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David de Augsburg

Conhecido também por David de Augusta, um dos primeiros membros da Ordem Franciscana alemã e autor de tratados ascéticos e místicos. David terá nascido no ano de 1200, segundo outras fontes, entre 1210 e 1220. Não sabemos ao certo se nasceu em Augsburg, contudo, era usual entre os primeiros franciscanos indicarem no nome a sua cidade natal. David terá morrido nessa mesma cidade entre 15 a 19 de novembro de 1272. Foi à Cäsarius von Speyer, o fundador da primeira Ordem de frades franciscanos na Alemanha, que David pediu a sua admissão. Tornou-se rapidamente mestre de noviços, entre outros, em Regensburg. Lá conheceu Bertold of Regensburg, um dos mais afamados pregadores da idade média, com quem estabelecera uma amizade profunda, acompanhando Berthold pelo sul da Alemanha em várias viagens missionárias. Entre 1247 e 1250, David terá voltado a Augsburg, onde permaneceu até ao final da sua vida. Lá terá servido o Tribunal da Inquisição, tendo-se envolvido na perseguição dos valdenses, cujas ideias (como a rejeição de compreenderem o matrimónio, o batismo infantil e a extrema-unção como sacramentos) considerava heréticas. Escreveu vários tratados em latim (como Formula Novitiorum), mas também produziu textos vernaculares (como Die sieben Staffeln des Gebetes/As sete etapas da oração). A sua vasta obra engloba instruções para noviços e monges, elucidações sobre as regras da Ordem de São Francisco, tratados sobre a virtude, a vida de Cristo e contemplações sobre orações. Algumas das suas obras foram no passado erradamente atribuídas a autoria de S. Bernardo de Claraval e S. Boaventura. Contudo, até hoje mantêm-se dúvidas no que respeita à autoria de alguns tratados entretanto acreditados a David de Augsburg. Entre os apreciadores das obras do frei franciscano está o famoso filólogo alemão Jacob Grimm, que considerou a prosa de David como uma das mais belas do seu tempo. Existem mais de 400 manuscritos e inúmeras traduções do opus magnum de David de Augsburg, De exterioris et interioris hominis compositione, o que indica que o texto fora extremamente popular e influente. Numa perspetiva mística, David esclarece nas suas escrituras que não só os santos podem ter visões ou revelações mas também o fiel comum. É, pois, possível obtê-las do Espírito Santo, em resposta às preces e à devoção do crente. Contudo, o fiel deverá evitar entrar em êxtase, que David considera ser o primeiro passo para a loucura. Além do mais, alerta que as visões e as revelações, sejam elas obtidas acordado ou a dormir, podem ser fraudulentas. O fiel pode ser levado a acreditar que a sua alma está a unir-se misticamente com Deus, quando na verdade o fiel poderá estar a ser enganado pelos seus próprios desejos, pela sua imaginação ou ainda por espíritos malignos. Assim sendo, a maioria das visões e revelações (sobretudo as que dizem respeito ao futuro) são para David lograções e não se tratam de palavras provenientes do divino, mas resultam dos próprios pensamentos, das aspirações e ambições do crente ou são mesmo mensagens de espíritos menos puros. Embora David reconheça que algumas visões e revelações possam ser uma consolação, ele acautela que a diferenciação entre espíritos bons e malignos é muito difícil. Assim, algumas visões, como a de Cristo ou de Nossa Senhora tocarem, abraçarem e beijarem o fiel para lhe dar conforto, são consideradas por David indecentes e blasfemas. Por isso, o frei defende que nada deve ser aceite que contrarie os ensinamentos dos doutores da Teologia e da Igreja e recomenda que o crente deve sempre voltar à oração e à leitura da Sagrada Escritura, para não se deixar corromper. Na opinião de David, e independentemente das visões que o fiel possa ter ou das revelações que lhe possam ser feitas, a missão do ser humano será sempre evitar o mal, vencer o pecado, fazer o bem e levar uma vida humilde e virtuosa, imitando Cristo, amando os seus semelhantes e a Deus. Devido a estas suas opiniões e à fama que David de Augsburg conquistara em vida como ser benevolente e caridoso, chegou a ser posteriormente venerado como santo, embora nunca tenha sido canonizado.

 

Bibliog.: ANDERSON, Wendy Love, The Discernment of Spirits, Assessing Visions and Visionaries in the Late Middle Ages, Tübingen, Mohr Siebeck, 2011; DINZELBACHER, Peter, Deutsche und Niederländische Mystik des Mittelalters, Ein Studienbuch, Berlin, De Gruyter, 2012; PFEIFFER, Franz, Deutsche Mystiker des 14. Jahrhunderts, Erster Band, Hermann von Fritslar, Nicolaus von Strassburg, David von Augsburg, Leipzig, G. J. Göschen’sche Verlagshandlung, 1845; PREGER, Wilhelm, Geschichte der deutschen Mystik im Mittelalter nach den Quellen untersucht und dargestellt, Leipzig, Dörffling und Franke, 1874; STÖCKERL, Dagobert P., Bruder David von Augsburg, Ein Deutscher Mystiker aus dem Franziskanerorden, München, Verlag J. J. Lentnerschen Buchhandlung, 1914.

 

Miguel Araújo Oliveira

Autor

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