Filho de Dionísio Verney, lojista na rua Nova do Almada, em Lisboa, e de Maria da Conceição Arnaut, ambos de ascendência francesa, Luís António Verney (Lisboa, 1713- Roma, 1792) é considerado o mais relevante difusor das Luzes na cultura portuguesa (MARTINS, 1981, 6, 271).
Como forma de ascensão social, optou por uma carreira eclesiástica, tal como alguns dos seus irmãos (ANDRADE, 1966, 1-8). Entre 1720 e 1727, estudou no Colégio jesuíta de Santo Antão. Nos dois anos seguintes, frequentou o curso de Filosofia da Congregação do Oratório. Em 1729, matriculou-se na Universidade de Évora, onde obteve o grau de mestre em Artes, em 1736, ano em que partiu para Roma, de onde não mais regressaria. Doutorou-se em Teologia (presumivelmente em 1747) e em Direito (em data desconhecida), na Universidade de La Sapienza (Roma). Em 1737, foi nomeado postulador da beatificação do P.e Bartolomeu do Quental, que tinha fundado em Portugal a Congregação do Oratório. Em 1741, sendo clérigo de ordens menores, foi designado arcediago da Sé de Évora, onde nunca esteve. Foi ordenado em 1749 e, entre esse ano e 1759, procurador em Roma do bispo de Faro, D. Fr. Inácio de Santa Teresa, que manteve o título de arcebispo, por o ter sido de Goa. No ano seguinte, foi armado cavaleiro de Cristo. D. José I nomeou-o secretário da legação portuguesa em Roma, subordinado a Francisco de Almada e Mendonça, em 1768. Porém, em 1771, foi demitido, em resultado de desentendimentos com o ministro plenipotenciário, e exilado em San Miniato, perto de Pisa, onde permaneceu até 1781.
A reabilitação de Verney só aconteceu durante o reinado de D. Maria I. Então, foi feito sócio correspondente, em Roma, da Academia Real das Ciências de Lisboa, em 1780. No ano seguinte, recebeu autorização para renunciar ao arcediago de Évora a favor do seu sobrinho, e, em 1790, foi feito deputado honorário da Mesa da Consciência e Ordens, com uma tença anual de 480.000 réis. Depois de uma formação marcadamente jesuítica, apesar da passagem pelo curso dos Oratorianos, Verney manteve contactos com diversas figuras do Iluminismo italiano, designadamente Ludovico Antonio Muratori e Antonio Genovesi.
Não obstante ter publicado diversas obras em vida – De Ortographia Latina (1747), Oração sobre a Aliança da Filosofia Moderna com a Teologia (1747), Carta ao Marquês de Valença (1748), Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751), De Re Logica (1751), De Re Metaphysica (1753), De Re Physica (1758), Gramática Latina Tratada por Um Método Novo, Claro e Fácil (1758) – e ter deixado outras inéditas – tais foram os casos de textos sobre gramática grega e hebraica, história, poética, retórica e teologia –, a que mais interesse tem despertado é o Verdadeiro Método de Estudar. A obra foi editada em Nápoles, em dois volumes e sob anonimato, por Gennaro e Vincenzo Muzio, no ano de 1746, com todas as licenças necessárias. Verney remeteu diversos exemplares para Portugal, os quais foram apreendidos por ordem do Santo Ofício. Perante esta situação, reimprimiu a obra, provavelmente em Nápoles, mas falseou os dados da edição, optando por indicar o editor António Balle, de Valença. Estes exemplares circularam em Portugal e esgotaram. Finalmente, em 1751, foi feita uma outra edição clandestina, a segunda, em Lisboa, numa oficina instalada no Convento de Santo Elói, a instâncias do padre loio doutor Manuel de Santa Teresa Teixeira, qualificador do Santo Ofício. Nesta edição manteve-se a indicação do editor Balle de Valencia (MARTINS, 2012, 356-361). O conhecimento da obra em Portugal deu origem a uma virulenta polémica, sempre sob pseudónimo de todos os envolvidos, Barbadinho, o escolhido por Verney.
Composto por 16 cartas trocadas entre um frade capuchinho estrangeiro radicado em Portugal e um teólogo da Universidade de Coimbra, é um texto dedicado à reforma do ensino e da sociedade portuguesa em geral, temas a que Verney voltará nas chamadas Cartas Italianas (VERNEY, 2008). Recorrendo à forma epistolar, comum na época, o autor desenvolveu as suas ideias a partir da oposição entre tradição e modernidade, entendidas como inconciliáveis. Às críticas – inclusivamente a autores de relevo internacional, como o P.e António Vieira, o poeta Luís de Camões ou o lexicógrafo Rafael Bluteau – juntaram-se propostas de reformas curriculares e pedagógicas. Nesse sentido, as alterações sugeridas tiveram em consideração os métodos, os conteúdos e as relações pedagógicas (CARDOSO, 2018, 6, 11). Em termos de ensino, Verney considerou que as matérias deveriam ser lecionadas a partir do seu grau de complexidade, começando pelo mais simples, ao mesmo tempo que valorizou o papel da língua materna na formação infantil, a aprendizagem de três línguas vivas, a distribuição de prémios aos que tinham sucesso (VERNEY, 2018, 150, 618) e o dever dos mestres no sentido de terem mais empenho em serem amados e respeitados do que temidos (Id., Ibid., 618).
Sobre a educação feminina, começou por defender que o entendimento de homens e mulheres era semelhante – “se das mulheres se aplicassem aos estudos tantas quantos entre os homens, então veríamos quem reinava” (Id., Ibid., 644) –, para prosseguir defendendo a sua necessidade, em especial para serem boas educadoras e boas gestoras dos lares – “principalmente as mães de família são as nossas mestras nos primeiros anos da nossa vida: elas nos ensinam a língua, elas nos dão as primeiras ideias das coisas […] elas governam a casa, e a direção do económico fica na esfera da sua jurisdição” (Id., Ibid., 644-645).
Verney esforçou-se por denunciar os programas de ensino desatualizados e as conceções literárias, jurídicas e filosóficas anacrónicas, tendo clara consciência do desfasamento cultural entre Portugal e outros reinos da Europa (MARTINS, 1981, 277). Em termos de ordenação social, se bem que também não tenha sido original, não deixou de enfatizar que a origem da nobreza é a virtude e que “os homens nasceram todos livres e todos são igualmente nobres” (Id., Ibid., 426).
Obras de Luís António Verney: Verdadeiro Método de Estudar (1746); De Ortographia Latina (1747); Oração sobre a Aliança da Filosofia Moderna com a Teologia (1747); Carta ao Marquês de Valença (1748); Apparatus ad Philosophiam et Theologiam (1751); De Re Logica (1751); De Re Metaphysica (1753); De Re Physica (1758); Gramática Latina Tratada por Um Método Novo, Claro e Fácil (1758); Cartas Italianas (2008).
Bibliog.: ANDRADE, António Alberto Banha de, Vernei e a Cultura do Seu Tempo, Coimbra, Universidade de Coimbra, 1966; CARDOSO, Adelino, “Introdução”, in VERNEY, Luís António, Verdadeiro Método de Estudar – Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, vol. 27: Primeiro Tratado Pedagógico, coord. Adelino Cardoso; dir. José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, Lisboa, Círculo de Leitores, 2018, pp. 7-31; MARTINS, António Coimbra, “Vernei, Luís António (1713-1792)”, in SERRÃO, Joel (dir.), Dicionário de História de Portugal, vol. 6, Porto, Livraria Figueirinhas, 1981, pp. 271-279; MARTINS, Maria Teresa Esteves Payan, Livros Clandestinos e Contrafações em Portugal no Século XVIII, Lisboa, Edições Colibri, 2012; RAMOS, Luís A. De Oliveira, “Melo Freire, Verney e a Inquisição”, in Da Ilustração ao Liberalismo: Temas Históricos, Porto, Lello e Irmãos Editores, 1979, pp. 129-146; VAZ, Francisco António Lourenço, Instrução e Economia. As Ideias Económicas no Discurso da Ilustração Portuguesa: 1746-1820, Lisboa, Edições Colibri, 2002; Id., “As ideias económicas de Luís António Verney”, in TEIXEIRA, António Braz et al. (coord.), Luís António Verney e a Cultura Luso-Brasileira do Seu Tempo, Lisboa, Movimento Internacional Lusófono, 2016, pp. 87-97; VERNEY, Luís António, Cartas Italianas, pref., trad. e notas de Ana Lúcia Curado e Manuel Curado, Lisboa, Edições Sílabo, 2008; Id., Verdadeiro Método de Estudar – Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, vol. 27: Primeiro Tratado Pedagógico, coord. Adelino Cardoso; dir. José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, Lisboa, Círculo de Leitores, 2018.
Isabel Drumond Braga