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Cisma

Termo que deriva do grego skhísma, ou do latim schisma, que se traduz por “separar, dividir”.  No plano religioso, designa o ato ou efeito de se separar de uma religião, de uma comunidade ou de uma hierarquia religiosa. A separação pode ser protagonizada por uma pessoa, por um grupo, por uma organização ou por um movimento, e o motivo pode radicar em discordância com as diretrizes traçadas pelas chefias, em razões disciplinares, em razões dogmáticas ou na conjugação de alguns desses fatores. De forma abrangente, a palavra “cisma” aplica-se a situações de desacordo ou dissidência.

Ao longo da história da Igreja identificamos vários momentos de divisão, alguns com impactos muito significativos. Recordamos, entre outros, o novacianismo e o donatismo. Com repercussões ainda maiores, o cisma com a Igreja do Oriente e o Cisma do Ocidente. Bem vivas nos dias de hoje, as cisões provocadas pelo protestantismo e, caso ainda mais específico, pelo anglicanismo. Em tempos recentes, o caso mais emblemático foi protagonizado por Marcel Lefebvre.

Por “novacianismo” entende-se uma igreja cismática que teve por fundador Novaciano, presbítero, homem culto, figura de proa na comunidade romana ao tempo do Papa S. Fabião (236-250). Terá sonhado suceder-lhe na Cátedra de Pedro, mas tal não aconteceu, recaindo a escolha em Cornélio (251-253). Novaciano atacou o novo papa acusando-o de laxismo. Reuniu em torno de si considerável grupo de aderentes, fez-se sagrar bispo, guindou-se a antipapa. Criou um cisma que se alastrou a quase todas as províncias do Império. O novacianismo chegou a ser uma igreja importante, com representantes no Oriente até ao séc. vii (no Ocidente extinguiu-se mais cedo).  A questão do laxismo (acusação lançada sobre o pontífice) contextualiza-se no período das perseguições do Império Romano aos cristãos. Acabara de acontecer a perseguição de Décio, durante a qual alguns cristãos (sacerdotes e bispos incluídos) apostaram a sua fé, por medo, por cobardia. E levantava-se a dúvida: esses lapsi, uma vez arrependidos e, passada a tormenta, mostrando interesse no retorno à Igreja, podem ou não ser readmitidos? Se sim, em que condições? Mais: os sacramentos administrados por lapsi são válidos ou não? – As respostas a estas questões não eram concordes. Em Cartago, o presbítero Novato e o bispo Fortunato, eleito em oposição a Cipriano, falavam de uma readmissão sem condições, apenas com a recomendação de um mártir ou confessor (libelli pacis). Novaciano defendia uma postura diversa: os apóstatas não deveriam ser readmitidos na Igreja. Deveriam passar o resto da vida em penitência. A Igreja é dos puros e espirituais. Não pode admitir-se uma segunda penitência após o batismo. A Igreja é uma “virgem esposa perfeita e completa em tudo, incorrupta e intacta, graças à santidade da virgindade perpétua” (Novaciano, Tr. 29, 16, 172). No meio termo, Roma acabou por admitir o regresso dos lapsi, prévia, adequada e pesada penitência, do mesmo modo que reconheceu a validade dos sacramentos, independentemente do estado de graça, ou não, de quem os administra.

O cisma de Donato tem o mesmo ponto de partida, mas num período diferente. Estamos agora no tempo do Imperador Dioclesiano, inícios do séc. iv. Cumprindo as ordens daquele soberano, alguns cristãos entregaram às autoridades policiais do império os vasos sagrados, os livros litúrgicos, as próprias Escrituras. Ou então fugiram. Passada a tormenta, começaram a regressar à comunidade. Ora, muitos cristãos de tendências rigoristas, influenciados pelos montanistas, por Tertuliano, mostravam-se adversos à readmissão dos traditores, considerando-os apóstatas e indignos, indesejáveis, corruptores do tecido eclesiástico. No caso de serem sacerdotes, a apostasia tornaria nula qualquer função sacerdotal e inválido qualquer sacramento administrado. Esta conceção teológica manifestou-se decisiva quando foi preciso encontrar um substituto para o bispo de Cartago, Mensúrio. Como seu substituto foi apontado e sagrado Ceciliano. Só que um dos bispos consagrantes foi Félix, um traditore. Reunidos em concílio, 70 bispos da Numídia declararam nula a sagração e contrapuseram a Ceciliano, primeiro, Mayorino e, logo depois, Donato. Neste cisma Ceciliano/Donato, iria intrometer-se Constantino, convocando para um julgamento em Roma os dois contendentes, acompanhados cada um de 10 bispos apoiantes, e convocando depois (ano 314), em Arles, um novo concílio (no qual participaram numerosos bispos), que não deu qualquer resultado. Durante o séc. iv, o cisma perturbou toda a Igreja de África e foi condenado por muitos concílios. Em 411, numa conferência solene ocorrida em Cartago, o donatismo recebeu um golpe mortal. Muitos donatistas retornaram ao seio da Igreja. Os que ainda restaram seriam dizimados com a invasão dos islâmicos.

O cisma com a Igreja do Oriente dividiu a meio a túnica inconsútil de Cristo. Os cristãos do Oriente ficaram ligados aos patriarcados, cada patriarca sendo “papa” no seu patriarcado (os latinos ficaram ligados a Roma). As causas desta cisão foram muitas, acumuladas ao longo de muitos séculos. Considerem-se os diferentes destinos do Império Romano do Ocidente (ruiu em 476) e do Oriente (durou cerca de mais um milénio, com sede em Constantinopla). Sublinhem-se as diferenças temperamentais entre gregos (especulativos, místicos) e latinos (juristas, pragmáticos), ritmos diferentes na hora de se produzir teologia. Pense-se na dualidade linguística, geradora de desconfiança e de diferentes evoluções teológicas: no Ocidente, a partir do séc. iv, o grego é substituído pelo latim, e, a partir do séc. v, os padres ocidentais já desconhecem o grego; no Oriente, a partir do séc. iv, ignora-se o latim e a literatura produzida nesta língua. Após a queda do Império Romano do Ocidente, a Santa Sé desliga-se progressivamente do imperador do Oriente, concorrendo ao caso o excessivo fiscalismo do hierarca, o domínio débil que exercia sobre as suas posses ocidentais, a pouca proteção que proporcionava contra os lombardos e a corrução dos seus altos administradores.

Chegados ao tempo de Justiniano II, em 692 é convocado o Quinisexto, esse concílio que pretendia completar os quinto e sexto concílios ecuménicos (respetivamente, na lista cronologicamente ordenada dos concílios, o II e III de Constantinopla). Muitos dos cânones aí aprovados contrastam com as disposições de Roma e questionam a sede de Pedro. Provocatório é também o comportamento de Leão III, o Isáurico, agora a inícios do séc. viii, quer tentando cobrar tributos à igreja de Roma, quer criando a primeira grande onda iconoclasta que a Igreja viveu ao longo da sua história. Intrometer-se-ão depois questões políticas: a Constantinopla não agradou a coroação de um “bárbaro”, i.e, de Carlos Magno, da mesma forma que não agradou o aparecimento do Império Romano-Germânico. Quer o domínio franco quer o germânico segregavam Roma e o papado à influência bizantina. Por outro lado, a perda da Itália meridional por parte de Bizâncio significou o desaparecimento de um ponto de contacto entre Oriente e Ocidente. Esses dois mundos (oriental e ocidental) tornavam-se cada vez mais estranhos.

Voltando ao plano religioso, casou imensa perturbação uma novidade que os latinos introduziram no Credo por iniciativa de Carlos Magno. Querendo ver mais bem explicitada a proveniência do Espírito Santo, resolveu o monarca alterar o símbolo niceno-constantinopolitano, introduzindo a palavra filioque (o Espírito Santo procede do Pai e do Filho). No contraponto, os latinos ficaram pesarosos por a Bulgária, a quem o Papa Nicolau I enviara missionários e instruíra com essa bela síntese de teologia que é a Responsa ad Consulta Bulgarorum, se ter ligado não a Roma, mas a Constantinopla. Seguiu-se a intrincada contenda entre os patriarcas Inácio e Fócio. Pesaram excomunhões sobre um e outro. Alternaram-se na cátedra de Constantinopla. Para além do cisma entre eles, os ataques a Roma: num sínodo ocorrido em Constantinopla em 867, convocado por Fócio, o Papa Nicolau I foi declarado deposto, qual “herético e devastador da vinha do Senhor”.

Mais adiante, começaria turbulento o séc. xi: o Papa Sérgio IV, uma vez eleito, envia a Constantinopla, ao Patriarca Sérgio II, a sua profissão de fé (referindo o filioque, acima explicado). O Patriarca rejeita a profissão de fé e risca dos dípticos o nome do Papa. Até que, em meados desse mesmo século, toma posse da cátedra de Constantinopla o Patriarca Cerulário (1043-1058). Ambicioso e astuto, já em 1050 tinha reprovado os latinos, chamando-lhes “heréticos”. Por sua ordem, agora em 1053, foram fechadas as igrejas dos latinos em Constantinopla e os mosteiros confiscados. A principal acusação que movia aos latinos era a de que na comunhão usavam pão ázimo. Por ordem do Patriarca, um seu tesoureiro chegou mesmo a declarar não consagrada a santa hóstia dos “azimitas”, calcando-a com os pés. E um amigo de Cerulário, o arcebispo Leão de Ochrida (na Bulgária), atacou os ocidentais com diversos escritos: acusava os latinos de serem meio judeus e meio pagãos, de observarem o preceito dos ázimos e do jejum sabático na Quaresma e de omitirem o Aleluia também na Quaresma.

O Ocidente não podia permanecer indiferente a todas estas acusações. Por ordem do Papa Leão IX (1049-1054), assumiu a tarefa de rebater as acusações o secretário papal, cardeal Humberto da Silva Cândida. Era um homem inteligente e culto, conhecedor do grego, teólogo entusiasta da reforma. Mas era também muito impulsivo. No seu Dialogus (outono de 1053), respondeu com genialidade e perspicácia às acusações dos gregos. Deixou, porém, escapar nas suas respostas uma grande dose de agressividade: combateu como “adultério” e “heresia nicolaíta” o matrimónio dos eclesiásticos, acusou os gregos de “macedonianismo”, por terem tirado o filioque do Credo (acusação injusta, como vimos), ameaçou várias vezes os gregos com a excomunhão, colocou em dúvida a legitimidade de Cerulário como patriarca, etc.

Diante de semelhantes contrastes, o entendimento Oriente-Ocidente era impossível. Foi isso mesmo que se verificou quando, em inícios de 1054, a pedido do Imperador Constantino IX (1042-1054), uma delegação pontifícia se deslocou a Constantinopla. Os componentes dessa delegação eram Humberto, o chanceler papal Frederico da Lorena (mais tarde Papa Estevão IX) e o arcebispo Pedro de Amalfi. Cerulário não foi nada “meigo” na receção à delegação papal. Mostrou-se despótico, inacessível. Levantou o povo contra os latinos e proibiu aos legados do Papa que celebrassem a missa. Confrontados com esta situação e presumindo o apoio papal, os legados recorreram a uma solução extrema: Humberto redige uma bula de excomunhão contra o Patriarca e seus sequazes e, a 16 de julho de 1054, coloca-a sobre o altar-mor da igreja de S.ta Sofia. O tom em que a bula estava redigida era extremamente áspero. Feito isto, os legados partiram. Cerulário não se submete, nem é deposto. Antes convoca um sínodo, uma semana depois, no qual excomunga os latinos, começando pelos legados e acabando em quem os enviara. Estava estabelecida a rutura. O exemplo de Constantinopla depressa seria decisivo para os outros patriarcas do Oriente. E tudo viria a piorar por causa das Cruzadas, particularmente a partir da Quarta Cruzada, em 1204. Rumamos a Oriente como amigos dos ortodoxos. Mas o comportamento dos cruzados aumentou-lhes as tormentas.

O cisma dentro da Igreja do Ocidente começa a desenhar-se à morte do Papa Gregório XI (1370-1378), o qual pôs fim ao segundo “Cativeiro da Babilónia”, ou seja, ao período de Avinhão, que colocou os papas fora de Roma durante cerca de 70 anos. Reunido o conclave para lhe escolher sucessor, a maioria dos cardeais presentes na votação era francesa, mas os italianos queriam um papa italiano (para evitar o perigo de retorno do papado a França, mais concretamente a Avinhão). Acaba por ser eleito um italiano: Urbano VI. Os cardeais franceses, depois de terem abandonado Roma, declaram inválida a eleição de Urbano VI, alegando falta de liberdade dos eleitores (os cardeais italianos teriam exercido pressão excessiva). Reúnem-se agora só os cardeais franceses e elegem o “antipapa” Clemente VII. Papa e “antipapa” excomungam-se mutuamente. E o cisma prolongar-se-á por 40 anos. A cristandade irá dividir-se: uns reconhecem o papa de Roma, outros o de Avinhão. Paira a incerteza sobre quem é o verdadeiro papa (houvera ou não liberdade, ao menos suficiente, naquela eleição de Urbano VI? Parece estranho que, sendo a maioria dos cardeais francesa, se tenha escolhido um italiano…). As duas partes mostravam-se irredutíveis. Para resolver o conflito, convoca-se um concílio, o de Pisa. Agravou o problema: em vez de dois papas, temos agora três: Gregório XII (que sucedera a Urbano VI), Bento XIII (que sucedera a Clemente VII) e Alexandre V, eleito pelo Concílio após excomunhão dos dois anteriores. O sucessor de Alexandre V, de seu nome João XXIII, a instâncias de Segismundo, monarca alemão, promulga, em dezembro de 1413, a bula de convocação do Concílio de Constança. Deste concílio resultará eleito (retornando-se à unidade na sede de Pedro) o Papa Martinho V, decorria o ano da graça de 1417.

A Reforma Protestante constitui um outro momento de rutura dentro da Igreja, agora no seio da latinidade que se havia mantido fiel a Roma. Nascido em 1483, Martinho Lutero virá a integrar a comunidade dos Eremitas de Santo Agostinho, a partir de 1505. Monge devoto, estudioso, irá tornar-se fecundo na escrita, a um dado passo questionando a doutrina ortodoxa, a propósito da verdadeira exegese, da concupiscência, do pecado original, dos sacramentos e sua eficácia, da economia da salvação (só os eleitos é que se salvam), da justiça divina, da graça e do mérito humano, das indulgências e sua valia, do tesouro da Igreja que são os méritos de Cristo e dos santos, do magistério da Igreja… Não resultaram os encontros ou colóquios com os cardeais Caetano e Eck. Lutero não revê os seus posicionamentos doutrinais, que o colocam em colisão com Roma. As condenações não se fizeram esperar: na bula Exsurge Domine, de 15 de junho de 1520, as afirmações doutrinais de Lutero surgem condensadas em 41 proposições, globalmente condenadas como heréticas, falsas, escandalosas. Condenavam-se ao fogo os seus livros e pedia-se que o seu autor se submetesse dentro de 60 dias, sob pena de excomunhão. A bula caiu como fogo na palha. Lutero reage violentamente, quer na linguagem, quer nos gestos: coloca-se sobre um pedestal e excomunga o papa e seus sequazes. Sabendo que os seus livros tinham sido queimados em Colónia, paga com a mesma moeda: em Wittenberg são queimados os livros do Corpus Juris Canonici (Decreto e Decretales), livros de teologia, a Summa Angelica e a bula papal. É a rutura definitiva. O papa é o Anticristo, a sede romana está possuída por Satanás. Volta a reagir a sede romana e, em janeiro de 1521, a bula Decet romanum Pontificem excomunga Lutero e seus sequazes.

A razão principal, não única, da separação de Inglaterra de Roma é a vontade decidida de Henrique VIII de se divorciar da própria mulher, Catarina de Aragão, filha de Fernando, o Católico, rei de Espanha, e tia de Carlos V (que dominava na península italiana). O Rei tinha chegado a esta decisão por dois motivos: por desejar ter um herdeiro masculino, dado que então não se pensava numa sucessão feminina, e porque se apaixonara por Ana Boleyn. Henrique era sinceramente católico. Leão X tinha-lhe até atribuído o título de defensor fidei quando ele escreveu a Assertio Septem Sacramentorum, contra o De Captivitate Babylonica de Lutero. Querendo proceder como bom católico, não se contenta com o divórcio, antes quer obter uma declaração de nulidade (após 18 anos de convivência e seis filhos – mortos, à exceção de Maria, após o parto ou em idade muito tenra). Para obter essa declaração, tenta todas as vias e argumentos, desde a pressão sem escrúpulos à corrupção de teólogos e canonistas, passando pela ameaça de introdução da reforma protestante. O processo de nulidade não correu como o monarca pretendia. Acabou por contrair matrimónio sem a conclusão do caso. O Papa Clemente VII excomungou-o. Henrique faz então aprovar a Lei da Sucessão (os filhos de Ana Boleyn são declarados herdeiros legítimos do reino) e o Ato de Supremacia (o rei é o chefe supremo da Igreja Inglesa). Quando morreu, Henrique deixou a Inglaterra entre o protestantismo e o cristianismo, mas separada de Roma. Sucedeu-lhe o filho Eduardo VI, nascido de Joana Seymour (a terceira mulher do monarca), educado no protestantismo. A Inglaterra pendeu para o lado protestante. Nesse lado se fixaria depois do interregno de Maria, a Católica, quando ao trono subiu Isabel I. Com ela deu-se a instauração definitiva da Reforma Protestante em Inglaterra.

Na atualidade, a maior cisão na Igreja foi protagonizada por Marcel Lefebvre. Foi ordenado presbítero a 21 de setembro de 1929. Ingressou na Congregação do Espírito Santo. Tornou-se missionário em África (Gabão – 1932; Dacar, no Senegal – 1947). Foi sagrado bispo, nomeado vigário apostólico, depois delegado apostólico para toda a África francófona e arcebispo de Dacar (até 1962). Regressado a França, foi nomeado bispo de Tulle, sendo pouco depois eleito superior-geral da Congregação do Espírito Santo, cargo a que renunciaria para fundar, em 1970, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Aí se formarão sacerdotes no espírito pré-conciliar, uma vez que, para Lefebvre, o concílio implicou modernismo, liberalismo, enfraquecimento da autoridade do papa em prol da colegialidade episcopal, demasiadas abertura ecuménica e liberdade religiosa. Com autorização do bispo de Friburgo, na Suíça, criou o seminário de Écône e a Fraternidade Sacerdotal de S. Pio X, ereta canonicamente a 1 de novembro de 1970, pelo bispo da Diocese de Lausanne-Genebra-Friburgo. Em 1976, contra a vontade do Papa Paulo VI, ocorrem as primeiras ordenações sacerdotais. Retalia o Vaticano: Mons. Marcel Lefebvre é suspenso a divinis, assim como os 26 sacerdotes por ele ordenados. Seguem-se tentativas de diálogo. Mas a idade avançada e a debilitada saúde de Lefebvre aceleram a ordenação de quatro novos bispos, em 1988, de novo à revelia do Vaticano.  O Papa S. João Paulo II excomunga Lefebvre e os quatro novos bispos, excomunhão que será revogada pelo Papa Bento XVI, a 24 de janeiro de 2009, numa tentativa de calafetar fissuras. Também o Papa Francisco, em 2015, devolveu aos sacerdotes da Fraternidade as faculdades sacerdotais. “Caminhar… caminhar… e logo já veremos” – é quanto dita o coração evangélico do pastor misericordioso, réplica do poverello de Assis. Mons. Lefebvre morreu a 25 de março de 1991, em Martigny, aos 85 anos. Mas continua vivo em quantos preferem o Missal de S. Pio V, olhares desconfiados sobre as novidades aportadas pelo II Concílio do Vaticano.

 

Bibliog.: DANIEL-ROPS, A Igreja da Renascença e da Reforma, vol. 1, São Paulo, Quadrante, 1996; DELL’ORTO, Umberto e XERES, Saverio (dirs.), Manuale di Storia della Chiesa, 2 vols., Brescia, Morcelliana, 2017-2018; FRANGIOTTI, Roque, História das Heresias (Séculos I-VII). Conflitos Ideológicos dentro do Cristianismo, São Paulo, Paulus, 1995; LEFEBVRE, Marcel, Carta Aberta aos Católicos Perplexos, Kansas City, Mo.: Angelus Press, 1987; Id., Eu Acuso o Concílio!, Kansas City, Mo.: Angelus Press, 1998; Id., Um Bispo Fala: 1963-1974, Kansas City, Mo.: Angelus Press, 1998; Id., Liberdade Religiosa Questionada. A Dúbia: Minhas Dúvidas sobre a Declaração de Liberdade Religiosa de Vaticano II, Kansas City, Mo.: Angelus Press, 2001; Id., A Missa de Sempre: O Tesouro Escondido, Kansas City, Mo.: Angelus Press, 2007; Id., Do Liberalismo à Apostasia. A Tragédia Conciliar, Rio de Janeiro, Permanência, 2013; LORTZ, Joseph, Historia de la Iglesia, vol. 2: En la Perspectiva de la Historia del Pensamiento, Madrid, Cristiandad, 1982; MARTINA, Giacomo, Storia della Chiesa. Da Lutero ai Nostri Giorni, vol. 1: L’Età della Riforma, Brescia, Morcelliana, 1993; PERI, Vittorio, La “Grande Chiesa” Bizantina. L’Ambito Ecclesiale dell’Ortodossia, Brescia, Editrice Queriniana, 1981; ZERNOV, Nicholas, Il Cristianesimo Orientale, Milano, Arnoldo Mondatori Editore, 1990.

 

José Paulo Leite de Abreu

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