Teresa de Portugal (1176-1250) foi a primogénita do Rei D. Sancho I e de sua esposa, a Rainha D. Dulce, garantindo a continuidade da família à frente dos destinos do reino de Portugal, ainda sem o reconhecimento do poder papal.
Sem referências acerca da sua criação e da sua infância, sabe-se que o seu casamento com Afonso IX de Leão, seu primo direito (filho de Urraca Afonso, sua tia paterna, e do Rei Fernando II de Leão), se realizou em Guimarães, a 15 de fevereiro de 1191. A união mostrava-se auspiciosa, abençoada com o nascimento de três filhos, os infantes Sancha, Fernando e Dulce. Mas a política peninsular, marcada pela premência de uma aliança entre Leão e Castela, perante as ameaças muçulmanas, e a lembrança de antigo acordo entre esses dois reinos, relativo a Portugal, levariam à anulação do régio enlace, por autoridade da Santa Sé (1195). A infanta regressava a Portugal, acompanhada, pelo menos, de sua filha mais nova, a pequenina infanta Dulce. Da efemeridade da sua passagem por Leão terá ficado a fundação de um mosteiro, o de Villabuena del Bierzo, casa cisterciense feminina.
Regressada a Portugal, D. Teresa não cortou os laços que a ligavam a Leão, tanto por afetos pessoais como por interesses próprios (rendas e direitos) e de seus filhos. Mas eles iam-se delindo, pela nova união de seu marido, com Berengária de Castela, pelo Tratado de Cabreros, em 1206, que, entre outros, determinava a sucessão no reino de Leão (a favor do filho de Berengária de Castela) e pela morte de seu filho, o infante Fernando, em 1214. Em Portugal, e falecido seu pai, em 1211, envolveu-se, com suas irmãs Sancha, Branca e Berengária, em luta com seu irmão, o Rei Afonso II, pela herança paterna, que lhe garantia importante património jurisdicional e fundiário, mormente a vila de Montemor-o-Velho.
Mas o que verdadeiramente lhe deu o sinal de posteridade foi a sua ligação ao movimento cisterciense, vigoroso na Europa. A ela se deve a introdução do ramo feminino da ordem em Lorvão, em 1211, após longa e porfiada contenda com os monges aí moradores. A seu exemplo, suas irmãs Mafalda e Sancha ligar-se-iam ao mesmo movimento, em Arouca e Coimbra (Celas), respetivamente, devendo-lhe este último uma preciosa atuação, pela morte precoce da sua fundadora. O seu exemplo e a sua memória terão atraído muitas mulheres da nobreza de Portugal ao Mosteiro de Lorvão. Uma passagem da bula de Gregório IX, Ea Que Divinitus, de 15 de dezembro de 1231, poderá induzir a que terá tomado o hábito da ordem entre 1229 e 1230, no Mosteiro de Villabuena del Bierzo, o que não cremos, juntamente com outros autores.
Tocada por um tipo de espiritualidade despojado, de devoção, humildade, serviço, penitência, solidão, trabalho (manual), D. Teresa viria também a interessar-se pelo fenómeno franciscano, de que a Crónica dos Frades Menores se faz eco, em referência ao milagre de Santo António sobre uma de suas filhas, e a arqueta das relíquias dos Mártires de Marrocos (Coimbra, Museu Nacional de Machado de Castro), originária do Mosteiro de Lorvão, por sua iniciativa, é belo testemunho. Protegeu ainda os cistercienses do recém-fundado Mosteiro de São Paulo de Almaziva (1221) e os dominicanos que se fixaram em Coimbra (1227).
Foi sepultada no seu mosteiro, junto da irmã Sancha, cujo corpo fizera transportar do Mosteiro de Celas de Coimbra. O seu epitáfio, embora tardio, louva a sua vida: rainha de Leão, introdutora de monjas cistercienses em Lorvão, senhora “prudente, generosa, modesta, cheia de muitas virtudes e com maravilhosos prodígios de santidade”.
A sua memória ficou viva na comunidade monástica e local. No séc. xvi, começou a ganhar forma um culto à sua memória, a que se juntou a de sua irmã Sancha. Em 1705, ocorreria a sua beatificação, com missa própria e festa litúrgica a 17 de Junho (entretanto alterada para 20 de junho, em festa única com suas irmãs (Santas Rainhas)). Em 1715, ocorreu a trasladação dos seus corpos das antigas e singelas sepulturas para as magníficas arcas de prata onde ainda hoje se encontram, no altar-mor da igreja do mosteiro.
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Maria Alegria Marques