Filho de Maria Gertrudes e Jacinto Ferreira Viçoso, nasceu em Peniche, a 13 de maio de 1787, e destacou-se na história da Igreja na qualidade de bispo de Mariana, diocese no estado de Minas Gerais, Brasil, entre 1844 e a data da sua morte, 7 de julho de 1875. Residiu no Convento dos Carmelitas em Olhalvo, Alenquer, entre os 9 e os 11 anos de idade. Daí seguiu para Santarém, para uma casa da mesma ordem, que habitou durante três anos, ingressando depois no seminário, onde esteve por um período de sete anos, após os quais regressou à casa paterna, devido às dificuldades nas nomeações de alunos para os seminários em Portugal. Em julho de 1811, com 24 anos, deu entrada no noviciado da Congregação da Missão, em Lisboa, no Seminário Interno de Rilhafoles, tendo sido ordenado padre lazarista, ou vicentino, no dia 7 de março de 1818. Durante um período breve, foi professor de Filosofia no Seminário de Évora.
Em 1819, por decisão do provincial da Congregação da Missão e em resposta a um pedido do Governo de D. João VI, foi chamado a partir, com o também lazarista Leandro Rebelo Peixoto e Castro, para o Brasil, com o propósito de evangelizar os índios do Mato Grosso. Como à data da sua chegada ao Rio de Janeiro, 7 de dezembro, o encargo se encontrava atribuído a outrem, foram encaminhados para o Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens, na herdade do Caraça, serra do estado de Minas Gerais, com o projeto de estabelecer aí um colégio, efetivamente fundado por si e pelo padre Leandro, em 1821. Em setembro de 1822, foi destinado ao Colégio de Jacuecanga, em Angra dos Reis, onde se distinguiu como educador, mas também como missionário junto das populações locais. Em julho de 1837, regressou ao Caraça, para ser, ainda com o confrade Leandro, fundador da província brasileira da Congregação da Missão, da qual seria o primeiro superior-geral, eleito em 1838 e em funções até 1844. Em 1842, acompanhou a transferência do Colégio do Caraça para o Campo Belo, ainda em Minas Gerais, determinada pela turbulência política, que então grassava, entre liberais e conservadores.
A notícia de que o Imperador D. Pedro II o indicara para prelado de Mariana surpreendeu-o então e obrigou-o a dirigir-se até ao Rio de Janeiro. No período de espera pelos documentos pontifícios que viriam confirmar esta nomeação, esteve ainda na Baía, com a missão de reformar a Ordem dos Carmelitas, cujo convento local sofria de grave indisciplina. Apenas no final de março de 1844 as bulas de Gregório XVI, datadas de janeiro, chegaram ao Rio de Janeiro. A sagração episcopal ocorreu aí, na igreja de S. Bento, a 5 de maio, pelo bispo D. Manuel do Monte, sendo consagrantes os bispos D. José Afonso de Morais e D. Pedro de Santa Maria e Sousa. A primeira pastoral do novo bispo data desse mesmo dia, dando-se a sua entrada solene na diocese de Mariana a 16 de junho.
Ao longo do seu bispado de 31 anos, empenhou-se energicamente na educação, sobretudo do clero (entre outras iniciativas, traduziu livros de religião e moral, reabriu o seminário diocesano e inaugurou o colégio episcopal, sendo também sua a obra do Colégio Providência, destinado a formar as filhas das famílias mais abastadas da diocese), e aplicou-se com zelo vicentino, até ao fim dos seus dias, às obras de caridade, fundando casas para órfãs e órfãos pobres, bem como um hospital, contando para estes encargos com o apoio das Filhas da Caridade, religiosas vicentinas que o próprio solicitou ao superior-geral da Congregação da Missão. Em face dos conflitos então vividos entre a Igreja e o poder imperial, afirmou sempre a autonomia e a liberdade católicas perante o Império, assim como a sua fidelidade ao papa. O seu zelo pastoral manifestou-se igualmente na defesa dos direitos dos negros escravizados, expressa em diversos escritos, designadamente epistolares. Granjeou grande estima junto da comunidade, e o êxito da sua prelatura foi amplamente reconhecido. Está na origem dos topónimos Dom Viçoso e Viçosa, municípios do estado de Minas Gerais.
Bibliog.: ANDRADE, Marcus Alexandre Mendes de, “Dom Antônio Ferreira Viçoso, C.M. – Um estímulo à vocação vicentina e à consagração missionária”, Santuário do Caraça, s.d.: https://www.santuariodocaraca.com.br/os-padres-da-missao/dom-antonio-ferreira-vicoso-c-m-um-estimulo-a-vocacao-vicentina-e-a-consagracao-missionaria/# (acedido a 30.12.2022); GUIMARÃES, Bráulio de Sousa, Apontamentos para a História da Província Portuguesa da Congregação da Missão, vols. 1-2, Lisboa, Esfera do Caos, 2017; PIMENTA, Silvério Gomes, Vida de Dom Antônio Ferreira Viçoso, Bispo de Mariana, Conde da Conceição, 3.ª ed., Mariana, Tipografia Arquiepiscopal, 1920.
Madalena Costa Lima