difusão e afirmação da espiritualidade cisterciense em terras portuguesas.

Faleceu em 1164.

 

Bibliog.: COSTA, Manuel Gonçalves da, “Frei João Cirita, fundador cisterciense. Mito histórico?”, Anais da Academia Portuguesa da História, II Série, n.º 24, 1977, pp. 101-120; FERNANDES, A. de Almeida, Os Primeiros Documentos de Santa Maria da Salzeda (até à Morte da Fundadora). Comentários e Defesa, Guimarães, Sociedade Martins Sarmento, 1985; MARQUES, Maria Alegria, “O Císter ibérico e as suas peculiaridades: o reino de Portugal”, in GONZÁLEZ ZIMLA, Herbert e PRIETO LÓPEZ, Diego (eds.), Monasterio de Piedra, Un Legado de 800 Años. Historia, Arte, Naturaleza y Jardín, Zaragoza, Institución Fernando el Católico, Diputación de Zaragoza, 2019, pp. 82-108; OLIVEIRA, Miguel de, “Origens da Ordem de Cister em Portugal”, Revista Portuguesa de História, n.º 5, 1951, pp. 317-353; RENZI, Francesco, “Fondazione ed entrata nell’Ordine Cisterciense dei monasteri galiziani (1142-1199). Le cronologie come strumenti de ricerca”, in MARQUES, Maria Alegria e OSSWALD, Helena (coords.), De Cister a Outros Espaços e Caminhos: as Beiras e as Suas Expressões Histórico-Culturais. Livro do XII Encontro Cultural em São Cristóvão de Lafões, São Cristóvão de Lafões, Associação dos Amigos de São Cristóvão de Lafões, 2017, pp. 41-67; TORRE RODRÍGUEZ, José Ignacio de la, “Evolução histórica de Cister no Vale do Douro”, in PEREIRA, Gaspar Martins et al. (coords.), Cister no Vale do Douro, Porto, Grupo de Estudos da Viticultura Duriense e do Vinho do Porto/Edições Afrontamento, 1999, pp. 69-116.

 

Maria Alegria Marques

 

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