Humanista e teólogo português, Jerónimo Osório (1506-1580) era filho do jurista João Osório da Fonseca, ouvidor-geral do reino na Índia, e de Francisca Gil Gouveia. A partir de c. 1528, frequentou a Universidade de Salamanca, onde estudou direito, latim e grego, e a Universidade de Paris, onde já estava matriculado em 1534, aí se dedicando à dialética de Aristóteles e à filosofia natural. Mais tarde, chegou a Bolonha para estudar patrística grega e latina e hebraico.
Foi admirador de Dionísio Areopagita, Basílio, Gregório Nazianzeno, João Crisóstomo, Agostinho e Jerónimo. De regresso a Lisboa, integrou a Casa do infante D. Luís, irmão do Rei D. João III, tendo posteriormente voltado a Bolonha, onde redigiu a sua primeira obra, publicada em Lisboa, em 1542, De Nobilitate Ciuili et Christiana, texto em cinco livros dedicado ao infante D. Luís. A obra contou com 27 edições até ao final do séc. xviii, em várias outras cidades, como Florença, Alcalá, Basileia, Colónia, Bilbau, Londres, Antuérpia, Paris, Lião, Ruão e Coimbra.
Ao longo da vida, correspondeu-se com figuras leigas e eclesiásticas, nacionais e estrangeiras, como, e.g., o infante D. Luís, Fr. Jerónimo da Azambuja, os papas Pio V e Gregório XIII, o cardeal e arcebispo de Cantuária Reginaldo Polo, Ricardo Shelley, grão-prior da Ordem do Hospital em Inglaterra, e Estanislau Hósio, cardeal e bispo de Varmia.
Lecionou Sagradas Escrituras na Universidade de Coimbra e foi responsável pela educação de D. António, filho bastardo do infante D. Luís, que o nomeou prior das igrejas de S.ta Maria do Castelo de Tavares e de S. Salvador de Travanca, no bispado de Viseu. Posteriormente, o cardeal infante D. Henrique designou-lhe o arcediagado do bago da Catedral de Évora, dele tomando posse em 1560. Nessa altura, redigiu uma carta a Isabel I, rainha de Inglaterra, exortando-a a abandonar o anglicanismo e a regressar ao seio da Igreja Católica.
Em 1564, foi feito bispo de Silves, e, quatro anos mais tarde, foi escolhido pelo cardeal infante D. Henrique para ser conselheiro de D. Sebastião, cargo que declinou. Entretanto, ausentou-se cerca de um ano da sua diocese, tendo-se dirigido a Roma, em 1576, onde se encontrou com o Papa Gregório XIII. Em carta datada de Parma, justificou os seus propósitos, lembrando que o fazia a bem do zelo da Igreja, apontando que as obras da sua autoria só poderiam ter sido editadas em Roma e esclarecendo ainda que existiam assuntos relativos à diocese de que era titular que precisava resolver com a generosidade papal (OSÓRIO, 2015, 171). No fim desse ano ou no início do seguinte, noutra carta ao sumo pontífice, deu a conhecer a sua posição sobre a sabedoria, alegando que consistia “na viva e acesa fé com que, mediante o entendimento e até onde nos é concedido, compreendemos Deus. É ela, com efeito, quem nos adquire a dádiva da justiça; ela quem ilumina o entendimento com a luz do esplendor divino; ela, enfim, quem singularmente enriquece o nosso espírito com os bens supremos e eternos” (OSÓRIO, 2015, 183).
De novo no reino, em 1577 ou 1578 (MAGALHÃES, 2020, 348), deu-se a mudança do prelado e do cabido de Silves para Faro, estabelecendo-se a sé na Igreja de S.ta Maria. Enquanto antístite, D. Jerónimo Osório, devoto da Virgem Maria, próximo de Inácio de Loiola e de Pedro Fabro, que conheceu em Paris e a quem admirou e recomendou (PINHO, 2000, 297-301), defendeu uma ação vigilante e catequética, com recurso à pregação, visando os protestantes e todos os outros que não respeitassem a ortodoxia. Se bem que o território algarvio estivesse relativamente limpo de cristãos-novos, após a ação do bispo anterior, D. João de Melo, não deixou de cooperar com o Santo Ofício da Inquisição em vários momentos (PAIVA, 2020).
Em carta a Hósio, datada de 27 de julho de 1568, referiu-se à sua diocese, esclarecendo que o nome de Lutero era ali usado frequentemente como “fórmula para a execração de um crime: com efeito, quando pretendem designar um homem muitíssimo celerado, chamam‑lhe Lutero”, não obstante se desconhecer em que consistia a “natureza da peste luterana” (OSÓRIO, 2015, 121). Ou seja, os problemas mais significativos eram os comportamentos desviantes dos cristãos-velhos, classificados como adúlteros e facinorosos.
D. Jerónimo Osório foi apologeta, exegeta bíblico e polemista, orientando as suas obras para a formação moral dos seus leitores. Foi reconhecido na Europa do seu tempo, tendo as suas obras sido publicadas em 39 cidades de nove países.
Obras de Jerónimo Osório: De Nobilitate Ciuili et Christiana (1542).
Bibliog.: ALMEIDA, Fortunato, História da Igreja em Portugal, ed. de Damião Peres, vol. 2, Porto/Lisboa, Livraria Civilização Editora, 1968; MAGALHÃES, Joaquim Romero, “Breves notas sobre D. Jerónimo Osório, bispo do Algarve (1564-1580)”, in PIMENTEL, Cristina et al. (dirs.), O Humanismo Português e Europeu: no 5.º Centenário do Cícero Lusitanus: D. Jerónimo Osório (1515-1580), Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, pp. 345-353; OSÓRIO, Jerónimo, Tratados da Nobreza Civil e Cristã, trad., introd. e anotações de A. Guimarães Pinto, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1996; Id., Tratado da Justiça, trad., introd. e anotações de A. Guimarães Pinto, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1999; Id., Opera Omnia, t. 2: Epistolografia, estudo do texto latino por Sebastião Tavares de Pinho e António Guimarães Pinto; introd., trad., notas e comentários de A. Guimarães Pinto, Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015; PAIVA, José Pedro, “D. Jerónimo Osório, bispo do Algarve, e a Inquisição”, in PIMENTEL, Cristina et al. (dirs.), O Humanismo Português e Europeu: no 5.º Centenário do Cícero Lusitanus: D. Jerónimo Osório (1515-1580), Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, pp. 525-532; PINHO, Sebastião Tavares de, “Francisco Xavier em Lisboa a caminho do Oriente”, Humanitas, n.º 52, 2000, pp. 297-309; Id., “D. Jerónimo Osório no contexto do humanismo europeu”, in PIMENTEL, Cristina et al. (dirs.), O Humanismo Português e Europeu: no 5.º Centenário do Cícero Lusitanus: D. Jerónimo Osório (1515-1580), Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020, pp. 319-328.
Isabel Drumond Braga